Inglaterra x Argentina: rivalidade marcada por Malvinas, Maradona e Messi

Diego Maradona, marcando o 1º gol contra a Inglaterra com “La mano de Diós” na Copa de 1986. Reprodução

Quando Argentina e Inglaterra entrarem em campo nesta quarta-feira (15), em Atlanta, pela semifinal da Copa do Mundo de 2026, estarão disputando muito mais do que uma vaga na decisão do Mundial. O confronto reúne uma das rivalidades mais intensas da história do futebol, construída ao longo de seis décadas por episódios que misturam esporte, política, guerra, orgulho nacional e alguns dos momentos mais emblemáticos já vistos em uma Copa do Mundo.

Ao contrário dos grandes clássicos entre clubes, normalmente alimentados por disputas locais ou regionais, a rivalidade entre argentinos e ingleses nasceu de acontecimentos históricos que extrapolaram o gramado. Ela envolve ressentimentos que atravessaram gerações e produziram partidas que permanecem vivas na memória coletiva de ambos os países.

A semifinal desta Copa ainda traz um ingrediente inédito: será o primeiro confronto de Lionel Messi contra a seleção principal da Inglaterra em uma competição oficial, justamente em um jogo que vale uma vaga na final do Mundial.

Como nasceu a rivalidade

Embora as tensões entre os dois países tenham raízes anteriores, o futebol transformou o antagonismo em um fenômeno global durante a Copa do Mundo de 1966, disputada na Inglaterra.

Nas quartas de final, os donos da casa venceram a Argentina por 1 a 0 em uma partida marcada pela violência e pelas decisões controversas da arbitragem.

O capitão argentino Antonio Rattín foi expulso após protestar contra o árbitro alemão Rudolf Kreitlein, que alegou não entender o espanhol falado pelo jogador. A expulsão provocou enorme indignação na delegação argentina. Rattín se recusou a deixar o gramado por vários minutos e chegou a sentar sobre o tapete vermelho reservado à família real britânica, gesto interpretado como provocação.

Após a partida, o técnico inglês Alf Ramsey recusou qualquer aproximação entre as equipes. Impediu seus jogadores de trocarem camisas com os argentinos e classificou os adversários como “animais”, declaração que ajudou a transformar um jogo duro em uma rivalidade permanente.

A violência daquele confronto também reforçou a necessidade de mecanismos disciplinares mais claros. Pouco tempo depois, a FIFA adotaria oficialmente os cartões amarelo e vermelho, que estrearam na Copa de 1970.

Antonio Rattín, ao lado do árbitro (de preto), sendo expulso no Argentina x Inglaterra de 1966. Reprodução

A Guerra das Malvinas muda tudo

Se 1966 acendeu a rivalidade esportiva, a Guerra das Malvinas, em 1982, deu a ela uma dimensão completamente diferente.

Durante pouco mais de dois meses, Argentina e Reino Unido entraram em conflito pelo controle das ilhas Malvinas (Falklands, para os britânicos). A guerra terminou com vitória britânica, deixou centenas de mortos e provocou profundas consequências políticas e sociais na Argentina.

A derrota acelerou o fim da ditadura militar argentina e abriu caminho para a redemocratização do país em 1983.

Quando as duas seleções voltaram a se enfrentar quatro anos depois, na Copa do Mundo do México, o futebol passou a carregar também o peso das lembranças da guerra.

Maradona cria a partida mais famosa da história das Copas

As quartas de final da Copa de 1986 são consideradas por muitos o jogo mais emblemático da história dos Mundiais.

No Estádio Azteca, Diego Armando Maradona protagonizou dois dos gols mais famosos já marcados.

O primeiro entrou para sempre na história como a “Mão de Deus”. Aos 51 minutos, Maradona disputou uma bola aérea com o goleiro Peter Shilton e usou discretamente a mão esquerda para empurrar a bola para o gol. A arbitragem validou o lance apesar dos protestos ingleses.

Quatro minutos depois, o camisa 10 argentino marcou aquele que seria eleito pela FIFA como o Gol do Século. Recebeu a bola ainda no campo de defesa, driblou praticamente metade da equipe inglesa e finalizou diante de Shilton, completando uma jogada considerada uma das maiores obras-primas do futebol.

Anos depois, Maradona admitiu que o primeiro gol foi intencional.

Mais do que isso, afirmou que aquele lance representava uma espécie de “vingança simbólica” pelos argentinos mortos na Guerra das Malvinas.

A Argentina venceu por 2 a 1 e seguiria até conquistar o título mundial, consolidando Maradona como herói nacional. Na Inglaterra, porém, ele passou a simbolizar uma das maiores frustrações esportivas da história do país.

Beckham vira vilão nacional

Doze anos depois, outra geração escreveu um novo capítulo.

Na Copa do Mundo de 1998, na França, Inglaterra e Argentina voltaram a se encontrar, desta vez nas oitavas de final.

A partida ficou marcada pela expulsão de David Beckham.

Após sofrer uma falta de Diego Simeone, o meia inglês reagiu com um chute quando estava caído no gramado. O árbitro mostrou cartão vermelho imediatamente.

Com um jogador a menos, a Inglaterra resistiu até os pênaltis, mas acabou eliminada.

Beckham tornou-se alvo de uma campanha feroz da imprensa inglesa. Foi acusado de comprometer a seleção e conviveu durante anos com a imagem de responsável pela eliminação.

Para os argentinos, a vitória representava mais um capítulo de uma rivalidade que parecia sempre favorecer a Albiceleste.

A revanche inglesa em 2002

A redenção de Beckham veio quatro anos depois.

Na fase de grupos da Copa de 2002, disputada no Japão e na Coreia do Sul, Inglaterra e Argentina voltaram a se enfrentar.

Michael Owen sofreu um pênalti cometido por Mauricio Pochettino, e Beckham converteu a cobrança para garantir a vitória inglesa por 1 a 0.

Foi um momento de enorme simbolismo para o meia, que conseguiu reescrever sua história diante do mesmo adversário que havia marcado sua carreira em 1998.

Apesar da vitória, a campanha inglesa terminaria nas quartas de final, quando a equipe foi eliminada pelo Brasil de Luiz Felipe Scolari após o famoso gol de falta de Ronaldinho Gaúcho.

Messi escreve um capítulo inédito

A semifinal de 2026 apresenta uma curiosidade histórica.

Embora tenha disputado cinco Copas do Mundo e enfrentado seleções de praticamente todos os continentes, Lionel Messi jamais havia encarado a Inglaterra em um jogo oficial pela seleção principal.

Agora, isso acontecerá justamente em uma semifinal de Mundial.

O capitão argentino chega como atual campeão do mundo e principal referência da equipe comandada por Lionel Scaloni, que tenta conduzir a Argentina ao bicampeonato consecutivo e ao quarto título de sua história.

Scaloni procura diminuir o peso histórico do confronto nas entrevistas, insistindo que a rivalidade pertence ao passado. Mas sabe que isso é praticamente impossível.

A memória das Malvinas continua presente

A torcida argentina também demonstra que o passado permanece vivo.

Durante esta Copa, uma das músicas mais cantadas pelos torcedores é “La Cuarta Estrella” (“A Quarta Estrela”), referência ao sonho de conquistar mais um título mundial.

A letra faz menções explícitas às Malvinas, a Diego Maradona e à despedida de Messi:

“Por Malvinas, por El Diego, por la última de Leo, Argentina quiero verte bicampeón.”

(“Pelas Malvinas, por Diego, pela última de Leo, Argentina, quero ver você bicampeã.”)

A canção mostra que, para muitos argentinos, a rivalidade continua carregando um forte componente emocional e histórico.

Muito além de uma partida

Há quem sustente que esse confronto significa mais para a Argentina do que para a Inglaterra, especialmente pelo peso simbólico das Malvinas e pela forma como Maradona transformou o duelo em um elemento da identidade esportiva do país.

Mas a seleção inglesa também chega motivada.

Na campanha desta Copa, eliminou o México no Estádio Azteca e superou a Noruega de Erling Haaland em condições climáticas extremamente difíceis, reforçando a confiança de um elenco que acredita poder conquistar um título que não vence desde 1966.

David Beckham comemorando seu gol contra a Argentina em 2002. Reprodução

Do outro lado estará Messi, carregando a expectativa de milhões de argentinos e buscando escrever mais um capítulo de sua trajetória histórica justamente contra um adversário que nunca enfrentou em um Mundial.

Nas arquibancadas, um personagem completa o simbolismo do duelo: David Beckham, hoje proprietário do Inter Miami — clube onde Messi atua — acompanhará a partida entre duas seleções que marcaram sua carreira.

Ao longo de décadas, Inglaterra e Argentina produziram confrontos que ultrapassaram o futebol. A rivalidade reuniu guerras, disputas diplomáticas, vinganças esportivas, heróis nacionais e vilões eternos. Nesta quarta-feira, em Atlanta, ela ganha mais um capítulo. E, qualquer que seja o resultado, há poucas partidas na história das Copas que carreguem um peso simbólico tão grande quanto este clássico.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/inglaterra-x-argentina-rivalidade-guerra-copa/