Amazonas registra 4 estupros de vulnerável por dia e expõe falha na proteção de crianças

O Amazonas registrou uma média de quatro vítimas de estupro de vulnerável por dia entre janeiro e maio de 2026, totalizando 632 casos, conforme dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O número representa um crescimento de 37,99% em relação aos 458 registros do mesmo período de 2025 e coloca o estado diante de uma crise de proteção à infância que as prisões realizadas ao longo do semestre não foram suficientes para conter.

Aumento alarmante de casos de estupro de vulnerável

Os dados do Sinesp revelam uma escalada progressiva ao longo dos primeiros meses do ano. Em janeiro, foram registradas 86 vítimas. O número subiu para 99 em fevereiro, saltou para 142 em março, recuou levemente para 132 em abril e atingiu o pico em maio, com 173 vítimas em um único mês.

A taxa estimada de incidência acompanhou o mesmo movimento: chegou a 34,78 vítimas por 100 mil habitantes entre janeiro e maio de 2026, contra 10,60 por 100 mil habitantes no mesmo intervalo de 2025. A diferença entre os dois índices evidencia que o crescimento não é marginal, é uma ruptura no patamar de violência registrada no estado.

Perfil das vítimas e definição legal

Das 632 vítimas contabilizadas em 2026, 555 eram do sexo feminino, 62 do sexo masculino e 15 não tiveram o sexo informado nos registros. A predominância de meninas e mulheres jovens entre as vítimas é consistente com o padrão nacional de violência sexual contra pessoas em situação de vulnerabilidade.

O Sinesp classifica como estupro de vulnerável os casos enquadrados no artigo 217-A do Código Penal, que abrange a conjunção carnal ou qualquer ato libidinoso praticado contra vítimas menores de 14 anos ou contra pessoas que, por enfermidade, deficiência mental ou qualquer outra condição, não têm capacidade de consentir ou de oferecer resistência. Os registros que alimentam o painel são fornecidos pelas secretarias estaduais de segurança pública, pela Polícia Federal e pela Polícia Rodoviária Federal.

Ações de segurança e prisões

Ao longo do primeiro semestre de 2026, operações das forças de segurança resultaram em prisões de investigados por suspeita de estupro de vulnerável em diferentes municípios do Amazonas. Os casos ilustram a dimensão do problema e a variedade de contextos em que ele ocorre, incluindo dentro da própria família.

Em março, um indígena da etnia Apurinã, de 50 anos, foi preso por determinação judicial durante investigação da Polícia Civil sobre suspeitas de violência sexual contra a própria neta, de 12 anos, que engravidou. Em maio, um homem de 26 anos foi preso preventivamente em Santo Antônio do Içá após diligências que apuravam suspeitas de estupro de vulnerável contra uma adolescente de 13 anos. Em junho, um soldado da Polícia Militar do Amazonas foi preso em Manaus em cumprimento a mandado judicial expedido no âmbito de investigação sobre suspeita de estupro de duas adolescentes, com mandados de busca e apreensão cumpridos na mesma operação. Todos os casos seguem em tramitação na Justiça.

Os registros cresceram mês a mês, atingiram o pico em maio e somaram 632 vítimas em cinco meses: uma média de quatro por dia, segundo o Sinesp.

As prisões, embora necessárias, são respostas pontuais a uma curva que só cresce. A ausência de dados públicos sobre políticas de prevenção em curso no estado e sobre a taxa de elucidação dos casos impede uma avaliação mais completa da resposta institucional ao problema.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/amazonas-estupro-de-vulneravel-632/