Dino envia auditorias da CGU à PF sobre emendas com sobrepreço e superfaturamento

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o envio de duas auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) à Polícia Federal (PF), que apontam indícios de direcionamento de contratações, sobrepreço e superfaturamento na aplicação de recursos de emendas parlamentares.

A decisão, tomada no âmbito da ADPF 854, abre uma nova frente de investigação criminal sobre o uso dessas verbas públicas. Até então, as apurações se concentravam na destinação inicial dos recursos. Agora, o STF passa a mirar, também, o que acontece com o dinheiro depois que ele chega a estados, municípios e órgãos federais.

A decisão representa uma virada no eixo das investigações. O que estava sendo apurado até agora era, sobretudo, a influência de pessoas sem mandato sobre a destinação das verbas, ou seja, quem decidia para onde o dinheiro ia antes de sair do Orçamento.

Com o envio das auditorias à PF, o STF passa a pressionar pela apuração do que ocorre na ponta: como os recursos são efetivamente gastos, quais contratos são firmados e se há irregularidades nos processos de compra e contratação realizados pelos beneficiários das emendas.

Irregularidades nas emendas Pix e Dnocs

Um dos relatórios encaminhados à PF trata das chamadas emendas Pix, modalidade de transferência direta da União para estados e municípios. A auditoria da CGU analisou R$ 20,7 bilhões distribuídos entre 2020 e 2024, universo que alcançou 5.335 entes federativos, e selecionou uma amostra de 15 para fiscalização detalhada.

O diagnóstico é extenso: nove dos 15 entes apresentaram irregularidades ou deficiências nos planos de trabalho; entre os 14 que já haviam executado os recursos, nove registraram falhas em licitações, compras ou contratações.

Nos casos considerados mais graves, os auditores identificaram indícios de direcionamento de contratações, sobrepreço e superfaturamento. As falhas não se restringiram às contratações: 14 dos 15 entes foram considerados inadequados quanto aos mecanismos de acompanhamento da execução das emendas, e 12 apresentaram nível insuficiente de transparência e rastreabilidade.

Também foram encontradas irregularidades na alimentação do Portal Nacional de Contratações Públicas, ferramenta criada para permitir o controle social sobre compras realizadas com dinheiro da União. A decisão de Dino não identifica quais municípios ou estados estão associados aos achados mais graves, mas determina que o material seja encaminhado à PF para as providências cabíveis.

O segundo relatório diz respeito à execução de emendas parlamentares destinadas ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). Nesse caso, o conteúdo permanece integralmente sob sigilo.

Dino determinou, ainda, que o documento seja retirado da ADPF 854 e passe a tramitar em processo próprio, protegido pelo nível máximo de sigilo dentro do STF. Contratos analisados, valores envolvidos, municípios beneficiados e agentes públicos investigados não foram revelados.

Ampliação do escopo das investigações

Até a decisão de Dino, as investigações sobre emendas parlamentares no STF estavam centradas em um problema específico: a atuação de intermediários sem mandato que, segundo a PF, influenciavam a destinação das verbas antes de sua liberação.

Era uma disputa sobre quem controlava o fluxo do dinheiro na origem. A nova frente aberta pelo ministro desloca o foco para o destino final dos recursos, questionando o que estados, municípios e órgãos federais fazem com as verbas depois que as recebem.

Essa ampliação tem implicações práticas relevantes. Ao encaminhar as auditorias à PF, Dino sinaliza que os indícios documentados pela CGU são suficientemente graves para justificar apuração criminal, não apenas administrativa.

No caso do Dnocs, a tramitação separada e sigilosa indica que os achados podem alimentar investigações específicas, com dinâmica própria e potencialmente mais sensível do ponto de vista político.

A ausência de identificação pública dos entes e agentes envolvidos nos casos mais graves das emendas Pix também sugere que a PF terá papel central na condução das próximas etapas.

Contexto da atuação de Flávio Dino no STF

A decisão de encaminhar as auditorias à PF é mais um passo na estratégia que Flávio Dino vem construindo desde que assumiu a relatoria da ADPF 854, ação que acompanha a transparência das emendas parlamentares.

Ao longo dessa relatoria, o ministro já havia cobrado mudanças nas regras de transparência, suspendido pagamentos e determinado bloqueios de recursos ligados a investigações sobre o controle informal das verbas.

Agora, o ministro leva para a esfera criminal auditorias que apontam indícios concretos de irregularidades na aplicação dos recursos públicos, aprofundando o enfrentamento à opacidade das emendas.

O movimento consolida uma postura do STF que vai além da fiscalização formal: ao acionar a Polícia Federal com base em relatórios técnicos da CGU, Dino eleva o nível de responsabilização exigido sobre o uso das emendas parlamentares e pressiona por respostas que o controle administrativo, por si só, não tem sido capaz de produzir.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/dino-auditorias-emendas-superfaturamento/