Ex-sargento da FAB é condenado por tráfico de 37 kg de cocaína em avião presidencial

A Justiça Militar condenou o ex-sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues a três anos de prisão, em regime aberto, pelo transporte de 37 kg de cocaína em um avião da FAB em 2019. A sentença também puniu outros dois réus com penas de 22 e 19 anos, apontados como financiador e cúmplice da operação.

O caso veio à tona quando Manoel foi preso em flagrante no aeroporto de Sevilha, na Espanha, ao desembarcar de uma aeronave que integrava a missão de apoio à comitiva do então presidente Jair Bolsonaro ao G20 no Japão. A condenação não encerra o caso: uma investigação sobre lavagem de dinheiro segue em andamento na Justiça Federal.

A condenação e as penas

A Justiça Militar proferiu condenação contra três réus no caso do tráfico de cocaína em avião da FAB. Manoel Silva Rodrigues, o ex-sargento preso em flagrante na Espanha, recebeu a menor pena entre os condenados: três anos de prisão em regime aberto. Segundo a GloboNews, Marcos Daniel Pena Borja Rodrigues Gama, conhecido como Marcos Bomba e apontado como financiador ou dono da droga, foi condenado a 22 anos de prisão. Jorge Luiz da Cruz Silva recebeu pena de 19 anos, em regime fechado.

A disparidade entre as penas reflete o papel atribuído a cada réu na operação. Enquanto Manoel foi tratado como o transportador, Marcos Bomba e Jorge Luiz foram enquadrados como os operadores centrais do esquema. A sentença também absolveu outros réus, entre eles Michele Tocci e Wilkelane Nonato Rodrigues. O Superior Tribunal Militar, o Ministério Público Militar e a FAB foram procurados para comentar a decisão, mas não haviam se manifestado até o fechamento desta reportagem.

O caso de 2019: a apreensão e a repercussão

Em junho de 2019, Manoel Silva Rodrigues foi preso em flagrante no aeroporto de Sevilha, na Espanha, com 37 kg de cocaína na bagagem. Ele havia desembarcado de uma aeronave da FAB que integrava a estrutura de apoio à comitiva presidencial brasileira durante a viagem do então presidente Jair Bolsonaro ao Japão para a cúpula do G20. Bolsonaro não estava no avião em que a droga foi encontrada, fato que foi repetidamente destacado pelo governo à época, mas que não diminuiu a gravidade da situação: um militar lotado no setor responsável pelo transporte de autoridades havia usado uma aeronave oficial para o tráfico internacional de entorpecentes.

O caso gerou repercussão nacional e internacional imediata. A imagem de um avião da FAB sendo usado para transportar cocaína durante uma missão presidencial oficial colocou em xeque os protocolos de segurança da Força Aérea e a confiabilidade dos controles internos sobre o pessoal envolvido nessas operações. Antes da condenação pela Justiça Militar brasileira, Manoel já cumpria pena de seis anos na Espanha, em regime equivalente à liberdade condicional.

A rede por trás do tráfico e as investigações em curso

A prisão em Sevilha não foi um episódio isolado. Dados da Polícia Federal indicaram que Manoel havia traficado cocaína em pelo menos sete viagens oficiais antes de ser detido na Espanha. Ele era lotado no GTE (Grupo de Transporte Especial), setor da Aeronáutica responsável pelo transporte de autoridades, e realizava viagens oficiais ao exterior desde 2015, o que lhe dava acesso privilegiado e recorrente às aeronaves da FAB.

A sentença também questionou a versão apresentada por Marcos Bomba para justificar a origem de seu patrimônio. A Justiça considerou sem credibilidade a alegação de que parte dos bens teria origem na venda de um desenho antigo de um pintor que teria pertencido ao avô holandês de sua filha. A condenação na Justiça Militar, no entanto, não fecha o capítulo: há outra investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro em andamento na Justiça Federal, o que indica que a estrutura financeira por trás do esquema ainda está sendo desvendada.

Falhas na segurança e a persistência do problema

A investigação revelou que Manoel conseguiu, em ao menos uma das viagens apuradas, levar a mala com droga diretamente para a aeronave sem passar por inspeções de raio-X, pesagem de bagagem ou detector de metais. A falha não foi pontual: ela se repetiu ao longo de anos, em missões que deveriam ter os mais rígidos protocolos de controle justamente por envolverem o transporte de altas autoridades do Estado. Após o escândalo de 2019, a FAB informou que revisou e aperfeiçoou os procedimentos de segurança, incluindo os protocolos de embarque e desembarque.

O problema, porém, vai além de uma revisão de checklist. O caso do ex-sargento se insere em um padrão que levanta questões sobre a eficácia real dos mecanismos de controle dentro das Forças Armadas. Quando um militar consegue usar sistematicamente aeronaves oficiais para o tráfico internacional de drogas por anos sem ser detectado internamente, a falha não pode ser explicada apenas por lacunas procedimentais. A condenação é um passo concreto de responsabilização, mas as investigações ainda em curso na Justiça Federal e as perguntas sem resposta sobre eventuais redes de apoio dentro da estrutura militar indicam que o caso está longe de ser encerrado.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/ex-sargento-fab-37-kg-de-cocaina/