O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou nesta quinta-feira (23) uma notícia de fatos novos na Polícia Federal para que sejam investigadas três notas fiscais, que somam R$ 1,5 milhão, emitidas pelo escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para duas empresas ligadas à estrutura empresarial de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master e que atualmente está preso.
A petição pede que as informações sejam compartilhadas com os inquéritos já em andamento sobre o Banco Master, Vorcaro e a gestora Trustee DTVM. Lindbergh também solicita que a PF verifique se os serviços jurídicos declarados nas notas foram efetivamente prestados e reconstrua o caminho percorrido pelo dinheiro.
“Acabo de entrar com notícia de fato na Polícia Federal para que abra investigação sobre a relação de Flávio Bolsonaro com as empresas de fachada de Daniel Vorcaro”, anunciou o deputado nas redes sociais.
“Flávio tem muito que explicar sobre essas notas que ele emitiu e os R$ 500 mil que recebeu por supostos serviços prestados. Que serviços são esses, Flávio?”, questionou.
O que a representação pede à PF
O escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, que tem o senador como único sócio, emitiu três notas fiscais de R$ 500 mil cada em abril de 2025.
Duas delas foram destinadas à Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A. e posteriormente canceladas. Uma terceira nota, emitida para a Contábil Correa Contabilidade e Auditoria Ltda., conhecida como BR Global, permanece sem registro de cancelamento.
A representação pede que a Polícia Federal identifique o objeto dos contratos, os destinatários dos serviços e os documentos produzidos pelo escritório.
Segundo o texto, a sequência de notas de alto valor, os cancelamentos e as conexões entre as empresas formam um “conjunto de circunstâncias que somente a investigação formal, com acesso a dados protegidos por sigilo, poderá elucidar”.
Entre as diligências solicitadas estão a oitiva do contador Rogério Lourenço Novo, a preservação dos registros eletrônicos das notas e a avaliação da necessidade de afastamento dos sigilos bancário e fiscal das empresas.
A PF também é instada a reconstruir o fluxo financeiro entre o Banco Master, Daniel Vorcaro, a Copenhagen, a Contábil Correa e eventuais destinatários finais dos recursos, incluindo o escritório do senador.
A petição cita como hipóteses a serem verificadas a eventual ocorrência, em tese, de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica ou crimes tributários. O documento não afirma que esses crimes ocorreram, mas pede que a possibilidade seja investigada.
Como Flávio Bolsonaro possui foro por prerrogativa de função no Supremo Tribunal Federal (STF), Lindbergh solicita que a apuração comece pelas empresas e pessoas sem foro. Caso sejam encontrados elementos envolvendo diretamente o senador, o material deverá ser enviado à Procuradoria-Geral da República (PGR).
As notas e os serviços não detalhados
As duas primeiras notas foram emitidas em 7 de abril de 2025 para a Copenhagen, tendo como descrição serviços de consultoria jurídica. Uma foi cancelada no mesmo dia e a outra, dois dias depois.
Em 9 de abril, o escritório emitiu uma terceira nota, também de R$ 500 mil, para a Contábil Correa.
Flávio Bolsonaro confirmou que prestou serviços advocatícios para a Contábil Correa e afirmou que a contratação ocorreu de forma “completamente legal e privada”.
“Eu fiz um trabalho para uma empresa, fui contratado para isso, prestei serviços advocatícios”, declarou.
O senador, entretanto, não apresentou publicamente contratos, pareceres, petições, relatórios ou uma descrição detalhada do trabalho realizado.
Em relação à Copenhagen, Flávio afirmou que a contratação não avançou, que nenhum valor foi recebido e que as notas foram canceladas por esse motivo.
Para Lindbergh, a explicação não esclarece por que os documentos fiscais chegaram a ser emitidos.
“O que a gente quer é que Flávio Bolsonaro mostre os serviços prestados”, afirmou o deputado. “Quanto mais o Flávio Bolsonaro fala, mais se enrola.”
A emissão das notas, isoladamente, não comprova crime. Os questionamentos decorrem dos valores, da ausência de detalhes sobre os serviços e das ligações das empresas com pessoas investigadas no caso Banco Master.
Empresa de R$ 40 recebeu milhões do Banco Master
A Copenhagen foi criada em novembro de 2024, cerca de cinco meses antes da emissão das notas pelo escritório de Flávio.
A empresa foi registrada com capital social de apenas R$ 40, não possui site nem sede própria e funciona no mesmo endereço da Contábil Correa, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo.
Apesar da estrutura reduzida, teria recebido aproximadamente R$ 58 milhões do Banco Master, segundo as reportagens que fundamentam a representação. Os primeiros repasses, no total de R$ 11,2 milhões, teriam ocorrido pouco depois de sua criação.
A Copenhagen também aparece relacionada ao Fundo Estônia, administrado pela Trustee DTVM, gestora investigada pela PF por suspeitas de movimentação e ocultação de patrimônio ligado ao grupo de Vorcaro.
Flávio afirmou que não conhecia as relações das empresas com o Banco Master. Em vídeo, porém, reconheceu que a Copenhagen “foi usada por Vorcaro para fazer pagamentos para algumas pessoas”, ressalvando que esse não teria sido o caso de seu escritório.
A representação afirma que essa declaração reforça a necessidade de identificar todos os beneficiários dos pagamentos feitos pela companhia.
O contador que liga as empresas
O elo entre a Copenhagen e a Contábil Correa é o contador Rogério Lourenço Novo.
Ele aparece como sócio-administrador da Contábil Correa e diretor responsável pela Copenhagen. Ao site Metrópoles, afirmou que contratou o escritório de Flávio para atender clientes de sua empresa de contabilidade em um modelo de “quarteirização”.
O contador, no entanto, não informou quais clientes foram atendidos nem quais serviços foram realizados. Disse que procuraria as informações, mas não voltou a responder ao veículo.
Lourenço Novo também já teria sido investigado pela Polícia Federal, entre 2013 e 2015, por suspeitas de emissão de notas fiscais falsas e utilização de empresas de fachada. O valor investigado naquele caso ultrapassaria R$ 100 milhões.
Ele também integra o conselho fiscal da Ambipar, empresa controlada por Tercio Borlenghi Junior, investigado ao lado de Vorcaro por suspeitas relacionadas à manipulação de mercado.
PF também é acionada sobre filme de Bolsonaro
Lindbergh pede ainda que a PF investigue uma possível conexão com o financiamento do projeto Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
O caso anterior revelou que Flávio participou da captação de recursos com Daniel Vorcaro. Segundo informações já divulgadas, o projeto pretendia levantar R$ 134 milhões, e cerca de R$ 61 milhões teriam sido depositados em um fundo financeiro no Texas, nos Estados Unidos, controlado por Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.
Lindbergh chama atenção para a proximidade das datas. Os recursos ligados ao filme teriam começado a chegar ao Texas em março de 2025, enquanto as notas do escritório foram emitidas em abril. A existência dessa conexão é um dos pontos que ele pede que a Polícia Federal investigue.
Flávio Bolsonaro afirma que é alvo de uma operação para prejudicar sua candidatura à presidência e classificou as reportagens como criminosas. Até o momento, porém, não foram apresentados publicamente os contratos ou documentos que detalhem os serviços prestados pela banca.
O protocolo da notícia de fatos não significa a abertura automática de um inquérito contra o senador. Caberá à Polícia Federal analisar as informações, verificar sua procedência e decidir quais diligências podem ser adotadas.
“Nós queremos e o Brasil exige explicações”, afirmou Lindbergh.
Assista ao vídeo em que Lindbergh anuncia a representação na PF:
https://x.com/lindberghfarias/status/2080286947004604607
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/pf-flavio-vorcaro-notas-fiscais/

