POLÍTICAS DA DOR: Como narramos as nossas dores, hoje?

 

Hoje temos uma nova forma de fazer política, outra relação com os relatos em primeira pessoa e um modo diferente de lidar publicamente com as nossas dores. O trauma, a dor e o sofrimento são, atualmente, mobilizados de forma pública e política. Há uma política que se instala nesses lugares espinhosos e soturnos, difíceis e arriscados.

A psicanalista Colette Soler (2021) afirma que vivemos na era dos traumatismos; Catherine Liu (2026) aponta como as narrativas de sofrimento eclipsaram as lutas coletivas e se voltaram para uma dor e uma cura individuais. Nesse sentido, as políticas da dor estão envoltas em uma política do trauma generalizado, já que algo do sofrimento se espalha no social. O espectro político da esquerda e da direita também mobiliza as dores, seja pelas “feridas coloniais”, na luta decolonial ou anticolonial; seja pelos “direitos feridos”, quando a direita se coloca como vítima diante da perda de privilégios. Diante disso, seria mesmo necessário fazer uma genealogia do traumático e da sua publicização até o momento atual para reavaliarmos a potência da temática.

Contudo, sem deixar de lado a história do trauma, inicio a questão a partir de outro lugar, começo das dissidências e da sua gramática, posto que nas dissidências a generalização do traumático está posta, por isso, friso a importância política do momento do hiv/aids. A nossa hipótese é que no acontecimento hiv/aids os sujeitos foram interpelados e constrangidos a falar das suas dores como num ato de verdade. Falar da dor naquele contexto tinha uma forte posição política, já que testemunhar a vivência da aids era retirá-la do íntimo e colocá-la no público, o que perpassa tanto grupos de autoajuda, que transformavam a vergonha em orgulho, quanto grupos ativistas e ongs, que buscavam transformar o relato em formas de resistência e possíveis políticas públicas.

Nesse momento, os significantes se misturam, já que não estamos falando somente de uma dor física, mas, além disso, de um sofrimento que envolve a estigmatização e ganha a forma narrativa, seja pelo testemunho, pela confissão ou pelas narrativas autoteóricas. Na década de 1980, podemos examinar a importância da narrativa de vida com o revolucionário e político mineiro Herbert Daniel. Com Daniel, apresenta-se o relato de experiência numa reconfiguração de um regime de verdade. O relato de vida ganha um valor aletúrgico (ver Favacho, 2024).

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É possível ver na biografia de Herbert Daniel a passagem de uma militância marxista e revolucionária para o registro de uma dissidência insurgente. Esse segundo registro é o que compõe e se abre para grande parte da gramática da atual dissidência. Contudo, quando pensamos no primeiro registro, encontramos o Daniel guerrilheiro e ativo em grupos clandestinos como o VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e a ALN (Ação Libertadora Nacional). É nesse período que ocorrem os conhecidos sequestros dos embaixadores da Alemanha e da Suíça, com o intuito de negociar a libertação de presos políticos mantidos pela ditadura militar. Devido à participação nessas ações políticas, Daniel é exilado do Brasil e somente retorna em 1981.

Na vida de Daniel, o momento marxista-revolucionário e o momento de retorno para o Brasil são realmente distintos. Daniel dentro da esquerda revolucionária não abordava a sua sexualidade, pelo contrário, sua homossexualidade era escondida dos amigos mais próximos e dos guerrilheiros. Porém, quando retorna do exílio, Daniel já se apresenta publicamente como gay e passa a elaborar uma política que, avant la lettre, antecipa diversos elementos das atuais dissidências.

Para Daniel, para existir uma democracia, não se deve parar na porta da fábrica ou na beira da cama, isto é, o político integra tanto a questão do trabalho e da economia quanto a questão do corpo e da sexualidade. Dois eixos políticos, um plenamente marxista e outro que ele ia construindo tendo como eixo a sexualidade, a raça, o gênero e a ecologia, temáticas que se tornariam comuns na atual agenda política, que visa uma relação interseccional com as lutas.

Em 1989, Daniel (2018) descobriu que estava infectado com o hiv, o que complexifica, mais uma vez, a sua posição política, posto que Daniel fez emergir publicamente o que estava no íntimo. Daniel fez o testemunho da sua própria história. Não era mais o clandestino, mas colocava à baila o guerrilheiro gay e soropositivo. O brasilianista James Green (2025), na obra Revolucionário e gay, escreve que Daniel “decidiu abraçar sua condição de soropositivo de maneira semelhante aos ativistas gays e às lésbicas que optaram por afirmar a própria sexualidade” (p. 315).

Logo, o guerrilheiro coloca em cena toda a sua vida. Daniel politiza a fábrica e a cama. Sua vida é retomada e narrada de forma política. Daniel (2018), além disso, convoca os outros a saírem das suas clandestinidades e a tornarem públicas as suas vidas: “todos nós temos de nos curar da vergonha, da culpa e do medo. Falem de sua situação. Formem grupos de autoajuda e participação social” (p. 23). Essa posição é matricial de toda uma dissidência pós-1981, que começa a utilizar-se da primeira pessoa do singular ou do plural para narrar as suas dores e sofrimentos.

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Então: como narramos as nossas dores, hoje? Recorro a Herbert Daniel e ao momento do hiv/aids para enfatizar a força e a utilização da primeira pessoa, a força e a utilização de uma narrativa que envolvia um sofrimento, mas era utilizada como uma forma de intensificação da vida. Deve-se recordar que a experiência de dor e de sofrimento não é necessariamente antagônica a uma vontade de vida, à alegria e à festa, mas as reconfiguram. Faz-se festa com e diante do perigo. Ora, se Daniel mostra uma das formas com que narramos as nossas dores, essa maneira não é a única e, talvez, nem mesmo a forma hegemônica.

A crítica, à americana, com certa razão sobre o seu próprio território, censura toda uma forma de narrativa das próprias dores e sua exposição pública: a cultura da dor afastaria da agenda política os interesses das pessoas comuns e obliteraria a realidade material. Diante da dor e do sofrimento como narrativas, a luta coletiva se perderia, pois a resposta a essas questões passaria a ser tão somente individual, e o coletivo e a organização política deixariam de se colocar como um imperativo ou mesmo um horizonte. Com a narrativa da dor, poder-se-ia ganhar capital moral e reconhecimento, mas sem uma verdadeira modificação social ou subjetiva das pessoas, não haveria nem redistribuição de renda, nem justiça social. A análise estadunidense é a crítica ao indivíduo mônada, que transforma o seu microtrauma e a sua biografia num gadget a ser consumido pelo outro. Estamos diante de uma forte função do capitalismo, que é a sua constante produção de desvinculação.

A vida e o testemunho de Daniel são exemplares como um contra-argumento à despolitização da dor e de sua exposição pública. No sentido contrário, seria possível pensar em narrativas em que o eu não aparece apenas como uma exposição biográfica acoplada a um gadget, um índice do neoliberalismo e sua relação de consumo. No contexto latino-americano, diante das ditaduras, o testemunho em primeira pessoa é mais do que um gênero literário ou a afirmação de uma identidade. Em sentido oposto, o testemunho é um instrumento de luta coletiva e uma prova jurídico-política concreta. Não se trata de um eu somente particular – mas talvez não seja sem ele –, mas da construção de um si e de um sujeito político. Penso que essa herança política da utilização dos testemunhos não se perde totalmente nas narrativas dissidentes.

Contudo, a partir do início da década de 1980, fim da ditadura militar e começo da epidemia hiv/aids, o si das dissidências não é mais o sujeito que resgataria uma memória das valas da ditadura militar, mas um si da transgressão da norma e da expansão dos modos de vida. É esse si, que na atualidade parece não prescindir de um eu substancial, que podemos encontrar, ao menos em parte, na literatura, nos testemunhos e nos manifestos políticos atuais.

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Temos agora uma definição provisória de políticas da dor. Trata-se das diferentes formas pelas quais uma experiência de sofrimento é retirada do silêncio, narrada em primeira pessoa, mesmo que de forma precária e diante de reorganizações do vivido, reconhecida publicamente e convertida ou não em uma relação com uma coletividade. Uma tal forma de política é uma extensão do efeito de generalização do traumático, mas também está relacionada à história dos modos de uso da primeira pessoa e da noção de experiência.

No discurso atual, o trauma generalizado, as dores e os sofrimentos seriam nomes que damos a marcas subjetivas ou rupturas produzidas por uma adversidade ou um excesso vindo de fora. De qualquer forma, estaríamos diante do desamparo e sabemos que a conjuntura do traumático é muito ampla.

Tem-se, por exemplo, os traumatismos de guerra: perpassando o território de Gaza, Rússia e Ucrânia, mas, também, a guerra civil em toda parte; as catástrofes naturais: os terremotos, os tsunamis, contudo, além disso, os efeitos do antropoceno; as catástrofes da técnica: não é possível esquecer de Chernobyl, Fukushima, mas, igualmente, a lama das barragens em Mariana e Brumadinho.

Diante dessa conjuntura do traumático, deveríamos acrescentar como as dissidências percebem a própria norma como produtora do traumático. Não temos somente uma generalização das dores, mas, é necessário acrescentar: uma generalização das lutas. Uma política da dor nas dissidências parece ser uma política transgressiva contra a produção dos limites da norma. Hoje, as narrativas de si, em grande parte, mais do que um eu autobiográfico, constituem um si ou um sujeito político que trabalha no desfazer ou no alargamento dos limites de uma norma, uma norma que fere a carne viva.

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/politicas-da-dor-como-narramos-as-nossas-dores-hoje/