Com até 17% de indecisos, eleição pode ser decidida pelo brasileiro exausto

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputam a Presidência da República. Imagem: Ricardo Stuckert | Miguel Schincariol / AFP

Por Leonardo Sakamoto, no UOL 

Faltam poucas horas para a abertura das urnas e há uma multidão que ainda não sabe em quem vai votar. Pode até decidir na fila da seção, entre o santinho pisado na calçada, a mensagem que chegou no grupo da família às 23h47 de sábado e a recomendação do pastor durante o culto do fim de semana.

A pesquisa Datafolha, divulgada neste sábado (3), véspera do primeiro turno, aponta que, na pergunta espontânea (aquela em que o entrevistador não mostra o cartão com os nomes), Lula aparece com 40% dos votos totais e Flávio Bolsonaro, com 33%. Outros 11% se dizem indecisos. Na Quaest, o desenho é parecido, mas com mais neblina: Lula tem 35%, Flávio, 32%, e 17% não sabem responder.

Faça a conta. A distância entre os dois nos votos totais da espontânea é de sete pontos no Datafolha e de três na Quaest. Os indecisos são 11% e 17%. Ou seja, há mais gente sem candidato na ponta da língua do que a vantagem do primeiro colocado sobre o segundo.

Vale lembrar o que a espontânea mede. Quem cita um nome sem ajuda tem voto consolidado, dificilmente muda de ideia até amanhã. Já o indeciso da espontânea não é, necessariamente, alguém sem preferência, só não está certo dela. Ou certo a ponto de contar para o entrevistador.

Gráfico gerado por IA

Historicamente, o eleitorado que decide por último costuma ter mais mulheres, mais jovens e mais gente de baixa renda e escolaridade. É a trabalhadora que pega dois ônibus, cuida dos filhos e da mãe, faz bico no fim de semana e não teve tempo de acompanhar o horário eleitoral. É o rapaz que gasta o dia no corre das entregas, não se sente representado por nenhum dos lados e acha que, ganhe quem ganhar, ele não vai conseguir levar a namorada para jantar no lugar bacana. Indeciso, muitas vezes, não é desinformado. É cansado. Ou descrente.

Quais são os caminhos de agora até a urna para esse grupo? O primeiro cenário é o mais tedioso: os indecisos se distribuem mais ou menos na mesma proporção de quem já decidiu. A ordem se mantém e a pergunta passa a ser outra: se haverá ou não segundo turno. Para levar no domingo, é preciso mais da metade dos votos válidos, que excluem brancos e nulos. Com os números da espontânea, ninguém pode dormir tranquilo achando que essa conta está resolvida.

O segundo é a onda de última hora. Indeciso não decide sozinho, mas ouvindo o pastor, o patrão, a vizinha, o influenciador e o grupo de WhatsApp. Se um movimento ganhar tração nas últimas horas, pode desequilibrar o jogo. Em 2022, Bolsonaro terminou o primeiro turno bem acima do que as pesquisas da véspera indicavam – lembrança que tirar o sono de Lula e alimenta a esperança de Flávio. Ressalte-se que, com inteligência artificial barata e vídeo falso feito em minutos, a reta final é terreno fértil para mentira que viaja mais rápido que desmentido.

O terceiro é o mais silencioso: o indeciso simplesmente não aparece. Em 2022, cerca de um em cada cinco eleitores não foi votar no primeiro turno. A abstenção costuma pesar mais entre os mais pobres, seja por falta de dinheiro, por ter que trabalhar no domingo, por desalento. E isso atinge especialmente Lula. Por isso, a batalha de domingo não será só por convencimento, mas por mobilização. Quem conseguir tirar seu eleitor de casa leva vantagem.

O quarto é o voto branco ou nulo. Parece protesto, e é legítimo. Mas tem um efeito matemático que muita gente ignora: ao sair da conta dos votos válidos, ele diminui a quantidade de votos necessária para alguém vencer no primeiro turno. Na prática, quem anula ajuda, sem querer, quem está na frente.

A eleição pode ser decidida justamente por quem passou a campanha inteira longe dela. Pelo eleitor que não decorou slogan, não vestiu camisa de candidato e não transformou política em identidade. É esse brasileiro cansado, descrente e ainda hesitante que chega ao domingo carregando um poder desproporcional ao espaço que ocupou no debate público.

Se esse bloco decidir migrar em massa para uma das candidaturas na cabine eleitoral ou se abster em massa, podemos ter uma virada ou uma liquidação no primeiro turno de qualquer um dos dois. O domingo dirá se a apatia virou protesto ou se a prudência era apenas a calma que antecede o voto decisivo.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-com-ate-17-de-indecisos-eleicao-pode-ser-decidida-pelo-brasileiro-exausto/