CIO da Brink’s Brasil conta o que o câncer de mama e a TI lhe ensinaram sobre não desistir

Ana Claudia Scabello Salatine tinha um mês livre, algo raro para quem passou a carreira virando sistemas de banco em feriados. Havia pedido seu desligamento de uma empresa, assinado a proposta em outra e resolveu ocupar o intervalo com o que nunca cabia na agenda corrida da tecnologia: um check-up. Começou pelo coração, que estava ótimo. A mamografia também veio normal. Foi o ultrassom que mostrou uma sombra e, depois de uma ressonância magnética, o laboratório ligou e alertou para a gravidade do caso.

Não havia sintoma nem histórico na família. Havia um tumor na mama esquerda, tão pequeno que não era palpável. “Eu não sentia absolutamente nada. Aliás, me sentia muito bem”, lembra a executiva, hoje CIO da Brink’s Brasil. A história, que ela repete a quem quiser ouvir e que divide com o IT Forum neste Outubro Rosa, tem um refrão: “Não tenha medo de fazer check-up, porque quem procura acha, mas quem acha cura rápido”.

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O câncer de mama é o mais incidente entre as brasileiras. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 78.610 novos casos por ano no triênio 2026-2028, cerca de 30% dos diagnósticos em mulheres. No caso de Ana Claudia, a descoberta precoce encurtou o caminho. A biópsia saiu em novembro; em janeiro ela estava no centro cirúrgico para retirar as glândulas mamárias. As duas, por recomendação médica, embora o tumor estivesse em apenas uma. Não precisou de quimioterapia, seguiu o tratamento com medicação oral e, em julho, fez a reconstrução.

O emprego novo ficou para trás. Com duas viagens internacionais marcadas logo na largada, ela procurou o diretor que a havia contratado e declinou. “Neste momento, vou cuidar da minha saúde”, disse. O foco que sempre dedicou aos projetos mudou de endereço: mastologista, cirurgião plástico, laboratório. Catorze dias depois da cirurgia, ainda com pouca mobilidade nos braços, já se arrumava e se maquiava para cumprir essa rotina. Católica praticante, credita à fé a força com que atravessou o tratamento. “Não é um diagnóstico que vai definir o teu futuro”, afirma. “O câncer não é mais uma palavra de morte. Hoje a medicina está muito avançada.”

“O que você veio fazer aqui?”

Não desistir, aliás, é o que ela coloca no topo da lista quando perguntada sobre o que mais a orgulha em sua trajetória profissional. A primeira chance de abandonar o caminho veio no primeiro dia de aula de Ciência da Computação na FAAP, em São Paulo.

Eram 80 alunos, cinco mulheres. Ana Claudia sentou-se na primeira fileira e ouviu do professor de Cálculo 1: “O que você veio fazer aqui?”. Respondeu que queria se formar e ter um bom emprego. A réplica: “Você veio aqui ou para arrumar marido ou para aprender a apertar o botão do forno de micro-ondas”.

Ela não reclamou. “O que ele pensava de mim era problema dele, não meu”, diz. Uma semana depois, o reitor interrompeu a mesma aula para chamá-la à frente da sala e lhe conceder uma bolsa de estudos: ela havia passado em primeiro lugar no vestibular e nem sabia. “A partir daquele dia, tudo mudou. Ele me olhava de um outro jeito.”

Para atender ao pai, que sonhava com uma filha advogada, cursou Direito ao mesmo tempo, uma faculdade de manhã e outra à noite, e tirou a carteira da OAB. O que parecia concessão virou ferramenta. Atuou ativamente na TI em contratos, em negociações e, mais tarde, em projetos que esbarram na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e direito digital. “Você entra na faculdade de Direito querendo processar o mundo, sai de lá querendo conciliar as partes”, resume.

A carreira seguiu um roteiro que hoje quase não existe, linear, como ela mesmo define. De trainee, júnior, pleno, sênior, coordenadora, gerente a diretora, sempre no mercado financeiro, de bancos de investimento ao varejo, com passagem pelo Votorantim e sete anos e meio no Banco Volkswagen. Em uma das organizações por onde passou, eram 40 profissionais e ela, a única mulher. “Tinha que me esforçar o dobro para provar o quanto eu era competente.”

O preço aparece no álbum de família, lembra. A irmã está em todas as fotos de feriado; ela, não. Estava implantando sistema no Carnaval e nos feriados. Se pudesse dar um conselho a si mesma no início, seria o de se divertir mais. “Sempre atuei no máximo. E isso é muito desgastante”, confessa.

Foi em busca de um respiro, e de se reinventar fora do setor financeiro, que chegou à Brink’s em janeiro. Encontrou um negócio de vigilantes e carros-fortes, essencialmente masculino, em processo de abertura. Nas filiais de Brasília e Goiânia, viu mulheres se preparando para embarcar nos blindados. “Vemos na feição delas a seriedade, o profissionalismo, e como elas não se diminuem ou tentam se masculinizar”, conta. A convite da área de comunicação, tornou-se sponsor do grupo de mulheres, uma das frentes de diversidade que a companhia estrutura no Brasil, ao lado das voltadas a pessoas negras e a pessoas com deficiência. Com a CFO, a outra mulher da diretoria, diz formar a “Fintec”. “Uma não vive sem a outra. Eu preciso dos investimentos, ela entende os investimentos que a tecnologia precisa para gerar valor nos negócios”, brinca.

Fora do expediente, faz mentoria voluntária em um grupo da Saint Paul Escola de Negócios, onde se formou conselheira, e palestra para mulheres de tecnologia sempre que é convidada. O repertório vem da própria estrada, do que deu certo e do que não deu, e mira um alvo conhecido: a síndrome da impostora.

Na TI da Brink’s, sua agenda é de quem chegou para dar “um chacoalhão”. Ana Claudia descreve diversas frentes de atuação. A primeira na consolidação de atividades em um centro global de serviços compartilhados, a segunda na modernização de todo o parque de aplicações de transporte de valores (o cash in transit, principal produto da empresa), aprovada para execução neste ano e implantação no próximo, e ainda iniciativas de inteligência artificial (IA), com ferramentas homologadas pela matriz. No horizonte está ainda a integração com a NCR Atleos, cuja compra a Brink’s anunciou em fevereiro, por US$ 6,6 bilhões.

Nada disso tira o humor de quem diz acordar feliz às segundas-feiras, para espanto do marido. E a medida de sucesso que adotou cabe em uma ligação que recebe todo Natal, de um ex-profissional do seu time que hoje é superintendente de banco e cliente da Brink’s. “Acho que o melhor da história é esse”, diz. “O que você causou na vida de alguém?”, finaliza.

Fonte: https://itforum.com.br/noticias/cio-brinks-brasil-outubro-rosa-carreira/