O posicionamento político de duas tradicionais escolas de samba de Belém virou motivo de uma intensa onda de críticas nas redes sociais. O Rancho Não Posso Me Amofiná e o Império de Samba Quem São Eles enfrentaram uma enxurrada de comentários negativos após publicações relacionadas ao resultado das eleições de 2026, e até mesmo saída de membros e participantes. As manifestações trouxeram a lembrança sobre a insatisfação de seguidores que não esqueceram o apoio público das agremiações a Flávio Bolsonaro (PL) durante a campanha eleitoral à presidência da República.
A repercussão ganhou força depois que as duas escolas publicaram mensagens em seus perfis oficiais. Embora os textos adotassem um discurso de respeito à democracia e à vontade popular, muitos internautas questionaram a postura das diretorias e cobraram explicações sobre o envolvimento das instituições carnavalescas na disputa política.
Rancho Não Posso Me Amofiná: críticas após agradecimento
O Grêmio Recreativo Beneficente Jurunense Rancho Não Posso Me Amofiná publicou uma mensagem assinada pelo presidente, Jackson Santarém, na qual agradeceu à comunidade do Jurunas pelo apoio, carinho e participação no processo eleitoral.
Com o título “A FESTA DA DEMOCRACIA!“, a publicação também parabenizou o adversário político pelo resultado e defendeu o respeito às escolhas populares, destacando que as diferenças partidárias não deveriam provocar divisões na comunidade.
“A eleição passa, mas o respeito, a amizade e o compromisso com o nosso povo devem permanecer. Que as diferenças políticas não sejam motivo de divisão, mas uma oportunidade para aprendermos a conviver com opiniões diferentes”, diz um trecho da mensagem.
Entretanto, a tentativa de adotar um discurso conciliador não convenceu boa parte dos seguidores. Nos comentários, internautas criticaram a direção da escola e afirmaram que o posicionamento político não representava a opinião da comunidade jurunense.
Uma das principais cobranças envolveu o resultado eleitoral em Belém. Seguidores destacaram que Lula venceu em todas as zonas eleitorais da capital paraense, contestando a associação entre o apoio da diretoria do Rancho e a preferência política dos moradores do Jurunas.
“A NAÇÃO JURUNENSE ESTAVA COM LULA!”, escreveu uma internauta. As manifestações também trouxeram cobranças sobre a administração da agremiação e o futuro da escola no Carnaval. Alguns seguidores defenderam mudanças na presidência e criticaram a utilização do nome do Rancho em manifestações políticas.
“Não sou Jurunense, mas o meu máximo respeito a esse Escola quase centenária, mas o que deu na cabeça de vocês em apoiar alguém que é contra a cultura e o carnaval nesse país? Vocês dirigentes foram muito incoerentes”, escreveu outro usuário.
Entre as reações, também apareceram comentários de apoio ao presidente Lula, críticas à diretoria e manifestações de insatisfação com os resultados recentes da escola de samba. Antes, no dia do 2º turno de votação, 25 de outubro, o perfil do Rancho chegou a publicar um vídeo mostrando Lula sendo perguntado se estava desanimado – para levar mais uma saraivada de críticas.
Império de Samba Quem São Eles também é alvo de críticas
A situação não ficou restrita ao Rancho. O Império de Samba Quem São Eles também recebeu uma série de críticas depois de publicar uma nota oficial sobre o resultado eleitoral.
No comunicado, divulgado em 27 de outubro, a agremiação registrou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República e destacou a importância da democracia, da liberdade de expressão e das políticas públicas de incentivo à cultura popular e ao Carnaval.
A escola também manifestou o desejo de que o novo mandato fosse marcado pelo diálogo, pelo respeito à diversidade cultural e pelo fortalecimento do setor.
“Como instituição comprometida com a valorização da cultura popular, do samba e das tradições do nosso povo, reafirmamos a importância da democracia, do respeito à vontade popular e da liberdade de expressão”, diz um trecho da nota.
No entanto, a publicação provocou questionamentos sobre a postura adotada anteriormente pela direção. Seguidores lembraram o apoio público a Flávio Bolsonaro e criticaram o que consideraram uma contradição entre aquele posicionamento e a defesa da cultura popular apresentada no novo comunicado.
Um dos comentários questionou a escolha das palavras utilizadas pela escola: “Vocês vão me desculpar mas ‘registra a reeleição’??? Quem registra é o órgão oficial, no caso o TSE. Enquanto agremiação cultural, jamais, JAMAIS deveriam apoiar quem não apoia a cultura. Só decepção”.
Outro internauta relembrou uma manifestação anterior da agremiação: “‘Flavio na cabeça’ Nunca esqueceremos dessa frase 👍🏿”.
Também houve cobranças relacionadas à decisão de utilizar o nome institucional da escola durante a campanha. “Todos tem direito de manifestar seu apoio a qualquer candidato. Afinal vivemos em democracia. Mas que isso seja feito como pessoa física e não como representante de uma comunidade inteira”, escreveu uma seguidora.
Outros usuários questionaram a retirada de publicações anteriores de apoio ao candidato derrotado e cobraram mudanças na administração da escola.
Política e Carnaval: o centro da polêmica em Belém
A reação às duas publicações evidencia o desgaste provocado pela associação entre as agremiações carnavalescas e a campanha eleitoral. Para parte dos seguidores, dirigentes podem manifestar suas preferências políticas individualmente, mas não deveriam apresentar esse posicionamento como se representasse toda a comunidade que constrói e mantém as escolas de samba.
O debate também ganhou uma dimensão cultural. Nos comentários, internautas lembraram as críticas históricas de setores conservadores às manifestações populares, ao samba e ao Carnaval, cobrando coerência das instituições que têm a cultura como parte central de sua identidade.
Assim, mesmo depois do encerramento da disputa eleitoral, Rancho Não Posso Me Amofiná e Quem São Eles continuam no centro de uma polêmica que ultrapassou o resultado das urnas. Nas redes, a cobrança agora se concentra na relação entre as diretorias, os integrantes das escolas e as comunidades que elas representam.
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/rancho-e-quem-sao-eles-levam-chuva-de-criticas-apos-apoio-a-flavio-bolsonaro/

