Assistir Marighella é dever dos patriotas – Hora do Povo

Seu Jorge (Marighella) e Adriana Esteves (Clara) em “Marighella”, de Wagner Moura (foto: divulgação)

VALÉRIO BEMFICA (*)

Durante mais de dois anos o aparato burocrático da Cultura, sob o domínio do bolsonarismo, fez de tudo para atrapalhar ou até impedir o lançamento de Marighella, longa de estreia de Wagner Moura. Quando fui assistir ao filme, no feriado da República, entendi o porquê. A sessão, além dos aplausos, encerrou-se com um estrondoso coro: Fora Bolsonaro! Antes que eu saísse do complexo de cinemas terminou a exibição em outra sala. O mesmo coro podia ser ouvido do saguão. Amigos que assistiram em outros dias relataram a mesma coisa.

De imediato me veio à lembrança a música Pesadelo, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, composta nos anos de chumbo e que só passou pela censura graças à malandragem de um de seus autores. É um poderoso libelo contra a ditadura e a repressão. Mas que, desafiadoramente, em seu verso mais contundente, afirma: “Que medo você tem de nós, olha aí”. A ditadura, com toda a sua empáfia autoritária, morria de medo dos artistas brasileiros. E Bolsonaro, arremedo bufo de ditador, tem mais motivos ainda para, como diziam os antigos, pelar-se de medo do filme de Moura. Mais adiante veremos a razão.

Antes de gastar tinta com o muar-em-chefe, caro leitor, falemos um pouco mais do filme. Há várias formas de analisar uma obra cinematográfica: o enredo, o roteiro, a fotografia, o som, a montagem. Sob todos estes aspectos o leitor pode ter certeza de que Marighella não deixa nada a desejar. Se porventura não é perfeito em algum deles – nenhum filme é – isso não compromete o resultado final.

O elenco tampouco tem qualquer destaque negativo. Seu Jorge consegue exprimir a grandeza e a ternura do personagem título com surpreendente maestria. Luiz Carlos Vasconcelos (Almir / Joaquim Câmara Ferreira) e Jorge Paz (Jorge / Virgílio Gomes da Silva) conseguem demonstrar, ao mesmo tempo, a firmeza e a generosidade dos grandes mártires que representam no filme. Bruno Gagliasso (Delegado Lúcio / Sérgio Paranhos Fleury) consegue compor um personagem tão asqueroso quanto a figura que o inspirou. Não à toa o ator declarou ter se baseado “nos heróis de Bolsonaro”. O conjunto dos atores, mais do que desfilar seu talento e competência, parece – assim como o diretor – acreditar no projeto, ter a certeza de que precisa contar aquela história. E isso faz a diferença.

Um outro aspecto que poderia ser analisado é o da fidelidade histórica. Quando a ficção se baseia em fatos e personagens reais, vive um dilema. Nem sempre a realidade dá boa dramaturgia. É preciso, de vez em quando, inserir alguma coisa que não aconteceu mas, como já disse um grande cineasta, deveria ter acontecido. Às vezes é preciso abreviar, resumir, condensar fatos e personagens. Só que isso pode, ao mesmo tempo, mutilar a memória e aviltar a história. Wagner Moura consegue caminhar com destreza neste fio de navalha. Eventuais detalhes que não correspondam exatamente à realidade parecem-nos exatamente isso: detalhes. O filme é fiel à história.

E, talvez, na habilidade e nas escolhas de Moura resida o grande mérito – e a grande potência – do filme. Uma leitura rasa de grandes mestres da dramaturgia – de Brecht em particular – faz com que muitos autores busquem matizar excessivamente os personagens. As fraquezas do herói devem ser ressaltadas tanto quanto suas grandezas. Mesmo o pior vilão deve ser mostrado como um ser humano sensível em algum aspecto. O resultado disso, em geral, é um pastiche, uma obra que finge tomar posição, mas que, na verdade, iguala traidores e traídos, explorados e exploradores, verdade e mentira, bem e mal.

Wagner Moura foge desta armadilha e constrói um grande filme. Marighella é apresentado como realmente foi: um herói da Nação Brasileira. Alguém que não admite vítimas inocentes em suas ações. Que aceita por a vida em risco para cumprir a promessa feita ao filho. Que se preocupa com a segurança dos companheiros mais do que com a sua própria. Que ri, que chora, que ama, que se dispõe a dar a vida para fazer o que é certo. E Fleury também é retratado como foi: um verme, uma pústula. Um policial da banda podre, corrupto, assassino, covarde. O diretor foge dos meios-tons – e acerta.

E nisso encontramos a razão do pânico bolsonarista com o filme. Nele vemos quem são os verdadeiros patriotas. Jorge / Virgílio, sob tortura morre bradando: “estão matando um brasileiro!”. Lúcio / Fleury desfecha o golpe final e retruca com desdém: “morreu um brasileiro”. Qualquer máscara de patriotismo de Bolsonaro cai por terra frente ao martírio dos heróis retratados no filme.

Em sua derradeira mensagem ao filho, Marighella pede a ele que se lembre do pai como alguém “leal, honesto, amoroso”. Exatamente o oposto do que é Bolsonaro: desleal, desonesto e incapaz de amar alguém que não seja ele mesmo. O filme de Wagner Moura tem o mérito de retratar homens como Marighela como são: gigantes. E seres como Bolsonaro também como são: piolhos. Não é pouca coisa.

Explica-se o pânico bolsonarista com o filme e as ridículas tentativas de mobilizar seus robôs na internet para baixar a avaliação dele nos sites especializados: “Que medo você tem de nós, olha aí”!

Assista. Se você não conseguir soltar um sonoro “Fora Bolsonaro!” ao fim da sessão, compre uma passagem – só de ida – para Miami…

(*) Presidente do Centro Popular de Cultura da UMES (CPC-UMES).

Fonte: horadopovo.com.br/assistir-marighella-e-dever-dos-patriotas