Casa Dequigiovanni, em Bento Gonçalves: a maturidade do vinho

Jatir Dequigiovanni, nosso anfitrião (Crédito: cortesia Casa Dequigiovanni)

A maturação da terra, das videiras e da própria uva para o vinho integram um capítulo que só aos enólogos é dado ler. Assim são as pessoas que amadurecem para o trabalho, para as vocações e para receber bem.

Por Paulo Atzingen (De São Paulo)*

Percorro as linhas (aqui na Zona Rural de Bento Gonçalves são linhas e não estradas) e vejo as casas dos colonos, todas bem cuidadas, não há pobreza. A uva e o vinho são a moeda corrente. O carinho que se tem com a terra e suas vinhas se estende no cuidado que se tem onde se mora.

Aqui se usa o tu e não o você e a fala das pessoas deixa o rastro por onde a Itália plantou seus filhos. As varandas, mesmo nas casas simples de madeira, têm cadeiras que convidam quem passa a se aproximar, sentar e ficar. As janelas têm vasos e as paredes dessas casas são pintadas com o capricho de quem ama o seu lugar, vive ali a sua verdade plantada, seja pelos filhos que botou no mundo, seja pela terra que domesticou e semeou, seja pelas pedras, tocos e capins que tirou do caminho.

Casa Dequigiovanni

Um pouco adiante do Vale dos Vinhedos, na Linha Eulália, conheço o espaço enogastronômico Casa Dequigiovanni, de Jatir Dequigiovanni. Quem me apresenta o lugar é o amigo alquimista Werner Schumacher.

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Quadros dos ancestrais: história

História longínqua e recente

A Casa Enogastronômica Dequigiovanni é um espaço onde Jatir não só guarda sua história longínqua – com os quadros de seus antepassados pendurados na parede – mas é onde ele apresenta sua história mais recente, por completo e sem ensaios. Dequigiovanni é um multiartista, que lavra a terra para o cultivo da uva e empresta para cada cliente sentado à mesa e que bebe seu vinho um rastro de seu trabalho, um aroma de sua lida, um buquê em que se juntam sua vida de enólogo, seu passado de filho de colonos e lavradores. É aqui, dentro dessa casa que vejo o que via lá de fora. Aqui passado e presente se misturam e, quanto mais se misturam, mais originais ficam.

É aqui, dentro dessa casa que vejo o que via lá de fora. Aqui passado e presente se misturam e, quanto mais se misturam, mais originais ficam.

Jatir com a ajuda dos filhos Arthur e Emanuelle tocam a cantina. Fazem a comida autêntica italiana, a mesma que seus pais e avós faziam. “Acostumamos com aquela coisa fantástica que o italiano sabe criar que é a alegria. Não basta a comida ser boa e o vinho ser bom, é preciso alegria. O vinho faz cantar! Vocês já viram alguém beber vinho e ficar triste”?, pergunta aos clientes que brindam à vida, à casa, e à amizade.

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Os clientes são recebidos e servidos pelo próprio próprio anfitrião (Crédito: Cortesia Casa Dequigiovanni)

Dequigiovanni abre a cada visitante que senta à mesa uma garrafa de vinho de onde sai o aroma das safras passadas.  Ele nos traz uma bateria de bebidas de sua adega que servem como aperitivo para os pratos que chegam. Sim, Dequigiovanni nos traz polenta, capeletti, nhoque, tortéi e todas aquelas iguarias típicas que os ancestrais italianos transmitiram ao seus descendentes. À medida que os pratos vinham da cozinha ele falava de suas filhas e filhos produzidos ali: cerveja, espumantes, grapa, cachaça, sucos de uva, vinagre balsâmico…

“Mas preservem suas papilas, pois trago uma surpresa para vocês!”. Era inacreditável! Nosso anfitrião ainda guardava mistérios naquela noite! Jatir coloca sobre a mesa uma garrafa com o rótulo: Barbera Gran Reserva, safra de 2005.

“Este é o meu Barbera Gran Reserva, de 2005. 16 anos vos contemplam!”, afirma o enólogo abrindo o raro exemplar extraído de sua principal adega.

Acompanhado de Werner, apreciamos o vinho até a última gota.

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Jatir coloca sobre a mesa uma garrafa com o rótulo: Barbera Gran Reserva, safra de 2005 (Crédito: DT)

Rotas Turísticas

Enólogo de formação, Jatir Dequigiovanni descende da linhagem dos plantadores de uva do Vale dos Vinhedos e de Bento Gonçalves e a fundação da cantina foi uma forma de se adaptar aos novos tempos. “Fazemos parte de duas rotas turísticas: a rota Cantinas Históricas e Rotas Encantos de Eulália”, adianta mostrando agora seu lado empresarial.

“Nosso intuito é fazer chegar os costumes italianos de nossa gente ao público que nos visita e que não conhece as tradições italianas. Nosso pai, nossa mãe, avós, nossa cultura, nossa música, nossa comida”, diz Jatir. Depois de duas doses de grapa, uns três copos de cerveja e meia garrafa de vinho Barbera, não tinha mais nenhuma dúvida quanto a isso.

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Enólogo por formação, Jatir Dequigiovanni descende da linhagem dos plantadores de uva do Vale dos Vinhedos e de Bento Gonçalves (Crédito: DT)

Canto em Italiano

Depois da sobremesa, Jatir apresenta aos frequeses uma outra safra, produzida com o mesmo cuidado quando se lavra a terra: ele canta, e canta bem em italiano -a penúltima flor do Lácio – sucessos que marcaram várias gerações: Champagne, Tornero, L’Italiano e vários outros hits. O espírito de uma época e dos ancestrais italianos pairam sobre esta adorável cantina.

A maturação da terra, das videiras e da própria uva para o vinho integram um capítulo que só aos enólogos é dado ler. Assim são as pessoas que amadurecem para o trabalho, para as vocações e para receber bem. Jatir Dequigiovanni é assim.

Serviço:

Endereço

Linha Eulália, s/n Zona Rural, Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, Brasil, 95700-000

(54) 999448156

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    Fonte: diariodoturismo.com.br/casa-dequigiovanni-em-bento-goncalves-a-maturidade-do-vinho-e-em-receber-bem