Cartunista Gilmar Machado prêmiado na França globaliza Fora Bolsonaro

São Paulo – O cartunista Gilmar Machado participou pela primeira vez do festival de Saint Just le Martel, tradicional salão de humor na pequena cidade francesa, com menos de 3 mil habitantes, a 12 quilômetros de Limoges, principal município da região, e a 400 de Paris (que, dizem, quer ficar com o festival). Pé-quente, recebeu o Grande Prêmio Internacional de Imprensa Estrangeira, exatamente na 40ª edição do evento. E, com seu trabalho, ajudou a ampliar a movimentação internacional contra o presidente brasileiro.

Durante os nove dias de salão, com participação de 140 artistas – número um pouco menor que o habitual ainda devido à pandemia –, o brasileiro teve de responder muitas perguntas sobre a situação do país. Principalmente sobre a Amazônia, a floresta, os índios. “As pessoas perguntavam muito”, lembra Gilmar. Ele conta que procurou “ampliar o universo”, para mostrar que os problemas daqui são bem mais amplos. “A gente tem um problema econômico sério, violência, pobreza desemprego, inflação, racismo, preconceito…”

É o que ele procura mostrar seus trabalhos. Um combate com “ferramenta artística”, como define. “Acho muito importante mostrar para o mundo, neste momento em que o mundo todo se volta para o Brasil com olhos críticos. A gente mesmo não entende muita coisa do que acontece no Brasil, imagine lá fora”, diz Gilmar, ainda surpreso com o prêmio recebido – que faz referência a uma vaca, animal muito comum naquela região.

Gilmar com seu prêmio, charge recente do desenhista, cartaz do festival e as “vacas” no centro de exposição (Reprodução/redes sociais e blog do autor)

Chamou a atenção de Gilmar a participação do público nas exposições. “Eles olham cada desenho com atenção, perguntam, questionam os artistas. A gente vê a importância da arte, como eles valorizam. Temos de caminhar muito nesse sentido.”

Da mesma forma, a comunidade se envolve com o evento, jovens e moradores em geral trabalham de forma voluntária. Durante a semana, escolas levam as crianças. O evento é pago. O ingresso inteiro custa € 6 (R$ 38, pelo câmbio atual), reduzido para € 4 em algumas situações, e com entrada gratuita em outros casos.

Convidado por Joe Bonfim, um brasileiro que mora há duas décadas na França, o cartunista Gilmar levou um apanhado de seu trabalho recente. Uma produção de charges feitas durante o atual governo e publicada em dois livros – o terceiro está a caminho. É um “projeto de documentação” deste período, explica.

Trecho de informe distribuído no festival, com apresentação dos participantes

Nascido em Presidente Dutra, interior baiano, Gilmar, 56 anos, chegou aos 9 em São Paulo. Lamenta não ter conhecido Henfil pessoalmente. “Ele saiu do Pasquim com uma visão muito ampla do movimento político no Brasil”, observa, lembrando que o cartunista decidiu ir para a região do ABC paulista porque era lá que “as coisas estavam acontecendo”.

Com longa passagem pelo movimento sindical, Gilmar “observou e aprendeu” com toda aquela geração, que reunia, além de Henfil, gente como Laerte – que também desenhou durante muito tempo para entidades de trabalhadores –, Angeli, Glauco e outros. Artistas de talento e com visibilidade na mídia. Que ajudaram a desenvolver uma visão crítica da sociedade.

É isso que anima o artista neste período complicado do país. Com novos desafios, políticos e profissionais, outro formato de circulação, com o sumiço dos veículos impressos e a ampliação das redes sociais. “Eu me sinto útil e respiro.” Enquanto isso, o brasileiro aproveitou a passagem pela França e pediu aos colegas que mandassem seu recado ao governante. “Todo mundo topou.”

Fonte: www.redebrasilatual.com.br/cultura/2021/10/cartunista-gilmar-premio-festival-franca-globaliza-fora-bolsonaro