Dom Paulo, 100 anos: ensinamentos para se construir resistência hoje

São Paulo – Coordenador da Pastoral Operária Metropolitana de São Paulo, Paulo Pedrini, não guarda nenhuma dúvida de que se dom Paulo Evaristo Arns estivesse vivo hoje, aos 100 anos, “não se calaria, como nunca se calou, diante de qualquer arbitrariedade”. O que dá ao historiador, educador e militante dos direitos humanos tal convicção é a trajetória do cardeal arcebispo de São Paulo, cujo centenário de nascimento é celebrado neste 14 de setembro. Desde o início do ano, Pedrini, junto com outros ativistas e entidades organizam uma comissão para criar iniciativas que relembrem o legado e os ensinamentos do religioso em defesa da democracia e dos direitos humanos neste centenário.

Mas a celebração acabou por ganhar um ímpeto a mais ao ocorrer uma semana depois do 7 de setembro, marcado por uma manobra do presidente Jair Bolsonaro que foi às ruas para cobrar pautas anti-democráticas, para “recuar” um dia depois. Morto em 14 de dezembro de 2016, aos 95 anos, dom Paulo deixou “ensinamentos para a sociedade fundamentais para construir a resistência hoje”, como explica.

“Dom Pedro Casaldáliga dizia que dom Paulo era um modelo de profeta. Ele era aquele que anuncia, denuncia e conforta. Porque de dom Paulo não podemos esquecer essa dimensão de quanto ele acolheu todos aqueles que foram marginalizados e vítimas de todo o tipo de perseguição. E nunca pediu carteirinha para ninguém, acolheu a todos indistintamente”, destacou Pedrini a Marilu Cabañas, em entrevista ao Jornal Brasil Atual nesta terça.

As facetas de dom Paulo

Em um momento considerado “tão difícil” da história brasileira, ele dividiu um pouco de sua convivência com o cardeal arcebispo, acompanhado do advogado, membro da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns, a Comissão Arns, ex-presidente e vice da Comissão da Verdade da OAB São Paulo, Belisário dos Santos Júnior, também próximo do religioso. Juntos, eles compartilharam “gestos inesquecíveis” de dom Paulo, como quando ele, após assumir a diocese em São Paulo, vendeu o palácio episcopal, na região central. E, com o dinheiro arrecadado, US$ 5 milhões, investiu na compra de terrenos para a construção de igrejas na periferia paulista. 

Pedrini e Belizário também relembraram o esforço do cardeal em desenhar as convenções internacionais contra a tortura. o que no Brasil permite a fiscalização de todos os espaços de privação de liberdade. Até o ato de coragem do religioso em comandar um ato ecumênico na Catedral da Sé para o jornalista Vladimir Herzog, assassinado nos porões da ditadura civil-militar. “Dom Paulo não fez, ele faz 100 anos porque é uma memória viva. Não passa um dia sem que a gente lembre alguma coisa que ele tenha feito, ou que tenha dito”, explicou Belizário. 

As homenagens aos ‘dois Paulos’

O centenário começou sendo lembrado por uma missa na Catedral da Sé e um ato na praça Vladimir Herzog, na Bela Vista, ainda pela manhã. Mas as homenagens devem seguir até a próxima segunda (20) com uma sessão solene na Câmara Municipal de São Paulo. A paixão de dom Paulo pelo time do Corinthians, que garantiu a autoria do livro Corintiano, Graças a Deus (Ed. Planeta, 2004), e sua luta pela redemocratização também serão lembradas no sábado (18) com a inauguração de um espaço em sua homenagem no Memorial do Esporte Clube Corinthians Paulista. O ato será restrito por conta da pandemia de covid. Mas às 12h a exposição será aberta para visitação do público geral. 

A comissão ainda prepara uma homenagem conjunta a outro Paulo. Nesse caso, o educador e patrono da educação brasileira Paulo Freire, que também completaria 100 anos no próximo dia 19. Como forma de destacar as contribuições desses ilustres brasileiros, 100 pessoas e entidades serão homenageadas pelo Prêmio Dois Paulos. A premiação ocorre às 19h e será transmitida pela TV PUC e o canal do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc-SP. 

Marielle Franco, Sonia Guajajara e o padre Júlio Lancellotti são alguns dos nomes que serão condecorados com uma escultura de dom Paulo e Paulo Freire. A estatueta foi criada a partir de um registro fotográfico dos dois no teatro Tuca, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Na ocasião, o patrono da educação “confessou” ao cardeal que “tinha uma grande tentação na vida”. “Quando me pedem o currículo, sou muito tentado a colocar que nasci no mesmo ano, no mesmo mês e cinco dias depois do senhor”, contou. Ao que dom Paulo respondeu “e ainda tem o mesmo nome”.

Para tratar da vida desses grandes mestres, será lançado no sábado também o documentário “Dois Paulos na Paulicéia”. Dirigida por Carlos Pronzato e produzida por Paulo Pedrini, a obra ficará disponível a partir das 19h, no canal no Youtube do diretor. “Na pauliceia porque foi o lugar onde eles se encontraram e desenvolveram muitas ações e reflexões conjuntamente”, explica o produtor. 

Essa são alguns das formas de eternizá-los, como conclui o integrante da Comissão Arns. “Nós lembramos de dom Paulo com um carinho imenso e como se ele estivesse aqui hoje, dando a palavra de coragem e esperança (…) Quando ele falava ‘vamos embora com coragem’, as pessoas iam embora com coragem e davam sentido a isso como dão até hoje. Ele faleceu há cinco anos, mas para nós ele está vivo e continuará vivo nessas memórias e pequenas estatuetas”. 

Encontro de dom Paulo Evaristo Arns com o patrono da educação brasileira, Paulo Freire (Foto: Instituto Paulo Freire)

Redação: Clara Assunção

Fonte: www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2021/09/dom-paulo-100-anos-ensinamentos-construir-a-resistencia