Duplo atentado no Afeganistão expõe 'irresponsabilidade' dos EUA

São Paulo – Ao menos 108 pessoas morreram no duplo atentado ocorrido nas proximidades do aeroporto de Cabul, capital do Afeganistão, nesta quinta-feira (26). De acordo com levantamento da agência de notícias Associated Press divulgado na manhã desta sexta (27), autoridades do país e dos Estados Unidos já confirmam a morte de 95 afegãos e 13 militares dos EUA. Mais de 160 pessoas ficaram feridas. 

O ataque aconteceu enquanto milhares de pessoas ainda tentavam deixar o país, em voos de evacuação, após o regresso do grupo fundamentalista Talibã ao poder do Afeganistão, no último dia 15 de agosto. O retorno do grupo, que chegou a governar o país entre 1996 e 2001, marcou o fim de 20 anos da presença militar dos EUA, que determinou a saída de suas tropas do país até 31 de agosto.

O prazo, definido pela gestão do presidente Joe Biden, contrariou os pedidos dos países do G7, que reivindicam a extensão da data. Mas o cenário de conflitos também pode mudar, de acordo o secretário geral do Instituto da Cultura Árabe e professor titular da Unicamp Mohamed Habid. 

EUA e Talibã juntos?

Isso porque, após o grupo ISIS-K, braço regional do Estado Islâmico, assumir a autoria do atentado, Biden prometeu vingança contra os autores do atentado. “Não vamos perdoar ou esquecer. Vamos caçar os terroristas e fazê-los pagar por isso”, anunciou o democrata ontem. Mas para dar conta da represália e impedir novos ataques, que o governo dos EUA teme que possam acontecer ainda nesta sexta, o Pentágono já estaria compartilhando informações de inteligência com o próprio Talibã, como já noticia a imprensa internacional.

Embora a rede terrorista também seja inimiga do Talibã, a avaliação do professor da Unicamp é que os ataques nas proximidades do aeroporto seriam uma resposta do Estado Islâmico principalmente aos Estados Unidos. O que pode mudar inclusive o olhar da opinião pública mundial sobre os fundamentalistas do Talibã. 

“Os EUA têm bases militares na Ásia Central e no Oriente Médio, onde aviões podem sair e chegar até a área para fazer um trabalho de investigação espacial e localizar esse grupos. E obviamente será feito isso com a colaboração do Talibã. Os Estados Unidos devem fazer uma outra ação para dizer ao ISIS-K que saíram, mas continuam presentes. Eles têm drones que podem carregar munições, fazer ataques, matar. Ainda têm poder militar para garantir a presença deles dentro do Afeganistão inclusive”, aponta Habid em entrevista a Marilu Cabañas, do Jornal Brasil Atual

População do Afeganistão em risco

Nessa nova queda de braço, porém, o que não mudará é que os maiores prejudicados continuarão sendo os afegãos, sobretudo as afegãs, já vítimas do risco de perda de seus direitos. O presidente do Instituto de Cultura Árabe alerta que é a população civil quem pode “pagar em vida” o preço da saída “irresponsável” dos EUA, como classifica.

“Caberia e seria o mínimo esperado dos Estados Unidos, sejam democratas ou republicanos, ter o mínimo de ética para acionar a ONU e seus diferentes órgãos para participar nesse processo gradual de transferência de poder para os talibãs. Infelizmente não fizeram isso. (Os EUA) não tiveram autorização da ONU para invadir há 20 anos. Mas, no mínimo, agora na saída, deveriam respeitá-la e pedir essa fase de transferência de poder para que o povo afegão não pague caro”, adverte. 

Redação: Clara Assunção

Fonte: www.redebrasilatual.com.br/mundo/2021/08/duplo-atentado-afeganistao-eua