E agora, Jair? – Paulo Kliass

E agora, Jair?

A popularidade do Presidente e de seu governo despencam a cada nova pesquisa semanal divulgada. Ao mesmo tempo, em todas as sondagens percebe-se um derretimento de seu potencial em eventual tentativa de reeleição em outubro do ano que vem

Jair Bolsonaro (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Desde que foi estabelecido o reconhecimento, ainda que tardio, da injustiça cometida pelo nosso Poder Judiciário em relação aos direitos de Lula, o xadrez do jogo político foi completamente alterado. Em 15 de abril deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou os processos que haviam sido conduzidos de forma arbitrária e ilegal pelo Juiz Sergio Moro, em escancarada articulação com a turma da chamada República de Curitiba. Como o tempo da política parece obedecer a uma cadência particular, pouca gente se dá conta de que as sentenças determinadas pelo chefe da Operação Lava Jato foram consideradas sem efeito há pouco menos de 7 meses.

Pois nesse breve período de tempo quase tudo mudou. Bastaram apenas algumas semanas após esse gesto de mea culpa tardia do STF para que as pesquisas de opinião captassem aquilo que havia disso impedido justamente por Moro em 2018. Todos se lembram de que a intenção dos processos marcados pelo viés condenatório ilegal era enquadrar Lula a qualquer custo e, com isso, evitar que ele pudesse retornar ao Palácio do Planalto através do voto popular.

A sequência veio com a aceleração da campanha eleitoral e o apoio oferecido por parte das elites tupiniquins ao representante da extrema direita no pleito. A aproximação com Paulo Guedes facilitou o trânsito do defensor da tortura e da pena de morte junto à nata do financismo, uma vez que o aprendiz de banqueiro e operador do mercado financeiro assegurava mundos e fundos caso Bolsonaro vencesse as eleições. Uma vez divulgado o resultado, ele foi de fato ungido a superministro da área econômica, concentrando um poder que jamais havia ocorrido na história deste país.

No entanto, passados quase 3 anos desde o começo do novo governo, os resultados de tanto poder oferecido a um só auxiliar deixaram muito a desejar. Do ponto de vista da economia e da política, Bolsonaro está em uma situação muito – mas muito mesmo – pior do que aquela que encontrou. A popularidade do Presidente e de seu governo despencam a cada nova pesquisa semanal divulgada. Ao mesmo tempo, em todas as sondagens percebe-se um derretimento de seu potencial em eventual tentativa de reeleição em outubro do ano que vem.

Parece óbvio que as dificuldades de Bolsonaro vão bem além de seus problemas no front econômico. Estão aí os escândalos na seara da corrupção, envolvendo auxiliares e aliados políticos, sem contar os casos mais próximos, de seus familiares. Deverão pesar bastante também as mais de 600 mil mortes pela covid, cuja responsabilidade mais direta cabe ao negacionismo do Presidente. O retorno do Brasil ao mapa da fome e o aumento exponencial dos bolsões de misérias são aspectos que pesam bastante na avaliação negativa de Bolsonaro.

No entanto, a incapacidade em operar de forma positiva na economia torna bastante complicada possibilidade de alguma mudança de rota em pleno movimento do transatlântico. O capitão terminou por conferir poder exagerado a um ministro que não se preocupava com a política ou com a situação do povo. Paulo Guedes permaneceu quase 3 anos no governo jurando para si mesmo o seu próprio compromisso com o doutrinarismo fiscalista e com a ortodoxia monetarista. Seguiu rezando pela cartilha ultrapassada do Estado mínimo e da austeridade máxima. Vai entregar um Brasil destruído.

Bolsonaro está percebendo, talvez tarde demais, que o tempo é curto para que ele consiga apresentar alguma coisa de positivo que fortaleça sua tentativa de reeleição. O Presidente ameaçou e Guedes acabou por aceitar o acordo recente para permanecer mais alguns meses no governo. Às favas com o teto de gastos e viva a contabilidade enganadora e criativa. A economia agora é comandada pelo fisiologismo do Centrão, sob o comando de Ciro Nogueira na Casa Civil, articuladíssimo com seus pares Arthur Lira e Rodrigo Pacheco nas presidências duas casas do Congresso Nacional.

O interessante é observar que as críticas a Guedes e Bolsonaro originadas nos grandes órgãos de comunicação revelam um sentimento de orfandade. Sentem-se traídos pelo superiministro pelo fato de ele ter, na prática, abandonado a austeridade fiscal agora no fim da feira. Criticam a PEC dos Precatórios por ela permitir uma elevação malandra e escondida das despesas, mas não manifestaram uma só crítica ao longo do triênio, em todos os momentos em que o governo lançou seus petardos para destruir o Estado e promover o desmonte de suas políticas públicas.

O desespero de Bolsonaro aumenta a cada dia. Ele tenta repaginar o reconhecido internacionalmente Programa Bolsa Família e até promete reajustes salariais a categorias de servidores públicos que lhe eram simpáticas até pouco tempo atrás. Mas a trajetória não será nada fácil. A pergunta que ele deve se fazer a cada noite, vendo sua imagem no espelho do banheiro antes de tentar dormir, é essa do título: “E agora, Jair?”.

Fonte: www.brasil247.com/blog/e-agora-jair