Menos de um ano após Covas dizer que zerou fila da creche, 28 mil crianças aguardavam por vaga

São Paulo – Ao menos 28.592 da rede pública municipal de São Paulo nove meses após o então prefeito Bruno Covas (PSDB), morto em janeiro desse ano, e seu sucessor, o atual , anunciarem que tinham zerado a fila da creche. Os dados, no entanto, já estão defasados, pois se referem a setembro e só foram publicados em 10 de novembro, após questionamento da Rádio Brasil Atual sobre a falta de atualização.

As piores situações estão em distritos como o de Sapopemba, na zona leste, com 1.250 crianças na fila; Tremembé, na zona norte, com 1.010 crianças esperando vaga, e no Grajaú, na zona sul, com 988. A auxiliar administrativa Letícia Marinho, moradora do Jardim Myrna, na região do Grajaú, conta que está há quatro meses esperando uma vaga para o filho Arthur, de um ano e cinco meses. 

“Tem quatro meses que solicitei a vaga para o meu filho e eles pediram para aguardar. Falaram que em até cinco dias úteis me davam uma resposta, mas não me responderam até agora. Já liguei lá e disseram que ainda não tem vaga para ele. Pago muito caro para uma pessoa cuidar dele e como também pago aluguel e tudo, para mim, fica ainda mais pesado ter que pagar por essa pessoa”, relata a auxiliar.

Enganando a população

Letícia conta ainda que pediu informações sobre a vaga nesta terça-feira (16) e foi informada que ainda há 60 crianças na fila, na frente do filho dela. Para o vereador e membro da Comissão de Educação da Câmara Municipal, Celso Giannazi (Psol), a situação mostra que o anúncio do fim da fila, em 12 de dezembro do ano passado, não passou de uma “maquiagem” nos dados.

“O que o prefeito Ricardo Nunes e sua administração têm feito é maquiar as demandas de vagas nas creches. Porque desde o ano passado, durante a campanha eleitoral, com o prefeito Bruno Covas ainda, a administração tentou maquiar criando vagas, creches e escolas fantasmas para zerar a fila. E o que nós víamos eram unidades que não tinham a mínima estrutura para serem unidades escolares e que já estavam desembolsando recursos públicos”, contesta o vereador.

Fila da creche, um problema antigo

Professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante do Fórum Paulista de Educação Infantil, Célia Serrão também avalia que a prefeitura se aproveitou da pandemia e do ensino remoto para inflar o número de matrículas realizadas.

“No ano passado, nós estávamos nessa época sem o atendimento presencial. Era isolamento completo, nenhuma atividade presencial com as crianças. Tivemos um aumento bastante significativo de matriculas num momento em que a atividade proposta era mediada pela tela e houve um aumento grande de matrículas em creche, de 0 a 3 anos. O que nós acompanhamos e ficamos preocupados no passado, era que muitas vagas foram atribuídas a salas que não existiam. Matrículas foram feitas com vagas que na verdade não existiam”, descreve. 

Essa situação remete ao que a RBA revelou em janeiro de 2018. À época, quando Doria era prefeito de São Paulo, centenas de crianças foram matriculadas em creches . Não havia qualquer previsão concreta de quando elas poderiam frequentar as aulas. Mesmo assim, as crianças foram retiradas dos dados de demanda escolar, reduzindo artificialmente a fila da creche.

Em junho desse ano, numa nova investida para , o governo Nunes publicou a Instrução Normativa 21, aumentando o número de bebês por turma nas creches. Pela regra, o berçário 1, que atende crianças até um ano, passaria de 7 para 9 crianças por educador. E o berçário 2, de 11 meses a 2 anos, passaria de 9 para 11. Giannazi conseguiu derrubar a medida na Justiça. Ele destaca que o governo Nunes não tem projeto de ampliação do atendimento, apenas de precarização do que já existe.

Riscos à educação infantil

A professora avalia que um aumento do número de crianças por turma, nos berçários 1 e 2, para resolver a demanda, vai prejudicar severamente a qualidade do ensino e até mesmo a segurança das crianças. Outra medida proposta recentemente pelo governo Nunes é a extinção da divisão de crianças em minigrupos. O que também pode prejudicar o atendimento das crianças em creches.

Hoje, o minigrupo 1 atende até 12 crianças com idades de 2 a 3 anos. E o minigrupo 2 atende até 25 crianças na faixa etária de 3 a 4 anos. A proposta de Nunes é que eles sejam um grupo só, chamado de multietário, com até 19 crianças, de 2 a 4 anos, o que permitiria ampliar o número de crianças atendidas. Essa medida também prejudicaria o atendimento das crianças, pois elas estão em momentos diferentes do desenvolvimento. O vereador também ingressou com uma ação judicial contra a medida. Nesta terça, a justiça deu 72 horas para a prefeitura se manifestar sobre o tema. O governo Nunes, contudo, não respondeu aos questionamentos da RBA.

Fonte: www.redebrasilatual.com.br/educacao/2021/11/um-ano-apos-prefeitura-dizer-que-zerou-fila-da-creche-ao-menos-28-mil-criancas-aguardam-vaga