'Rachadinha' aumenta pressão e volta a assombrar clã Bolsonaro

São Paulo – As gravações que apontariam o suposto envolvimento direto do presidente Jair Bolsonaro no esquema conhecido como “rachadinha”, divulgadas nesta segunda-feira pelo portal UOL, aumentam a pressão sobre o mandatário e sua família. Por conta da revelação, o senador Renan Calheiros, relator da CPI da Covid, defendeu nesta segunda-feira (5) a convocação da ex-cunhada de Bolsonaro, Andrea Valle.

O termo “rachadinha” se caracteriza pelo repasse da parte da remuneração de assessores aos políticos que os contratam. Em boa parte dos casos, trata-se de funcionários fantasmas, ou seja, que mantêm outras atividades fora do “emprego” público. Assim, ficam com uma parte do dinheiro público recebido sem trabalhar e “racham” o salário recebido indevidamente com quem os “emprega”. Portanto, é dinheiro público que se esvai nos bolsos de políticos que não trabalham como deveria. Isso porque, se contratam gente que não precisa trabalhar, é porque o gabinete funciona mal ou não funciona. “Rachadinha”, desse modo, é um apelido que minimiza uma possível grande operação de desvio de dinheiro público.

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Num primeiro momento, o esquema denunciado – em investigação avançada no Ministério Público do Rio de Janeiro – envolveria o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) e o policial militar aposentado Fabrício Queiroz. O ex-PM trabalhou como assessor e motorista do parlamentar quando ele era deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Segundo as reportagens publicadas hoje pelo UOL, surgiu um novo personagem, o coronel Guilherme dos Santos Hudson. Colega de Jair Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras, Hudson é tio de Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher do presidente. E é apontado como o responsável por recolher o dinheiro no suposto esquema no gabinete de Flávio Bolsonaro. É o que consta das gravações de Andrea Siqueira Valle, ex-cunhada do presidente, divulgadas pelo portal.

Flávio, também conhecido como “Zero Um”, filho mais velho do presidente da República, foi denunciado em outubro de 2020 pelo MP-RJ por peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa. Antes, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) constatou movimentações na conta de Queiroz de cerca de R$ 1,2 milhão, de janeiro de 2016 a janeiro de 2017.

Grande família

As investigações do MP envolveram Fabrício Queiroz e suas filhas Evelyn e a personal trainer Nathália, além da mulher do ex-assessor, Márcia Oliveira de Aguiar, que trabalharam no gabinete de Flávio na Alerj. Nathália Melo de Queiroz assessorou Flávio Bolsonaro de 2007 a 2016 e teve emprego no gabinete do hoje presidente Bolsonaro quando ele era deputado federal.

O comportamento de Nathália se enquadra como o de uma funcionária fantasma, segundo o MP. As apurações mostraram que ela repassou a seu pai mais de R$ 600 mil do salário na Assembleia Legislativa. Ela exercia outras atividades no período em que tinha o cargo nos gabinetes de Flávio e de Jair Bolsonaro.

No final de 2018, já eleito, o presidente admitiu ser amigo de Queiroz havia mais de 30 anos. Sobre um depósito de R$ 24 mil feito por Queiroz na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, tema que viralizou em forma de memes nas redes sociais, o presidente justificou dizendo que era referente a parte de uma dívida de R$ 40 mil que o ex-PM tinha com ele. Em junho do ano passado, Queiroz foi preso na casa do advogado Frederick Wassef  – amigo e advogado do clã Bolsonaro – em Atibaia.

Depois de idas e vindas judiciais, entre prisão domiciliar e presídio, Queiroz conseguiu no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em março passado, assim como a mulher, o fim da prisão domiciliar, decisão confirmada pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em abril, o ex-PM e assessor da família Bolsonaro comemorou o aniversário da filha personal trainer com direito a foto no Instagram.

Na edição em inglês nesta segunda-feira, a Agência Reuters repercutiu reportagem sobre o caso da “rachadinha”. Afirma que “Jair Bolsonaro esteve envolvido em um esquema para roubar salários de seus assessores enquanto era deputado federal”, em referência às informações e áudio supostamente da ex-cunhada do presidente no Uol.

O argentino Página 12 publicou artigo, assinado por Eric Nepomuceno, intitulado “Bolsonaro, o colecionador de escândalos”. “É impressionante a velocidade com que novos escândalos surgem tendo como eixo o presidente de extrema direita Jair Messias Bolsonaro”, afirma.

O britânico The Guardian também fala do tema. “O presidente brasileiro ficou mais pressionado depois de ser pessoalmente implicado em um suposto esquema de corrupção envolvendo apropriação indébita de salários de aliados”.

Fonte: www.redebrasilatual.com.br/politica/2021/07/rachadinha-pressao-cla-bolsonaro