“Medidas emergenciais devem seguir enquanto durar pandemia”, diz Nilson

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Para economista, “o dinheiro tem que vir de emissão monetária, não de mais dívida” 

O primeiro turno das eleições municipais foi marcado pela derrota do bolsonarismo, avaliou o economista Nilson Araújo de Souza, em roda de conversa organizada e mediada pelo jornalista Osvaldo Bertolino, com a participação de Jorge Gregory.

“Foi principalmente um desastre para Bolsonaro. Ele apoiou vários candidatos e não elegeu nenhum no primeiro turno nas capitais. Dois ficaram para o segundo turno: Rio de Janeiro e Fortaleza, mas vão perder. O bispo no Rio saiu bem atrás nas pesquisas”, disse o economista e professor. “Foi uma derrota estupenda para ele”.

Ao analisar a situação econômica do país e diante da ameaça da segunda onda da Covid-19, o professor Nilson Araújo afirmou que as medidas emergenciais devem continuar enquanto houver pandemia. Segundo ele, a questão é como manter as pessoas vivas e a economia crescendo diante da pandemia e, para isso, o Congresso Nacional, terá mais uma vez um papel decisivo diante da crise.

“Quando começou a pandemia já havia crise. A pandemia agravou profundamente a crise. No segundo trimestre do ano, que é o primeiro trimestre completo de pandemia, o Produto Interno Bruto caiu 9,7%, foi lá para baixo. O terceiro trimestre – ainda não saiu o levantamento do IBGE – mas a prévia do PIB, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central, teve um crescimento de 9,47%, com base nisso, o Guedes está dizendo que a crise foi em “V”, caiu mas subiu ao mesmo tempo, que já saímos da crise, que saímos da recessão. Por que ocorreu isso? Teve um fato positivo que resultou nessa melhora, que não se deve ao Bolsonaro, se deve à oposição no Congresso que aprovou as medidas emergenciais.

Nilson destaca “particularmente o auxilio emergencial, que injetou renda na economia e fez a economia se levantar no terceiro trimestre. Isso explica essa recuperação no terceiro trimestre”. “Teve um fato negativo que levou a isso também. Foi a maneira atabalhoada pela qual se suspenderam as medidas de segurança em relação à crise sanitária. Voltaram a trabalhar, aumentou a produção, mas com risco de entrarmos na segunda onda da Covid-19”.

Segundo o economista, a recuperação verificada no terceiro trimestre “está começando a piorar”. “Está crescendo cada vez menos. Por um lado, porque se retirou o estímulo. O auxilio emergencial baixou para 300 reais, para um gasto de R$ 25 bilhões, estão injetando menos renda na economia”.

“E tem um dado mais grave ainda: para o Orçamento do ano que vem foi cortado, em relação ao Orçamento executado esse ano”, disse. “Esse ano foi executado 28% do PIB, dos gastos primários da União, do governo federal, no ano que vem será 20% do PIB, Isso significa fazer desabar a economia. A tendência é cair agora e ficar mais tempo lá embaixo por conta da retirada do estímulo e, além disso, vai ter esse corte brutal no orçamento público”.

Para o professor Nilson, com esse governo que está aí a recessão vai continuar e de maneira mais grave e destaca a explosão do desemprego no país como expressão disso.

DESEMPREGO

Segundo o IBGE, no trimestre móvel terminado em fevereiro, 11 milhões de pessoas estavam desempregadas no país. No trimestre móvel terminado em agosto, eram 14 milhões de pessoas. “Isso significa, por essa lógica, que o desemprego teria aumentado em 3 milhões de pessoas. Mas isso é uma maneira ilusória de ver a coisa”, diz Nilson. Segundo ele, muita gente foi demitida e não foi procurar emprego, não aparece nas estatísticas do IBGE.

“Essa estatística está escondendo uma parte fundamental do desemprego”, disse o professor, que analisou os dados a partir da queda da população ocupada. “Em fevereiro havia 93,7 milhões de pessoas empregadas, ocupadas. Em agosto, 81,7 milhões – isso significa que 12 milhões de pessoas saíram do mercado de trabalho, saíram da força de trabalho. E não entraram nesse cálculo do IBGE de 14 milhões computados pelo IBGE”.

“Sem falar nos 5,9 milhões de desalentados. Se somar isso, 32 milhões de pessoas, na prática, estão desempregadas ou no desalento. A taxa de desemprego real, dos que não estão procurando emprego, mas estão desempregadas, é acima de 20%”.

Segundo Nilson, uma parte dessas pessoas está recebendo o auxílio emergencial e no momento em que essa parcela ficar completamente sem renda, vai ser “um problema social e vai afetar violentamente a demanda e empurrar a economia para baixo”, uma economia que já está sendo empurrada pela arrocho fiscal do governo.

De acordo com o professor, as medidas emergenciais implementadas pelo governo frente à pandemia foram insuficientes e atabalhoadas. “Foram pelo caminho errado, por emissão de títulos da dívida”. A dívida bruta saiu da casa de cerca de 70% do PIB para 100%, um aumento violento. Nilson defende que o dinheiro para fazer frente à crise sanitária e econômica “deve vir da emissão monetária, não pode vir de mais dívida”.

Para ele, o Congresso Nacional tem que entrar nessa questão e garantir de imediato a continuação das medidas de emergência pelo tempo que durar a pandemia. O critério temporal deve ser o momento em que a vacinação for feita em larga escala, testando e fazendo o isolamento seletivo daqueles que foram diagnosticados. É preciso alterar o critério de enfrentamento da doença e fazendo o “isolamento seletivo baseado na ciência”.

“O Congresso vai ter que entrar nessa questão de onde é que vem o dinheiro. O dinheiro tem que vir de emissão monetária, não de mais dívida. E garantir de imediato a continuação das medidas de emergência enquanto durar a pandemia. O critério de interromper as medidas emergenciais tem que ser a vacinação em larga escala. As próprias medidas emergenciais já ajudam na recuperação”, disse o economista.

“O auxílio começou atrasado e depois cortado pela metade. Sobre o apoio à micro e pequena empresa, foi aprovado um programa de crédito, mas o dinheiro ficou empoçado nos bancos. O apoio aos Estados e municípios, também aprovado pelo Congresso, foi feito de maneira insuficiente. Os governadores todos reclamaram”, disse Nilson.

“Tem condição de fazer, além da emissão, os ricos não pagam imposto no Brasil. Remessa e dividendo para o exterior, ninguém paga imposto. Os ricos ficaram mais ricos durante a crise, e não foi só aqui”.

“A emissão monetária não é o caminho que nós inventamos, os Estados Unidos estão fazendo isso, a Europa está fazendo. Estão dizendo que (a emissão) gera inflação, não é verdade. E ai, para citar o Keynes, a emissão só gera inflação se a economia está em plena atividade. Mas se tem capacidade ociosa, como é o caso, você pode gerar demanda ocupando a capacidade ociosa”.

Sobre os dados crescentes de inflação, o professor afirmou que a escalada de preços dos alimentos não se deve ao excesso de demanda.

“O que ocorreu é que tinha arroz para atender a demanda interna, mas o governo não optou por ter um estoque regulador e tudo foi para a exportação. Não é por excesso de demanda”.

PRIVATIZAÇÃO

Sobre as declarações de Paulo Guedes de que saída para o endividamento é a entrega das estatais, Nilson afirmou: “Primeiro que mesmo que torrasse todas estatais nem de longe daria para alcançar a dívida, não vai chegar nem próximo disso. Além desse caminho ser estrategicamente contra o desenvolvimento do país. O caminho dele gera recessão, estagnação e desemprego”.

“O caminho tem”, enfatizou Nilson. “Emissão monetária, tributação dos ricos para aumentar a arrecadação, aumentar o investimento público. E esse caminho não passa pela entrega das estatais”.

Nilson destacou que o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo, 7% nas décadas de 30 a 80, adotando o caminho alavancado pelo investimento público e fortalecimento do mercado interno. “Foram quatro décadas perdidas abandoando o caminho do investimento público e do mercado interno”.

Fonte: horadopovo.com.br/medidas-emergenciais-devem-seguir-enquanto-durar-pandemia-diz-nilson