“Síndrome da gaiola”: comportamento que pode afetar volta à escola

A educação foi uma das áreas mais afetadas com a pandemia pela necessidade do distanciamento social como forma de evitar aglomerações. Mas com o avanço da vacinação tem sido possível o retorno de algumas atividades presenciais como a volta à escola. Ainda que no sistema híbrido (presencial e on-line) e com protocolos de reabertura definidos, esse retorno pode não ser tão simples, pois as incertezas do momento seguem afetando as pessoas de forma geral.

E a pandemia do novo coronavírus não afetou só adultos. De acordo com estudo apresentado à Comissão Externa de Enfrentamento à Covid-19 da Câmara dos Deputados pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em junho deste ano, uma em cada quatro crianças e adolescentes precisou de intervenção profissional por causa de sintomas de ansiedade e depressão.

Toda essa mudança de hábito, com o medo de contaminação constante, provocou o que os especialistas chamam de “síndrome da gaiola”, em referência a um fenômeno comum a passarinhos engaiolados que, mesmo quando são libertados, se recusam a voar por medo.

“É importante frisar que a “síndrome da gaiola” não é um diagnóstico médico, é um fenômeno comportamental que está ligado à necessidade de nos mantermos seguros diante dos perigos da pandemia. O que podemos dizer é que ela aparece diante do medo do contágio, do medo de morrer ou ficar com sequelas graves após internações pela Covid, fazendo com que o comportamento de se isolar seja uma forma de proteção”, explica a psicóloga da Humana Saúde, Giovanna Costa (CRP 21ª/01744).

Com o retorno às aulas presenciais, crianças e adolescentes podem apresentar sintomas relacionados à síndrome da gaiola. “É importante avaliar o comportamento das crianças e dos jovens como ter atenção com o aumento da ansiedade, observar se há recusa em sair de casa e se essa recusa é acompanhada de sofrimento evidente e intenso”, destaca a especialista.

Estimular pequenas saídas e ajuda profissional são importantes

A psicóloga recomenda ainda a adoção de pequenas ações para ajudar as crianças no processo de retorno às atividades normais. “É importante que se fortaleça a rede de apoio dessas crianças e jovens. Dentro da família é possível começar pela estimulação em fazer pequenas saídas de casa com todos os cuidados reforçados. Pode ser uma visita a um parque, farmácia ou fazer alguma atividade da vida diária. Na escola, é importante reforçar a segurança, manter todos os cuidados de prevenção para que os jovens e crianças possam se sentir à vontade e protegidos”, enfatiza Giovanna.

Além dessas ações, buscar ajuda profissional é necessário, principalmente quando os comportamentos observados afetam de forma a trazer prejuízos à vida e à saúde. “Muitos pacientes iniciaram atendimento on-line com a demanda de não conseguirem sair de casa para nada. As maiores queixas são crises de ansiedade de intensidade moderada a grave, medo da contaminação e de morrer”, destaca a especialista da Humana Saúde.

Escola vai além de aprendizado

A escola proporciona benefícios que vão além da aprendizagem de conteúdos. É no convívio escolar que as crianças e os adolescentes desenvolvem independência e aprendem a viver em coletividade. Com a pandemia, essas experiências foram retiradas de forma brusca, o que pode afetar sua saúde física e mental.

“Não ir à escola pode acarretar muitos prejuízos principalmente na área social, de relacionamentos e interação, já visto que a escola não é um lugar apenas para aprender saberes educacionais, mas é o local onde as relações afetivas e de suporte social são construídas”, ressalta a psicóloga.

“Não há levantamentos específicos com relação à incidência do problema ou quais públicos são mais afetados, mas é possível avaliar que é um fenômeno que trará muitas consequências negativas no retorno às atividades normais e no pós-pandemia. A boa notícia é que somos seres extremamente adaptáveis e podemos construir novos sentidos a partir dos desafios que se apresentam atualmente”.