Essa história que não terminou é a história de um golpe de Estado

Parei para tomar café numa dessas cafeterias instaladas em quiosques de shopping paulistano. E me vi de frente a uma loja pertencente a uma rede que até pouco tempo atrás só trabalhava com roupa feminina. Mas que agora também passou a trabalhar com roupa masculina.

Observei que a escada rolante que liga os dois andares da loja estava desligada. Escada rolante é uma dessas invenções que mudaram paradigmas. Em vez de você subir a escada, a escada é que sobe você. Porém, aquela escada estava desligada, logo. Logo, subi-la exigiria um esforço extra, porque a altura dos seus degraus é, no mínimo, desconfortável.

Tomou meu pensamento a ideia de que ninguém iria ao segundo andar, porque uma loja como aquela, que deve ganhar muito na relação entre o custo e o benefício de suas vendas, deveria, no mínimo, garantir algum conforto para que o seu cliente acesse o segundo pavimento. Afinal o cliente vai pagar pelo produto o que a loja estabeleceu a partir de todos os ganhos já conquistados, tais como subvalorização da mão-de-obra da trabalhadora e do trabalhador, e da relação de mais-valia com os vendedores e demais funcionários.

Fui surpreendido, entretanto, por pessoas envidando esforços para subir a escada rolante desativada, inclusive acompanhadas de crianças, cujos esforços, naturalmente, eram maiores ainda.

Isso nos dá uma pista para entender um povo que não reage. Por exemplo, diante do fato de que, enquanto o país assiste a . Com cidades inteiras alagadas, com a destruição do patrimônio e das condições de vida de milhares de pessoas, o presidente da República passeia de jet-ski.

Também sugere explicação para a passividade de um povo que ouve do seu presidente a acusação de que é “tarado em vacina”, e de que . Isso porque não teriam morrido, segundo ele, crianças em número suficiente para justificar a vacinação. Certamente não morreram crianças suficientes da família do presidente.

E o povo fica absolutamente inerte diante de uma afirmação que poderia provocar a acusação de assassino ao presidente .

A população não se mexe, não exige o indiciamento e a deposição imediata do presidente. Simplesmente assiste essa fala que condena suas crianças à exposição ao vírus. Aliás, vírus que já aumentou exponencialmente o número de casos no país.

Talvez isso explique toda a inércia brasileira diante dos poderes constituídos da nação. Diante do abuso de poder e da irresponsabilidade do Executivo. Da conivência do Legislativo para com o mandatário, que faz afirmações dessa natureza. Assim como da instabilidade do Judiciário, que ora parece que vai fazer a lei funcionar, ora toma medidas para salvar tanto o presidente como a sua família de indiciamentos mais sérios. Ações que poderiam mudar o curso da administração do Estado brasileiro.

O fato é que um povo que está disposto a envidar um esforço extra para subir uma escada, que devia carregá-lo, para comprar o produto de uma loja que não demonstra o mínimo compromisso para com o cliente diz muito.

Fala de um servilismo e de uma ausência absoluta de senso de dignidade. E, desse modo nos faz perceber o custo de ser uma sociedade construída a partir de quatro séculos de escravização. Da relação de opressão, apoiada por todas as instituições do país, abençoada pela igreja de Roma, e tornada cultura.

Por isso estamos certos de que haverá eleições, ainda que o presidente já tenha indicado que vai resistir a qualquer resultado que não sua vitória.

Isso sem contar a impressão que assalta a todos nós de que essa história toda ainda não terminou. Sim, essa história é a história de um golpe de estado.

é coordenador da . E apresentador do programa Daqui pra Frente, todas as quartas, às 20h, na TVT

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Fonte: www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2022/01/essa-historia-que-nao-terminou-e-a-historia-de-um-golpe-de-estado