EUA retiram pessoal e enviam 91 toneladas de armas à Ucrânia

São Paulo – Os Estados Unidos anunciaram nesta segunda-feira (24) a retirada de familiares dos seus diplomatas na Ucrânia. Além disso, informaram aos seus cidadãos que vivem no país que as tensões com a Rússia podem se deteriorar “sem aviso prévio”. Três dias antes, na sexta (21), a embaixada dos Estados Unidos em Kiev divulgou fotos da chegada de cerca de 91 toneladas de “armas letais”, incluindo munições, que foram entregues aos ucranianos. A alegação é reforçar as defesas do país diante da “crescente agressão”.

Com ares de , a tensão entre Estados Unidos e Rússia vem aumentando nos últimos dias. Os estadunidenses acusam os russos de terem movido cerca de 100 mil soldados, além de tanques e veículos de combate para regiões próximas às fronteiras ucranianas.

Na semana passada, os Estados Unidos acusaram os russos de pretenderem invadir a Ucrânia “a qualquer momento”. Até mesmo o presidente Joe Biden chegou a dizer que o presidente russo, Vladmir Putin, teria se decidido pela ofensiva. “Meu palpite é que ele vai atacar.”

A investida ocorreria após uma operação de “bandeira falsa”. Tropas especiais russas se disfarçariam de soldados ucranianos num ataque contra o próprio país, para justificar a suposta invasão.

Na sequência, o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, negou qualquer intenção desse tipo. “Vocês afirmam que nós temos a intenção de atacar a Ucrânia, por mais que nós já tenhamos explicado que isso não é verdade”, disse.

Tensões

De acordo com os norte-americanos, um dos cenários prováveis seria a anexação, pelos russos, de Donetsk e Lugansk. Trata-se de duas regiões de maioria russa que faziam parte do leste da Ucrânia. No entanto, desde 2014, Donetsk e Lugansk são reconhecidas como “regiões autônomas”, inclusive pelo próprio governo ucraniano. Apesar do acordo firmado em 2014, são constantes os atritos militares entre tropas e milícias ucranianas e tropas “rebeldes” das regiões autônomas. O temor é que a Rússia venha a fazer em Donetsk e Lugansk o mesmo que ocorreu na Crimeia.

Nesse sentido, de acordo com o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC Flávio Rocha, membro do Observatório de Política Externa da instituição, o governo ucraniano colabora para a escalada das tensões nessas regiões como forma de manter vivo o apoio dos Estados Unidos. Os russos, no entanto, exigem respeito ao Protocolo de Minsk, que oficialmente pôs fim ao conflito entre os ucranianos e os rebeldes das regiões autônomas. Apesar do avanço das tensões nos últimos dias, Rocha disse, em entrevista ao site , que nem Rússia nem os Estados Unidos devem partir efetivamente para o uso da força.

Apesar do esforço estadunidense para reunir aliados ocidentais contra os russos, essa posição não é unânime. Durante o final de semana, o comandante da Marinha alemã, Kay-Achim Schönbach, renunciou ao cargo. Dias antes, em um vídeo no Youtube, ele disse que o que Putin realmente quer é “respeito”. “É fácil dar a ele o respeito que ele realmente quer e provavelmente merece”, disse o ex-comandante.

O que Putin exige, na verdade, é que a Ucrânia e a Georgia não sejam incorporadas à Organização do Tratado do Atlântico-Norte (Otan). Desde o fim da União Soviética e a dissolução do Pacto de Varsóvia, em 1991, a aliança ocidental avançou para incluir países que pertenciam à órbita de Moscou. Atualmente, países como Albânia, Bulgária, Croácia, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia e Macedônia fazem parte da aliança liderada pelos Estados Unidos.

Nesse sentido, Putin e Lavrov exigem que os Estados Unidos se comprometam a deter esse avanço. Ucrânia e Georgia são a “linha vermelha” que os ocidentais não devem ultrapassar. Os russos receiam que ocidentais sejam colocados a minutos de Moscou. Como retaliação, eles chegaram a anunciar que poderiam ampliar a presença militar russa em Cuba e na Venezuela, por exemplo.

Por outro lado, como ocorreu em décadas atrás, as tensões entre Estados Unidos e Rússia também têm motivos econômicos por trás. Outrora a disputa se dava entre dois modelos de produção antagônicos – capitalismo e socialismo. Agora, a disputa passa pelo controle do mercado energético europeu. Mais especificamente, pelo mercado de gás alemão.

No epicentro da controvérsia geopolítica, está o gasoduto , que terá capacidade de fornecer 55 mil milhões de metros cúbicos de gás por ano à Europa. O polêmico gasoduto já foi oficialmente concluído, mas não começou a funcionar.

Com gás abundante e transporte mais eficiente, os russos teriam ampla vantagem em relação ao gás de xisto produzido pelos norte-americanos. “Não só o governo Trump, mas Biden também se opôs ao gasoduto. A hora que ele começar a funcionar pra valer, ele vai ser um calcanhar de Aquiles não só pra EUA e Europa, mas pra Ucrânia também”, Rocha. 

Não é por outra razão que, além da escalada militar, os estadunidenses ameaçam os russos com retaliações econômicas no caso de uma invasão à Ucrânia. O país, contudo, já vive sob sanções econômicas por parte dos Estados Unidos e da União Europeia desde 2014, quando houve . O golpe agora seria mais contundente. Os norte-americanos prometem banir os russos do Swift, o sistema internacional para transações financeiras. Irã, Cuba e Venezuela já foram excluídas desse clube.

Fonte: www.redebrasilatual.com.br/mundo/2022/01/eua-retiram-pessoal-e-enviam-91-toneladas-de-armas-a-ucrania