A reinvenção do melodrama na era digital

Em 2024, três dos aplicativos mais rentáveis baixados nos Estados Unidos e em países asiáticos não ofereciam jogos, notícias ou redes sociais. Ofereciam, sim, microdramas ficcionais com uma média de 60 episódios, cada um deles com um minuto e meio de duração. Feitos sob medida para o consumo rápido, emocional e incessante nas telas dos celulares. Plataformas como ReelShort, DramaBox, GoodShort, MyDrama, NetShort e tantas outras vêm reinventando o melodrama popular para uma nova geração. O que elas oferecem é mais do que entretenimento: é uma forma de narrativa adaptada à lógica simbólica do tempo presente.

O fenômeno já despertou a atenção da grande imprensa. Em janeiro de 2024, o New York Times perguntou se a América estava preparada para novelas de um minuto. O Washington Post descreveu os microdramas como “hipnoticamente absurdos”, mas inegavelmente eficazes na retenção do público. The Economist foi além, classificando o aplicativo ReelShort como a mais recente exportação cultural chinesa, depois do TikTok, a conquistar os EUA. Le Monde e The Guardian analisaram a estética do “vertical drama” como sintoma das transformações no comportamento cultural e na economia da atenção. Ou seja, o que parecia uma excentricidade viral tornou-se objeto de análise crítica por veículos que raramente dedicam espaço à ficção popular.

Seus enredos são simples e irresistíveis. CEOs que se apaixonam pela assistente humilde, esposas traídas que planejam vingança, médicos que salvam vidas com poderes extraordinários. A atuação, muitas vezes caricata, e a produção frequentemente modesta não impedem que esses vídeos viralizem. Ao contrário: são elementos que fortalecem o envolvimento emocional e a identificação. Cada episódio termina em um gancho dramático, convidando o espectador a seguir adiante — ou pagar para isso.

Para muitos, trata-se de um subproduto da economia da atenção. Mas um olhar mais atento revela algo mais profundo: a permanência e a reinvenção do melodrama como forma narrativa central na cultura popular. Seu sucesso não é uma mudança de rota, mas uma continuidade — em nova roupagem — de um gosto enraizado historicamente.

As novelas de rádio foram um gênero popular de entretenimento no Brasil durante as décadas de 1940 e 1950, especialmente na Rádio Nacional do RJ. Nos anos 1960 e 70, as fotonovelas eram onipresentes nas bancas brasileiras. Impressas em revistas baratas, traziam imagens encenadas com balões de diálogo e narravam histórias de amor, traição e superação. Eram consumidas massivamente, sobretudo por mulheres, e provocavam o mesmo efeito: envolvimento afetivo e expectativa contínua pelo próximo capítulo. Não por acaso, sua linguagem influenciou diretamente as telenovelas, que se tornaram o grande veículo narrativo do Brasil no século XX.

As novelas de televisão, por sua vez, consolidaram o formato seriado, o arco emocional prolongado, a dramaturgia do cotidiano. Elas construíram personagens memoráveis e tornaram-se ferramentas de identificação coletiva. Com o tempo, o streaming assumiu parte desse lugar, oferecendo séries mais segmentadas, com menos episódios e mais apelo internacional. Surgiram os doramas. A lógica permanece: consumo seriado, envolvimento emocional e familiaridade com os personagens.

O que os microdramas verticais fazem hoje, e produções nacionais já começam a surgir com força, é condensar esse percurso narrativo em doses curtas e altamente aditivas. Em vez de duas centenas de capítulos como nas novelas de TV, temos algumas dezenas de fragmentos com menos de 90 segundos cada um. Em vez da TV, a palma da mão. Em vez do intervalo comercial, a venda digital. Mas o que se mantém é o cerne do melodrama: conflitos morais, emoções amplificadas, personagens arquetípicos e reviravoltas a cada instante.

A estética também guarda semelhanças. Assim como nas fotonovelas, os gestos são exagerados, os cenários simples, a dramaturgia direta. A diferença é que, agora, tudo isso é embalado pelo ritmo da economia de plataformas — otimizado para viralizar, monetizar e manter o espectador na sequência infinita.

Mais do que uma curiosidade, esse fenômeno convida à reflexão: por que esse tipo de narrativa ressurge com tanta força em ambientes digitais? Talvez porque, em tempos fragmentados, inseguros e acelerados, o melodrama ofereça algo valioso — uma experiência emocional linear, clara, reconfortante, onde o bem e o mal ainda se enfrentam com nitidez, e onde o espectador pode se apegar a algo que, embora fantasioso, é profundamente conhecido e humano.

Essas plataformas não são uma ruptura com a tradição. São, na verdade, seu desdobramento lógico em um novo contexto tecnológico. E compreender isso é fundamental para pensar não apenas o presente da cultura popular, mas seus usos possíveis — inclusive na política, na educação, na literatura e na produção artística.

As próximas gerações talvez não saibam o que foi uma fotonovela. Mas já sabem o que é ser fisgado por um vídeo vertical. E nesse gesto aparentemente trivial — deslizar o dedo para ver o que acontece com a protagonista — talvez estejam, sem saber, atualizando práticas culturais que vêm de longe.

Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro.

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/reinvencao-do-melodrama-na-era-digital/