Bolsonaro é vaiado após cortar R$ 600 milhões do orçamento da Ciência – Hora do Povo

Jair Bolsonaro foi alvo de protestos durante evento em Campinas (SP) na tarde da última sexta-feira (8). Ao iniciar seu discurso, ele foi interrompido por um grupo de mulheres citando a marca de 600 mil mortes por Covid-19, atingida na mesma sexta, o corte no orçamento de Ciência e Tecnologia e o veto ao projeto de seguridade menstrual. Elas também gritaram Fora Bolsonaro.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, se levantou e pediu para o grupo se sentar, ao que Bolsonaro interrompeu: “Calma lá. Não vamos chegar ao nível deles não, por favor. Eu sairei daqui imediatamente se ela que me responder quanto é, quanto são 7 x 8, raiz quadrada de 4, saio agora daqui”, reagiu histérico.

Em outra fala durante o discurso, Bolsonaro afirmou ter havido “uma potencialização, uma politização” da pandemia e das 600 mil mortes de brasileiros.

“Em parte dá certo o nosso governo — não vou falar que é tudo 100% —, apesar da tal da pandemia, que houve uma potencialização, em que pesem as mortes. Lamentamos todas as mortes, mas houve uma politização enorme…”

No dia que o Brasil chega a inaceitável 600 mil vidas perdidas por COVID-19, que 480 mil estariam vivas se tivéssemos na média mundial de mortalidade. Jair Bolsonaro vai à feira Feira de Nióbio em Campinas e toma vaia de estudantes contra a gestão na pandemia. Merecia era CADEIA. pic.twitter.com/1PgY9lILZb

— Bolsonaro Genocida 🏴🇧🇷 (@do_genocida) October 8, 2021

Bolsonaro esteve em São Paulo nesta sexta, onde participou da cerimônia de abertura da 1ª Feira Brasileira do Nióbio. O minério era um dos assuntos mais comentados por Bolsonaro quando era deputado federal e também foi tema recorrente na campanha eleitoral de 2018. Na Presidência da República, porém, Bolsonaro o menciona em raras ocasiões.

O Brasil é o maior produtor de nióbio do mundo, responsável por abastecer cerca de 90% do mercado mundial. O material serve principalmente como elemento de liga nos aços de alta resistência e baixa liga, usados na fabricação de automóveis, e na construção civil, como pontes e edifícios.

O evento ocorreu um dia após decisão do Ministério da Economia de retirar 92% dos recursos que seriam destinados a vários projetos científicos, inclusive a bolsas e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Dos R$ 690 milhões já previstos para projetos de ciência e tecnologia em 2022, sobraram apenas R$ 55 milhões (8% do total inicial).

Em discurso, Marcos Pontes pediu mais dinheiro para a área. “Ontem não foi um dia muito bom, com relação a orçamento, falando no ministério. Mas a vida da gente é assim: tem um dia bom, outro dia ruim. E eu tenho certeza que, com o apoio do presidente Bolsonaro, nós vamos conseguir recuperar o orçamento do ministério e aumentar esse orçamento. Porque é através desse investimento é que vamos construir o Brasil”, afirmou Pontes.

Na sequência, Bolsonaro debochou do ministro dizendo que ele o “perturba” bastante, mas disse não haver briga entre eles. “Ele me perturba bastante, e eu cobro bastante dele também, mas na harmonia, não existe briga.”

Em nota enviada ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), a Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento (ICTP.br) apontou críticas à mudança. 

“O argumento utilizado pelo Ministério da Economia afronta a comunidade científica e tecnológica: afirma que os recursos já transferidos para o MCTI não estão sendo utilizados”, disse. “Dá se com uma mão, para retirar com a outra. Nesse processo, agoniza a ciência nacional.”

Composta pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Associação Brasileira de Ciências, entre oito entidades, a ICTP.br enviou uma carta para que Rodrigo Pacheco reverta a decisão.

“O PLN 16 destinava 690 milhões de reais para o MCTI, alimentando em particular as bolsas e o Edital Universal do CNPq, mas, em cima da hora, por força de um ofício enviado pelo Ministério de Economia na véspera da reunião da CMO, mais de 90% desses recursos foram transferidos para outros ministérios, restando apenas R$ 55,2 milhões de reais, destinados ao atendimento de despesas relacionadas aos radiofármacos”, denunciam.

Segundo as entidades, o argumento de Guedes de que os recursos já transferidos para Ciência e Tecnologia não estão sendo utilizados é uma afronta. “Já nos manifestamos anteriormente sobre a estratégia perversa de alocar 50% do total dos recursos do FNDCT para crédito reembolsável, o qual, uma vez não utilizado, será recolhido ao Tesouro no final do ano. Dá-se com uma mão, para retirar com a outra. Nesse processo, agoniza a ciência nacional”.

Leia a seguir a carta assinada pela oito entidades que compõem a Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento (ICTP.br) – Associação Brasileira de Ciências (ABC), Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies), Conselho Nacional de Secretários para Assuntos de Ciência Tecnologia e Inovação (Consecti), Instituto Brasileiro de Cidades Inteligentes, Humanas e Sustentáveis (IBCHIS) e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

MANOBRA DO MINISTÉRIO DA ECONOMIA AFRONTA A CIÊNCIA NACIONAL

A modificação do PLN 16, feita na última hora, no dia de hoje, pela Comissão Mista do Orçamento do Congresso Nacional, atendendo a ofício enviado ontem pelo Ministro da Economia, subtrai os recursos destinados a bolsas e apoio à pesquisa do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações e impossibilita projetos já agendados pelo CNPq. É um golpe duro na ciência e na inovação, que prejudica o desenvolvimento nacional. E que caminha na direção contrária da Lei 177/2021, aprovada por ampla maioria pelo Congresso Nacional.

O PLN 16 destinava 690 milhões de reais para o MCTI, alimentando em particular as bolsas e o Edital Universal do CNPq, mas, em cima da hora, por força de um ofício enviado pelo Ministério de Economia na véspera da reunião da CMO, mais de 90% desses recursos foram transferidos para outros ministérios, restando apenas R$ 55,2 milhões de reais, destinados ao atendimento de despesas relacionadas aos radiofármacos.

O argumento utilizado pelo Ministério da Economia afronta a comunidade científica e tecnológica: afirma que os recursos já transferidos para o MCTI não estão sendo utilizados. Cabe lembrar que esses recursos são para crédito, são reembolsáveis, e não interessam à indústria. Já nos manifestamos anteriormente sobre a estratégia perversa de alocar 50% do total dos recursos do FNDCT para crédito reembolsável, o qual, uma vez não utilizado, será recolhido ao Tesouro no final do ano. Dá-se com uma mão, para retirar com a outra. Nesse processo, agoniza a ciência nacional.

Fazemos um apelo aos parlamentares para que revertam essa decisão, com todos os meios disponíveis para repor os recursos destinados ao MCTI e ao CNPq. Está em questão a sobrevivência da ciência e da inovação no país.

Fonte: horadopovo.com.br/bolsonaro-e-vaiado-apos-cortar-r-600-milhoes-do-orcamento-da-ciencia