Metade dos acordos salariais não repõe inflação e trabalhador vê poder de compra encolher – Hora do Povo

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Quase metade dos acordos salariais realizados de janeiro a outubro não repôs a inflação, que corrói a cada mês o poder de compra dos brasileiros, principalmente diante da alta absurda dos preços dos alimentos, gás e combustíveis.

Entre os 12.334 reajustes salariais negociados no período, 49,8% ficaram abaixo do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

Para Luís Ribeiro, sociólogo e técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a perda do poder de compra entre os trabalhadores pode gerar um efeito cascata e agravar a crise econômica no pós-pandemia.

“O cenário é ruim. O fato de a maioria das categorias não estar repondo a inflação vai gerar um efeito cascata em 2022, com queda no poder de compra, no consumo e, consequentemente, na produção”, analisou Ribeiro.

O técnico do Dieese afirma que os trabalhadores perderam poder de barganha em relação aos empregadores nas negociações coletivas deste ano com o aumento do contingente de desempregados no país e, por este motivo, foram prejudicados em relação a salário, benefício e plano de carreira.

Ribeiro avalia que, mesmo se as negociações coletivas de novembro e dezembro forem positivas para os trabalhadores, o balanço de 2021 será ruim, uma vez que as negociações até o momento tiveram resultados negativos. “É difícil que boas negociações revertam os números”, disse Ribeiro.

O professor sênior da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da Projeto Salariômetro, Hélio Zylberstajn, afirma que o mercado de trabalho atravessou um período de extrema dificuldade por conta da pandemia da Covid-19 e, mesmo com o avanço da vacinação, não conseguiu se recuperar.

“O setor que mais perdeu [profissionais ocupados] foi o de hotelaria e alimentação, seguido pelo de serviços domésticos. A cada 5 domésticas, 1 não recuperou a ocupação. Para agravar o cenário, a maior parte delas não têm carteira assinada”, afirmou Hélio.

Zylberstajn explicou que os profissionais de baixa qualificação foram os mais prejudicados pela crise sanitária, pois dependiam da vacinação para voltar ao trabalho presencial, ao contrário dos que atuavam na área administrativa de forma remota, por exemplo.

“Como a economia não ganhou fôlego, as pessoas que forem contratadas serão as de menor qualificação. E quando a gente for calcular o rendimento médio do país, ele vai acabar caindo. Isso não é bom para o consumo e, obviamente, não é bom para a economia também”, disse.

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