Miliciano preso no Batalhão da PM comemorou chacina em São Gonçalo – Hora do Povo

“Fizemos uma ‘baguncinha’ no Salgueiro”, disse Ronny Pessanha em postagem nas redes sociais

A Polícia Militar abriu uma investigação depois que um perfil em uma rede social atribuído a um miliciano que está preso por envolvimento com o crime organizado, que fez uma série de postagens sobre a ação policial que terminou com 9 mortos no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no último domingo (21). A PM diz que foi feita inclusive uma varredura na cela do agente, mas nada foi achado.

Quem via as postagens de um perfil atribuído ao miliciano Ronny Pessanha de Oliveira, de 29 anos, no Facebook jurava que ele tinha participado da ação policial no Complexo do Salgueiro e que terminou com dez mortos.

“Fizemos uma ‘baguncinha’ no Salgueiro”, dizia um dos posts.

Já em um story do perfil, a frase “O legista deve estar puto” entrou no ar logo após as primeiras notícias sobre os corpos encontrados no Salgueiro serem veiculadas.

A sequência dos comentários dá a impressão de ser uma roda de conversa da milícia. Entre os comentários, estão frases como “Essa baguncinha aí foi de verdade”, “Em breve, vai superar a Core no Jacarezinho” e “Os caras da Civil são melhores de mira”. Nesse último, o perfil atribuído a Pessanha respondeu: “Calma! O dia ainda não acabou”.

Só que Ronny Pessanha de Oliveira está preso no Batalhão Prisional da Polícia Militar, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio, desde o dia 8 de dezembro de 2020, por integrar uma milícia que agia na Muzema, na Zona Oeste da cidade.

De acordo com o processo em que é réu por promover, constituir, financiar ou integrar organização criminosa, ele fazia parte do “núcleo da segurança do grupo, sendo responsável pelo recolhimento das ´taxas´ cobradas de comerciantes e empresários locais e de valores oriundos da exploração imobiliária clandestina. Realizaria ameaças, inclusive mediante emprego de arma de fogo de grosso calibre”.

Mesmo preso, miliciano Ronny Pessanha ostenta nas redes sociais – Foto: Reprodução

Em conversas interceptadas pela polícia e que integram o processo, o PM preso, que já teve passagem pelo Bope, é chamado de Caveira ou Neguinho do Bope.

Ronny, que teve pelo menos dois habeas corpus negados pela Justiça para responder em liberdade, aguarda a segunda audiência de instrução e julgamento de seu processo.

Ao longo da segunda-feira (22), o perfil ainda respondeu seguidores que concordavam e incentivavam suas postagens e fez uma última postagem por volta das 18h. Na mesma noite, saiu do ar.

CHACINA

Moradores do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ), que retiraram nesta segunda-feira (22) nove corpos de um manguezal no bairro das Palmeiras, acusam a Polícia Militar de promover uma chacina. 

Um morador do bairro afirmou ao jornal Extra que “tinham pais de família” entre as vítimas. “Muitas pessoas estão desfiguradas. Se eles tivessem a intenção de prender, não teriam feito isso. Quem correu se salvou. Essas mortes aconteceram de ontem para hoje. (Os policiais militares) passaram de sábado para domingo e ontem durante o dia eles saíram e voltaram. Se fosse troca de tiros, os jovens não estariam assim. Eles fizeram uma chacina. Resgatamos os corpos e não achamos nenhuma arma. Morreu um PM em um dia e no outro eles fizeram uma chacina”, afirmou o morador que não teve o nome identificado.

Um trabalhador de 45 anos, e que mora há 25 anos na favela, diz que “a morte de um policial militar gerou essa operação mal sucedida”.

“Vieram de qualquer maneira e o resultado é esse. Eles deram tiro para todos os lados e chefes de família ficaram em risco. E o resultado é esse: nove corpos e muitos outros que podem estar no mangue”, diz o homem que reclama da falta de estrutura básica da região. “Não existe segurança pública no Rio. Eles tratam a gente com a morte. Aqui não tem nada. O estado não dá condições para a gente sobreviver. Nós somos manipulados pelo governo e eles fazem isso com a gente”.

A associação de moradores do Salgueiro, por nota, denunciou que o Corpo de Bombeiros tem se recusado, desde este domingo, dia 21, a retirar vítimas que estão dentro do terreno pantanoso à margem da baía. A presidência disse que a ordem da corporação é de não entrar na favela.

“Desde ontem estamos tentando resgatar os moradores que estão feridos dentro da vegetação e estão machucados. Recebemos a informação que eles (o Corpo de Bombeiros) estão proibidos de entrar. Temos pessoas que precisam de socorro. Além disso, precisamos que eles retirem os corpos. Esse é um desrespeito para as famílias. Ninguém aceita o erro, mas aqui tem moradores que não tem nada a ver. O Corpo de Bombeiros não vem porque alegam tiroteio. Onde tem tiroteio aqui? A gente só quer o respeito. Tem gente que está viva lá dentro. Mais tarde vamos apresentar essas arbitrariedades para os órgãos competentes. Vamos apresentar pra OAB esse desrespeito e o sofrimento do pai, da mãe, de filho que morram aqui”, diz em nota a associação.

CHURRASCO E MALAS DE DINHEIRO

Os policiais envolvidos na chacina no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, fizeram um churrasco e levaram malas de dinheiro, fuzis e pistolas após matar as nove pessoas, sendo parte delas torturadas, de acordo com relatos de moradores.

Segundo uma reportagem da Folha, os agentes teriam, ainda, deixado um recado no lado interno do portão marrom do clube: “Obrigado pela recepção, ass: Δ [delta] force, bonde do caça siri”.

Nas bancadas de onde ocorreu a festa, dezenas de latinhas de cerveja, long necks e garrafas de bebidas vazias, além de, ironicamente, uma bíblia. O freezer de três portas de vidro estava com duas delas estilhaçadas de cima a baixo.

Apesar da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em suspender as operações policiais no Rio de Janeiro durante a pandemia, as polícias do Estado registram metade das operações realizadas. As diligências deveriam ser aprovadas pelo Ministério Público (MP). 

As informações são do relatório “Os impactos da ADPF 635 na defesa da vida”, realizado pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos em parceria com dados do laboratório Fogo Cruzado, divulgado nesta quarta-feira (24).. 

As ações policiais estão suspensas nas comunidades do Estado do Rio de Janeiro desde 5 de junho de 2020, devido a uma decisão liminar do ministro Edson Fachin, relator do caso. Segundo o texto, o Ministério Público deveria ser avisado sobre todas as operações. 

O relatório apresenta 268 operações comunicadas ao MP no período de outubro de 2020 a outubro de 2021. O número de operações realizadas somam 494.

A Polícia Civil possui 91% das notificações submetidas ao MP. Já a Polícia Militar, enviou ao órgão apenas 21% de notificações. As operações não informadas também se apresentam como as mais letais, segundo a pesquisa.

Veja o relatório na íntegra:

Fonte: horadopovo.com.br/miliciano-preso-no-batalhao-da-pm-comemorou-chacina-em-sao-goncalo