Novas internações por coronavírus em Manaus criam “cenário de guerra”

Paciente é internada no Hospital 28 de Agosto, na capital do Amazonas – Foto: Reprodução/G1

A capital amazonense Manaus registrou nos nove primeiros dias de janeiro um total de 1.524 novas internações por Covid-19. O número já supera o total de hospitalizações registradas durante todo o mês de dezembro do ano passado, quando 1.371 pessoas foram internadas com a doença.

Em meio ao completo descaso do governo Bolsonaro com a população, a cidade vive um novo surto da Covid-19, com aumento de casos, superlotação de hospitais e cemitérios. Até o último sábado (9), mais de 212 mil pessoas haviam sido infectadas pelo novo coronavírus em todo o Amazonas, e mais de 5,6 mil já morreram com a doença. Um verdadeiro “cenário de guerra”, como denunciou a médica residente Anne Menezes, do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV).

Também no sábado, o estado voltou a bater o recorde diário de internações em um único dia: foram 235 novas hospitalizações, número mais alto registrado no estado desde o início da pandemia, mesmo com o colapso na rede de saúde, vivido entre abril e maio de 2020. Desse total, 228 novas internações aconteceram só em Manaus.

Em todo o Amazonas, o número de internações também vem crescendo, conforme mostraram os dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS).

Na quarta-feira (6), a ocupação dos leitos de UTI da rede pública do estado chegou a 92%. Na rede privada, a situação é pior: não há mais leitos disponíveis.

Na última terça-feira (5), o prefeito de Manaus, David Almeida, decretou estado de emergência por 180 dias. O decreto autoriza, por exemplo, a contratação temporária de pessoal, de serviços e aquisição de bens e materiais.

A situação na cidade levou o governo do estado a decretar alerta roxo, nível que indica o maior risco de contaminação pela doença. O prefeito disse que o município providenciou a construção de 22 mil covas. 

“Estamos contratando para que, de forma emergencial, possamos garantir que essas famílias possam ter seus entes queridos sepultados de forma digna”, disse.

CENÁRIO DE GUERRA

Os hospitais de Manaus têm apresentado um quadro de lotação, segundo os órgãos oficiais. Por meio de redes sociais, Anne Menezes relatou o cenário que os profissionais da área de saúde vêm enfrentando em hospitais da cidade.

Na publicação feita pela médica, ela conta que o atual cenário vivido pelo sistema de saúde no estado não se compara com o que foi enfrentado no início da pandemia do novo coronavírus. Como evidência, Menezes relatou que costuma atender pacientes mais jovens.

“Eu trabalho com Covid desde março de 2020 e nem nos meus piores pesadelos eu poderia imaginar a situação que estamos vivenciando hoje. O comportamento da Covid-19 tem se apresentado de forma diferente. Tenho recebido muitos pacientes nos meus plantões na casa de 27 e 33 anos com o pulmão comprometido e insuficiência respiratória mesmo que nos primeiros dias de doença e que necessitam de entubação”, disse a médica.

“A equipe de saúde já está cansada. Não só um cansaço físico, mas emocional. Todos os dias nós temos que tomar decisões que são muito difíceis. É muito difícil ter que escolher a nível de gravidade e, principalmente, a nível de prognóstico”, contou Menezes.

“O que nós temos vivenciado é um cenário de guerra. Pessoas chegam pedindo socorro a todo instante e, muitas das vezes, já não podemos fazer mais nada. “Nós já não temos ventiladores disponíveis, vagas em UTI acontecem muitas vezes por óbito, infelizmente. São poucas as altas que estão acontecendo nesse momento. O meu intuito ao gravar esse vídeo é pedir que a gente consiga desafogar os prontos-socorros”, afirmou.

Na noite de sábado (9), faleceu em Manaus a cantora Roci Mendonça, 39 anos, backing vocal do grupo do Boi-Bumbá Garantido, uma das duas agremiações do tradicional Festival de Parintins, no Amazonas. Ela não resistiu às complicações da Covid-19 e sofreu três paradas cardíacas dias depois de dar à luz o primeiro filho, de acordo com a família. 

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A morte da cantora também foi confirmada pelo Garantido na manhã deste domingo (10), em publicação nas redes sociais. É a segunda morte de um membro do grupo amazonense em poucos dias. O compositor Rafael Marupiara também perdeu a vida em razão da Covid-19, na sexta-feira (8).

Roci estava grávida de seu primeiro filho, que nasceu de sete meses. O parto aconteceu enquanto a cantora estava internada em tratamento da doença causada pelo novo coronavírus, em 31 de dezembro. 

O bebê está internado na UTI da maternidade Ana Braga, em Manaus, para ganhar peso e já não corre risco de morte.

“Ela com certeza está na glória ao lado de Deus, pois cumpriu o propósito com sua voz, que ainda ecoará em muitos corações. Nos últimos dias, ela teve experiências profundas e divinas e tenho certeza de que agora está cantando nos céus”, comentou Louse Riger, irmã da cantora.

Em nota, o Garantido homenageou a cantora, chamada entre os membros do grupo de “rouxinol”, pássaro conhecido pela afinação de seu canto na floresta.

Além de Roci e Rafael, o Boi Garantido está em alerta por causa de outros membros do grupo que também foram diagnosticados com Covid-19. Um deles é o levantador de toada David Assayag, 52 anos, um dos principais nomes do festival folclórico. Ele está internado em Manaus. 

Além dele, ainda estão com Covid-19 Márcia Siqueira, levantadora de toadas; Enéas Dias, diretor geral musical, e Rubens Alves, colaborador e compositor. 

“A Associação Folclórica Boi Bumbá Garantido reitera que acompanha de perto o desenrolar de cada situação e faz de tudo para ajudar a solucionar o que é possível e ao alcance de nossas ações. No mais, seguimos em oração para a plena recuperação de todos”, disse a entidade em nota.

Fonte: horadopovo.com.br/novas-internacoes-por-coronavirus-em-manaus-criam-cenario-de-guerra