O desenvolvimento da China à luz das concepções de Keynes e Weber – Hora do Povo

Nós mesmos já fomos uma China, crescemos a 10-12% entre 1930 e 1980, à custa de estratégia, planejamento, uma interação entre Estado e mercado”, destaca o professor Leonardo Burlamaqui

A Agenda de Xi Jinping é “keneysiana e weberiana”, afirmou o professor de economia Leonardo Burlamaqui*, em entrevista ao canal do historiador, escritor e colunista Marco Antonio Villa, num exercício para “entender a China como ela é”, no momento em que se debate a questão da dívida da imobiliária Evergrande e suas consequências para a China e o mundo.

“O que está acontecendo na Evergrande é um caso de regulação”, assinalou Burlamaqui, acrescentando que o neoliberalismo e o liberalismo econômico de uma maneira geral – por causa da sua dicotomia mercado-Estado – têm uma “dificuldade intrínseca” de entender o grande país asiático.

Para o economista, a melhor moldura mental para entender a China atual é fornecida por Schumpeter, que em 1942 disse que socialismo é uma sociedade “onde as questões econômicas e sociais fundamentais são questões de interesse público e nesse sentido elas são controladas por uma autoridade pública”.

Burlamaqui assinala que a China é um Estado que “desenha e redesenha continuamente as fronteiras entre o público e o privado”, desde Deng Xiaoping.

“É muito difícil entender o modelo econômico chinês sem entender o modelo político chinês”, ressalta o economista, que descreve o sistema chinês como um triângulo, com a “estabilidade política” no vértice superior. Aspecto “absolutamente central”, depois do ‘século de humilhação’, que vai da Guerra do Ópio até à revolução de Mao.

O segundo vértice é “o planejamento estratégico, de longo prazo”. Os chineses estão pensando nos próximos 10,15, 20 anos, em 2049, quando completará 100 anos da revolução.

Esse olhar a longo prazo “não é uma invenção da roda na China”, explica o economista, lembrando que a Ásia funciona dessa maneira, “nós já usamos, e agora ninguém fala mais nisso no Brasil”.

“Nós mesmos já fomos uma China, crescemos a 10-12% entre 1930 e 1980, à custa de estratégia, planejamento, uma interação entre Estado e mercado”.

Voltando à Agenda de Xi Jinping, Burlamaqui registra que “não é um ditador que chega e diz que isso vai acontecer, é uma máquina sofisticadíssima”.

O Partido Comunista da China – enfatiza o acadêmico – é “extremamente sofisticado”, pode ser chamado de uma “meritocracia política”, no sentido de que “todos que estão no topo” passaram “20 ou 30 anos em funções como prefeito, governador, dirigindo empresas públicas, bancos”.

Para entrar no Partido, aponta Burlamaqui, “não é para quem quer, é para quem pode, é muito difícil, e para subir lá também é complexo”. Uma “burocracia weberiana no melhor sentido da palavra”, aponta.

O terceiro vértice, “o crescimento, com compromisso de ser socialmente inclusivo”. Eles tiraram 800 milhões de pessoas da linha da pobreza.

“Quem dá a dinâmica, quem garante, é o PC chinês no seu amálgama com o Estado chinês”, o Partido é “a viga mestra para poder sustentar esse triângulo de pé”.

O que inclui uma “agenda negativa” [do que precisa ser combatido]. Xi Jinping vem fazendo uma cruzada contra a corrupção. Há o “risco financeiro” que coloca em perigo o crescimento econômico. Também a desigualdade, que “começou a adquirir características norte-americanas”.

O que Xi Jinping chama de crescimento qualitativo é o “como vamos crescer”: ampliar a classe média, distribuir melhor a riqueza e a renda e crescimento mais centrado no consumo do que no investimento na infraestrutura.

Outro aspecto desse crescimento é estar voltado para a “inovação de fronteira”, ser líder na Inteligência Artificial e para o “verde”, a energia limpa. “É uma agenda schumpeteriana centrada na inovação. Quem vai tocar: as empresas públicas e privadas”, sublinha.

A regulação – ele aponta – “é para eliminar os excessos do sucesso [do crescimento] anterior”, como o caso de Jack Ma e das Big Tech que estão abusando de seu poder de mercado.

A Evergrande, enfatiza, não tem nada a ver com 2008. “A Evergrande é um caso de implosão controlada, em contraposição ao Lehman Brothers, que foi uma explosão descontrolada”.

O comprador de casa, a família chinesa, não vão sofrer. Os fornecedores de insumos estarão garantidos. Haverá uma hierarquização de credores, com os compradores de bônus no fim da fila.

Para Burlamaqui, a capacidade de contágio da Evergrande é muito pouca, por causa do sistema de diques do sistema financeiro chinês, vale dizer, do Banco Central, Tesouro e bancos públicos.

Do ponto de vista das políticas monetária e fiscal, a situação da China é das mais confortáveis do mundo, comparada ao Ocidente. Ainda, por ter controlado muito rapidamente a Covid e retomado o crescimento, a China não precisou fazer um estímulo fiscal nem perto do que foi feito no Ocidente.

* Leonardo Burlamaqui é professor da UERJ, doutor em Economia pela UFRJ e pesquisador do Levi Economics Institute. Publicou, entre outros, os livros “Finanças e economia política de avançar e ficar para trás: os casos da China e do Brasil” e “O presente e o futuro das instituições financeiras de desenvolvimento: teoria e história”, além de trabalhos sobre inovação e competição; estratégias de desenvolvimento; propriedade intelectual, capitalismo asiático e economia política do conhecimento e das finanças, entre outros.

Fonte: horadopovo.com.br/o-desenvolvimento-da-china-a-luz-das-concepcoes-de-keynes-e-weber