Xi critica política dos EUA para China: "atrapalha relações bilaterais" – Hora do Povo

Joe Biden ligou para Xi Jinping e a conversa durou 90 minutos. (Composição – Mandel Ngan e Antony Wallace/AFP)

O presidente chinês, Xi Jinping, disse na sexta-feira (10) ao presidente dos EUA, Joe Biden, que as políticas dos EUA em relação à China têm causado sérias dificuldades nas relações bilaterais e pediu a Washington que assumisse as responsabilidades de colocar os laços bilaterais de volta no caminho certo, na primeira conversa telefônica entre os dois líderes em sete meses em meio a tensões crescentes e uma série de desafios regionais e globais, incluindo a retirada dos EUA do Afeganistão.

No mesmo dia, telefonema entre Xi e a primeira-ministra alemã Angela Merkel, que está se despedindo, reafirmou a importância do acordo de investimento China-União Europeia, cuja conclusão contou com especial dedicação da líder alemã.

Xi disse à primeira-ministra alemã que a grande conquista dos laços Pequim-Berlim reside na construção do respeito mútuo e na busca de pontos comuns ao lidar com as diferenças. Analistas disseram que Xi falar com líderes dos EUA e da Alemanha em um dia era muito raro e de grande significado, um sinal do avanço do multilateralismo defendido pela China e também expressa a disposição de Pequim em trabalhar com todas as partes para resolver questões bilaterais e internacionais .

É o segundo telefonema entre Biden e Xi desde que o democrata foi empossado. Na ligação, cuja iniciativa partiu de Washington, ficou patente, segundo o jornal Global Times, a “ansiedade crescente” do lado norte-americano bem como a “necessidade da cooperação da China em questões globais importantes, incluindo mudança climática, luta contra Covid-19, questões afegãs e recuperação econômica após a pandemia”.

O comunicado divulgado pelo lado chinês sobre o intercâmbio Xi-Biden assevera que os dois líderes tiveram uma comunicação estratégica “ampla, profunda e sincera” e abordaram questões relevantes de interesse mútuo.

No telefonema, o presidente Xi sublinhou que há algum tempo, devido à política dos EUA em relação à China, as relações China-EUA encontram-se em sérias dificuldades. Isso não atende aos interesses fundamentais das pessoas dos dois países, nem aos interesses comuns dos países no mundo inteiro, ressaltou. 

“Quando a China e os EUA cooperarem, os dois países e o mundo se beneficiarão; quando a China e os EUA estiverem em confronto, os dois países e o mundo sofrerão”, disse Xi.

“Acertar o relacionamento não é opcional, mas algo que devemos fazer e devemos fazer bem”, enfatizou o líder chinês.

Biden observou que a relação EUA-China é a relação de maior consequência no mundo, e o futuro da maior parte do mundo dependerá de como os EUA e a China se relacionarão. Os dois países não têm interesse em permitir que a concorrência se transforme em conflito, acrescentou.

Biden reiterou durante a conversa que os EUA não têm intenção de mudar sua política de uma só China. Ele se disse preparado para intercâmbios mais francos e discussões construtivas com a China para identificar áreas-chave e prioritárias onde a cooperação é possível, evitar falhas de comunicação, erros de cálculo e conflitos não intencionais e colocar as relações EUA-China de volta nos trilhos.

LINHAS VERMELHAS DA CHINA

No final de agosto, o Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, havia telefonado para seu homólogo chinês, Wang Yi, com ênfase nas questões afegãs, enquanto na semana passada foi o enviado presidencial especial dos EUA para o Clima, John Kerry, que se comunicou com Wang via link de vídeo.

Zhu Feng, diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade de Nanjing, disse ao Global Times que Biden adotou a tática de Trump de suprimir a China, minando a linha vermelha da China e os laços China-EUA, como evidenciado nos confrontos da reunião bilateral em Anchorage em março e visita da vice-secretária de Estado Wendy Sherman.

Ao se reunir com Sherman em Tianjin, o vice-ministro das Relações Exteriores chinês Xie Feng apresentou a ela a “Lista de atos ilícitos dos EUA que devem ser interrompidos” e a “Lista dos principais casos individuais com os quais a China se preocupa”. 

O ministro das Relações Exteriores Wang Yi também traçou três linhas de fundo sobre as relações China-EUA ao se reunir com Sherman, incluindo não desafiar, caluniar ou mesmo tentar subverter o caminho e o sistema do socialismo com características chinesas, não tentar obstruir ou interromper Processo de desenvolvimento da China, e não infringir a soberania do estado da China ou prejudicar a integridade territorial da China.

Outra fonte de confrontação tem sido as provocações realizadas por navios de guerra norte-americanos nas águas do Mar da China Meridional, com o destroyer armado com mísseis USS Benfold tendo invadido águas perto do recife Meiji, na quarta-feira, sem permissão da China, levando o lado chinês a mobilizar aeronaves e navios para expulsar o intruso.

OBSESSÃO COM O ‘RIVAL ESTRATÉGICO’

Li Haidong, professor do Instituto de Relações Internacionais da China, analisou, para o Global Times, o significado do telefonema. O pedido de diálogo dos EUA mostra que o governo Biden está sob grande pressão – quer competir com a China evitando conflitos; não poderia lidar com algumas das principais questões globais, incluindo as questões afegãs e as mudanças climáticas sem a China, mas ao mesmo tempo continua obcecado em enfraquecer o que eles chamam de “rival estratégico”, assinalou.  

O acadêmico observou que, sob a complicada situação política interna nos Estados Unidos, Biden pode enfrentar mais dificuldades em promover a cooperação com a China do que em manter a concorrência e os conflitos com a China. Se Biden será capaz de evitar que a competição se transforme em confrontos, ainda é uma grande questão, acrescentou.

Li apontou como os comunicados de cada lado sobre o telefonema mostram as diferenças entre a China e os EUA no que diz respeito à visualização dos laços bilaterais. Enquanto a China insiste que a cooperação bilateral não tem alternativa e deve ser alcançada em benefício de ambos os lados, a atenção dos EUA está centrada nos “conflitos” e busca de manter sob controle a competição com a China.

É praticamente um consenso que as relações China-EUA já chegaram ao fundo do poço, com uma longa lista de pendências, que vão do comércio ao rastreamento das origens do vírus, passando pela alta tecnologia e os arreganhos sobre Taiwan e Xinjiang.

A declaração da Casa Branca limitou-se a dizer que Biden deixou claro que a discussão era parte do “esforço contínuo dos EUA para administrar com responsabilidade a competição entre os EUA e a RPC”, e Biden destacou o “o interesse duradouro dos EUA na paz, estabilidade”.

FOTO COM KISSINGER

No mesmo dia em que os principais líderes da China e dos Estados Unidos conversaram por telefone, o embaixador chinês Qin Gang postou em sua conta do Twitter uma foto conversando com Henry Kissinger, o ex-secretário de Estado dos EUA que fez uma viagem secreta à China em 9 de julho de 1971 e deu início a uma nova era para os laços China-EUA.

O embaixador chinês tuitou que “me diverti muito com o Dr. Kissinger e me beneficiei muito de sua visão, sabedoria e percepções”. O encontro do embaixador com Kissinger, registrou a publicação, sinaliza a esperança por forças mais positivas na promoção das relações bilaterais nas circunstâncias atuais. 

Fonte: horadopovo.com.br/xi-critica-politica-dos-eua-para-china-atrapalha-relacoes-bilaterais