Cuidar da mente e das emoções, uma esperança nessa pandemia

A pandemia do coronavírus, além da doença em si, com suas graves manifestações, arrastou consigo o que parece ser outra epidemia, o sofrimento psicológico agudo
José Osmando de Araújo 
Jornalista 

Uma recente pesquisa do Observatório Febraban/Ipespe, indica que 57% das mais de 3 mil pessoas entrevistadas mencionaram a saúde mental e emocional como segmentos bastante afetados, causadores das transformações que ocorrem em suas vidas em decorrência da pandemia da Covid-19.

A pesquisa ouviu pessoas em todas as regiões do país e em todos os segmentos sociais e econômicos, e em todas as faixas etárias, comprovando que, horizontalmente, mais da metade se sente afetada em suas mentes e em suas emoções.

É resultado revelador, portanto, de que a pandemia do coronavírus, além da doença em si, com suas graves manifestações, arrastou consigo o que parece ser outra epidemia, aparentemente imperceptível no primeiro momento, mas que foi tomando proporções desagradáveis na medida em que o mal principal não foi contido. Tem-se aqui a instalação de um sofrimento psicológico agudo, expresso de maneira oculta, afetando o psicológico, com sintomas e danos psíquicos e até transtornos mentais.

Pandemia afeta saúde emocional e mental das pessoas

Pandemia afeta saúde emocional e mental das pessoas

E nisso, um fato relevante: mesmo os brasileiros que não foram afetados pela Covid, apresentam aumento significativo de consequências psíquicas e emocionais. Decorrência, certamente, do próprio contexto da pandemia, pois as medidas de controle ordenadas pelas autoridades para se ter um domínio conveniente sobre a expansão do vírus-como o isolamento social-, afetam a população em muitas dimensões, condições e significados de suas vidas, atingindo de forma transversa a saúde mental.

Institutos e universidades têm dedicado atenção especial à questão do aumento dos problemas psíquicos e emocionais entre as pessoas durante essa longa etapa da pandemia. E constatam que a maioria dos estudos que identificou efeitos psicológicos negativos, aponta como principais fatores de estresse na duração da quarentena, o medo da infecção, os sentimentos de frustração e de aborrecimento, a informação inadequada sobre a doença e seus cuidados, as perdas financeiras e o estigma da doença.

E as pessoas, assim, atingidas por graus elevados de insegurança e medo, passam a desenvolver sintomas psicológicos, distúrbios emocionais, depressão, estresse, humor depressivo, irritabilidade, insônia e sintomas de estresse pós-traumático. Outros aspectos que vêm sendo identificados como estressores na pandemia de COVID-19 são a veiculação de informações falsas e sem base científica, as notícias alarmantes e o excesso de tempo dedicado às notícias sobre a pandemia, além de condições bastante concretas de falta de alimentos, de recursos financeiros e de medicação para outras doenças.

Pessoas estão com grau elevado de medo e insegurança

Pessoas estão com grau elevado de medo e insegurança

Sentimentos de incapacidade, tristeza e ansiedade passam a tomar conta das vidas dessas pessoas, o que acende um sinal de alerta para um quadro que pode se agravar de maneira drástica.

Vi recentemente que nos últimos dois meses, alunos e professores da Universidade de São Paulo (USP) se chocaram com os suicídios de três estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da instituição. Os casos, então, reacenderam antigas discussões na instituição.

Diante dessa situação, a USP planejou colocar em prática três diferentes frentes de atuação. Os planos são ampliar o Escritório de Saúde Mental (ESM), criar uma espécie de CVV (Centro de Valorização da Vida) e realizar uma pesquisa sobre a saúde mental de seus alunos.

O diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Paulo Martins, declarou ser impossível saber o que levou esses jovens a medidas tão extremas para acabar com o sofrimento que sentiam, mas advertiu que a pandemia pode ter potencializado condições pré-existentes.

Uma reportagem publicada pelo jornal paulista, conta que as principais angústias dos jovens eram sobre a pressão das notas, a carga horária e a relação com colegas e professores. Com o passar dos meses, todavia, o sofrimento passou a se dar por medo da pandemia, pela perda de parentes e amigos, por dificuldades financeiras e pela desesperança.

Esse contexto de desesperança pode levar ao desespero. E aí se torna tristemente grave. É quando esmorece a coragem e a insegurança domina; o medo, o desalento, tomam conta de mente e invadem as emoções.

O extraordinário escritor, poeta, pensador, o moçambicano Mia Couto, tão experimentado nas tragédias das guerras que viveu em seu país africano desde os tempos de infância, nos diz que nessas circunstâncias, de medo e desesperança, “estamos tão entretidos em sobreviver que nos consumimos no presente imediato. Fazer planos a longo prazo é uma ousadia a que a grande maioria foi perdendo direito. Fomos exilados não de um lugar. Fomos exilados da atualidade. E por inerência, fomos expulsos do futuro.”

Deixando o campo poético e voltando ao terreno real da saúde, lembro aqui um estudo desenvolvido por institutos de saúde pública da Finlândia, que conclui: “A desesperança é um risco para pressão alta. Os homens que dizem que já perderam a esperança são três vezes mais propensos a desenvolverem pressão alta do que aqueles que têm uma forma mais positiva de encarar a vida.”

Escritor Mia Couto destaca a importância de manter a esperança em tempos dificeis Escritor Mia Couto destaca a importância de manter a esperança em tempos dificeis 

Fiquemos, finalmente, com essa significativa e verdadeira expressão de Mia Couto: “é preciso coragem para ter esperança.”

Nossa esperança, diante disso, é que autoridades sanitárias dediquem atenção não apenas para o domínio tão esperado da pandemia, como vacina para todos e a manutenção de cuidados relativos ao distanciamento e a outras medidas de precaução.

Mas que ponham seus olhos e suas ações sobre esse ambiente que vem afetando e comprometendo a saúde mental das pessoas, especialmente de jovens e crianças.