Edgar Morin, 100 anos de dedicação à humanidade e ao planeta

Edgar Morin defende a interligação de todos os conhecimentos, combate o reducionismo, valoriza o complexo e ama viver poeticamente
José Osmando de Araújo
Jornalista

Nessa quinta-feira, 08 de Julho, Edgar Morin, o filósofo, antropólogo e sociólogo francês, mundialmente reconhecido como um dos mais vigorosos e iluminados pensadores desses dois séculos, completa 100 anos de vida. E fecha esse ciclo secular de pleno viver em notável atividade intelectual, sedimentando uma contribuição enorme ao conhecimento, sobretudo no terreno da educação.

Pai da teoria da complexidade, Edgar Morin defende a interligação de todos os conhecimentos, combate o reducionismo, valoriza o complexo e ama viver poeticamente.

Nascido numa família judia, em Paris, a 08 de Julho de 1921, Edgar Morin carrega consigo as mais instigantes memórias. Perdeu a mãe, vítima de um AVC, dentro de um trem de subúrbio, quando tinha apenas 9 anos de idade, teve uma vida cercada pelo inconformismo quanto à orfandade, presenciou duas grandes guerras mundiais, fez parte ativa da Resistência Francesa, presenciou os horrores do nazismo numa Paris invadida e dominada pelas tropas de Hitler.

Criou, assim, um espírito fortemente marcado pela Indignação. Dedicou-se com afinco à busca de conhecimento para entender o mundo e a humanidade, e conseguiu firmar-se como um intelectual pleno de sabedoria e ética, com foco intenso nas questões da educação, que sempre propôs tê-la renovada, redirecionada, reformada, no sentido de abraçar todos os conhecimentos sobre o mundo, sobre a natureza, sobre a mente e as emoções dos seres humanos.

Nos seus mais de 70 livros publicados, vários com expressiva repercussão mundial, a exemplo de “Reformar o Pensamento”, “Ensinar a Viver”, “Introdução ao Pensamento Complexo”, “Terra-Pátria”, “Meu Caminho”, “Diálogo Sobre a Natureza Humana”, “Fraternidade”, “Educar na Era Planetária” e “Meu Caminho”, Morin firma-se como um pensador centrada na salvação humana, que passa sempre pela compreensão de que é impossível esse objetivo sem uma integração plena, com uma nova atitude diante da natureza.

Morin sempre teve bastante reconhecimento nos países latino-americanos, em especial no Brasil, onde foi lançado, com grande impacto, em 2007, o livro “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, uma iniciativa da Unesco. Esses saberes indispensáveis anunciados por Morin trilham por “ensinar a compreensão”, indicando que esse é um tema ausente no ensino atual, para afirmar que o planeta necessita, em todos os sentidos, de compreensão mútua e que esta deve ser a meta da educação do futuro.

Edgar Morin com o Papa Francisco Edgar Morin com o Papa Francisco 

Isso passa necessariamente pela reforma das mentalidades.

Para ele, a compreensão mútua entre os seres humanos, quer próximos, quer estranhos, é daqui para a frente vital para que as relações humanas saiam de seu estado bárbaro de incompreensão.

Daí decorrer a necessidade de estudar a incompreensão a partir de suas raízes, suas modalidades e seus efeitos, um estudo quanto mais necessário porque enfocaria não os sintomas, mas as causas do racismo, da xenofobia, do desprezo, da indiferença.

As homenagens a Edgar Morin ocorrem esta semana em várias partes do mundo. No Brasil, a Universidade de Brasília (UNB) juntou-se ao SESC/SP para grande evento comemorativo aos 100 anos desse ilustre pensador. Mas o reconhecimento a Morim vem sendo expresso em várias partes do mundo desde o ano 2018. Em 2019, por exemplo, o Papa Francisco juntou-se às homenagens prestadas pela UNESCO, em Roma, e expressou em sua mensagem que via Edgar Morin como “testemunha privilegiada de profundas e rápidas mudanças sociais, mas também como um analista atento que, com discernimento, neste caminho dos tempos, suscitou “esperanças.”

De fato, a vida exemplar que Morin nos apresenta nesses seus 100 anos, nos anima ser esperançosos de que o mundo pode ser diferente e melhor. Embora ele nos diga que o verdadeiro problema humano não é em si a felicidade, ele também nos ensina que o problema da felicidade é subordinado àquilo que chamo de ‘o problema da poesia da vida’. Ou seja, a vida, a meu ver, é polarizada entre a prosa – as coisas que fazermos por obrigação e não nos interessam para sobreviver -. E a poesia – o que nos faz florescer, o que nos faz amar, comunicar.”

Certa vez, – fato incomum de acontecer em vida-, Edgar Morin foi convidado para inaugurar a sua própria estátua, no interior de uma universidade. Seu discurso de agradecimento é um primor. Fiquemos, portanto, com essa joia de sabedoria:

“Uma estátua!

É uma coisa póstuma…

Estarei eu morto? Serei eu um fantasma

que retorna em visita à estátua de seu túmulo?

E se estou vivo, será que este é um sonho?

Despertarei e minha estátua terá desaparecido.

Mas e se eu não dormir e essa estátua

for real como pedra?

Ela, agora, me diz para continuar a me desestatuar

como pessoa viva,

não me deixar petrificar, endurecer, enrijecer.

Essa estátua me diz, também, para não esquecer

das aspirações da minha juventude, de integrar

em meu espírito as experiências de minha vida.

De não me fechar, de ter coração, sangue,

alma, tudo aquilo que falta a uma estátua;

Mas que sua inflexibilidade me dê a força

para continuar a caminhar,

a disseminar minhas verdades, minhas esperanças,

pois essa estátua nasceu da amizade,

da confiança e da fé em minhas ideais,

Da fé na regeneração da educação…”