Negacionismo e racismo, tristes realidades para tempos de crise

Nessa etapa da vida que temos vivido, nesses tempos cobertos de incerteza, dor e medo-consequência da pandemia do coronavírus
José Osmando de Araújo 
Jornalista 

Nessa etapa da vida que temos vivido, nesses tempos cobertos de incerteza, dor e medo-consequência da pandemia do Coronavírus que há quase um ano e meio se instalou entre nós, sem qualquer promessa de nos deixar-, vimos observando atitudes, ações, movimentos, que parecem coisa nova no comportamento das pessoas e até de instituições, cujos efeitos em nada contribuem no esforço coletivo de combater esse mal que já matou mais de 470 mil brasileiros.

Uma dessas atitudes diz respeito ao negacionismo da ciência, uma manifestação expressa por pessoas influentes e até mesmo entidades, muitas delas integrantes da própria medicina- de quem se espera o poder de cura-, tendo como efeito real descredibilizar as vacinas e as medidas de isolamento social que, em todo o mundo, e também no Brasil, têm provado serem meios eficientes de combater a Covid-19.

Quem pensa que isso é algo novo, de que é invenção dos tempos de agora, enga-se. Uma volta ao passado vai nos mostrar semelhanças de comportamento, de intenso ativismo dos nagacionistas, como se deu, por exemplo, na conhecida Revolta da Vacina, em novembro de 1904, no Rio de Janeiro, então Capital da República, quando manifestantes foram às ruas em protesto contra a vacinação compulsória de combate à varíola, proposta por Oswaldo Cruz e aprovada pelo governo.

Entre os dias 10 e 16 de novembro a capital do país tornou-se um campo de guerra, com barricadas, saques e incêndios, como sinais selvagens do descontamento popular à determinação governamental. Entre muitos médicos negacionistas era dito às pessoas que vacinar-se era visto como uma violação. E entre muitos sanitaristas a necessidade seria outra: a emergência de curar um país enfermo. Não por conta da varíola que afetava as pessoas, mas à urgência de extirpar todos os resquícios da nossa miscigenação. A meta era, para esses, civilizar da nossa herança indígena e branquear nossa herança negra, desprezada após a abolição da escravidão em 1888.

Os eugenistas, defensores da raça pura, eram muitos e bastante influentes entre os médicos-sanitaristas da época e também nos meios acadêmicos. Assim, eles tinham propostas e soluções para a necessidade de branquear o Brasil. E aí vinham os remédios: o branqueamento pelo cruzamento, o controle de imigração, a regulação de casamentos, o segregacionismo e a esterilização.

A historiadora e pesquisadora do eugenismo no Brasil, Pietra Diwan, no seu livro “Raça Pura”, faz relatos impressionantes sobre a atuação de médicos importantes e com grande poder de difusão de suas ideias. Um núcleo expressivo era formado por médicos da Faculdade de Medicina da Bahia, a primeira do País, em especial para o grupo conhecido como “Escola Nina Rodrigues”, que espalhava o convencimento de que a miscigenação era fator de impedimento para o desenvolvimento nacional. A mistura de raças proporcionava a loucura, a criminalidade e a doença. A escola se inspirou nas práticas do médico-legista e antropólogo Raimundo Nina Rodrigues, que acreditava na inferioridade da raça negra.

Livro Raça Pura, de Pietra DiwanLivro Raça Pura, de Pietra Diwan

Outro influente eugenista era o médico toxicologista Agostinho José de Souza Lima, que numa conferência intitulada Exame Pré-Nupcial, na Academia Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro, da qual era presidente, pregou a eugenia da nacionalidade. Propôs uma lei para tornar obrigatório o exame pré-nupcial e reclamando o impedimento legal para casamento de turbeculosos e sifilíticos. Uma vez aprovada a lei, esses doentes ficavam impedidos e casar e ter filhos.

Mais tarde, no seu livro “A Cura de Fealdade”, o renomado médico, farmacêutico e escritor, Renato Kehl, que foi, entre todos, o mais notável eugenista brasileiro, criticou a morosidade da justiça nacional e a falta de visão de advogados e legisladores em implantar a proposta de Agostinho José de Souza Lima. Renato Keln foi um ativista ferrenho do eugenismo e liderou, em 1917, a campanha pela eugenia nacional, resultando em inúmeras publicações, sempre acusando a miscigenação como causa maior das tragédias humanas do Brasil.

Renato Keln, com suas pregações pelo Brasil, fazia discursos espetaculosos, soltando frases de efeito que impressionava muita gente: “como salvar um povo feio, inculto e triste”. Essa era a principal pregação. Com uma ampla obra escrita, publicou mais de 30 livros, a partir de 1917, sobre a temática eugênica. Os mais notáveis livros foram A Cura da Fealdade, Lições de Eugenia, Sexo e Civilização, Por Que Sou Eugenista.

E é sempre no efervescer desses conflitos que se abatem sobre a população, como foi o momento pela vacina contra a varíola , no Rio, em 1904, e agora quando chega ao Brasil a Covid-19, quando quase todos sentem-se inseguros e muitas vezes privados da verdade, que essas ideias totalitaristas reaparecem e ganham força.

Vai e vem, surgem novos Renato Keln, Raimundo Nina Rodrigues ou Agostinho José de Souza Lima, para que não esqueçamos de que o negacionismo contra a ciência é uma realidade robusta e de que o preconceito contra o negro no Brasil é uma triste e interminável condição estrutural. Um mal que está na raiz da nossa formação como país.

 Raimundo Nina Rodrigues

Raimundo Nina Rodrigues