Do xilindró para os holofotes, Cunha lança livro se dizendo “grande injustiçado”

Eduardo Cunha (Foto: reprodução)

“Ele era o seu próprio líder. Para ele, bastava ele. Moro era e será candidato a presidente”, disse sobre o ex-juiz o ex-deputado, que já entrou com pedido de anulação de sua condenação, alegando imparcialidade do julgador

O livro “Tchau, Querida – O Diário do Impeachment”, do presidiário e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, feito em parceria com sua filha, Danielle Cunha, será lançado no próximo dia 17 de abril. A obra, que descreve a visão do ex-todo-poderoso deputado que achou que podia tratorar o Congresso Nacional impunemente, faz lembrar, pelo teor de suas revelações, aquelas vozes abafadas, que, de vez em quando, surgem do fundo dos esgotos da política nacional.

MELIANTE

Aliás, com a ascensão de Jair Bolsonaro ao poder, a partir de 2018, esse tipo de ruído, vindo de pântanos apodrecidos tornaram-se bastante frequentes no cenário brasileiro. A versão do meliante, que responde a dez processos criminais e já foi condenado em dois deles por roubo de dinheiro público, mistura mentiras e meias verdades com partes da realidade para compor a sua narrativa unilateral sobre todos aqueles episódios em que ele foi protagonista. No livro, ele é pintado como uma espécie de ‘herói injustiçado’ e todos os demais personagens que eles descreve eram bandidos.

Como um corrupto poucas vezes visto em atuação no país, não é de se estranhar que Cunha tenha destilado um ódio especial e visceral contra o juiz Sérgio Moro, titular da 13ª Vara da Justiça Federal do Paraná, e responsável, naquele período, pelos processos da Operação Lava Jato contra a corrupção. Assim, também foi em relação ao então Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que, diferente do atual PGR, preservou sua independência em relação ao poder estabelecido. Sobre Moro, Cunha diz o seguinte: “Ele era o seu próprio líder. Para ele, bastava ele. Moro era e será candidato a presidente.”

O plano de Eduardo Cunha pretende, ao entrar com pedido de anulação dos processos conduzidos pelo juiz Sérgio Moro, alegando falta de imparcialidade do magistrado, abrir caminho para seu retorno à política brasileira. Em paralelo à tentativa de voltar, ele próprio, à cena política, Cunha prepara um “Plano B”, que seria a candidatura de sua filha, coautora do livro, à deputada federal em 2022. Também não é por acaso que o projeto político de Cunha e da filha estejam acoplados com o de Jair Bolsonaro, como eles anunciam.

Cunha, sua filha e Bolsonaro não deixam de ser farinha do mesmo saco. A própria filha de Cunha admite que estará alinhada ao bolsonarismo no ano que vem. “Eu não acredito na terceira via. Por isso me vejo na corrente de direita já no primeiro turno ”, afirmou Danielle, à revista Veja.

PARA CUNHA, LAVA JATO ERA COMPLÔ LIDERADO POR DILMA

Segundo reportagem da Veja sobre o livro, Cunha descreve sua atuação no processo de impeachment de Dilma Rousseff como uma vingança pela falta de apoio em sua eleição à presidência da Câmara. Teria sido, segundo ele, um ato de preservação. Na sua visão, o avanço da Lava Jato contra ele era um complô liderado por Dilma e apoiado pelo petista José Eduardo Cardozo, então ministro da Justiça e pelo procurador-geral da República à época, Rodrigo Janot. “Todo mundo iria atirar. Todo mundo iria morrer ”, afirmou o deputado.

O livro mostra também que suas relações ilegais com o empresário Joesley Batista já vinham de antes. Ele confirma o envolvimento de conhecimento geral do ex-presidente Michel Temer com a JBS. Cunha conta que consultou Joesley Batista quando pretendia dar seguimento a uma CPI do BNDES, banco cujos cofres foram regados com gordos investimentos públicos. “Quando eu estava para decidir, perguntei a Joesley Batista se ele tinha algum receio. Ele respondeu que não”, contou o deputado. “Apesar disso”, prossegue o autor, “a situação saiu do controle e Joesley acabou fustigado pela investigação”.

O ex-deputado relata que Joesley dizia ter acesso ao ministro do STF, Edson Fachin, e que ele teria atuado para emplacá-lo no Tribunal em 2015. Um ano depois da posse do ministro, já na defensiva, pelo pedido de afastamento da presidência da Câmara que sofria, o ex-deputado conta que recorreu a Joesley na esperança de que o empresário intercedesse a seu favor junto a Fachin. “Eu queria uma chance”, relembra Cunha. “Joesley combinaria com Fachin para jogar o julgamento da ação em plenário para agosto, tentando ganhar tempo”, completa o autor. Foi inútil. A pressão fez com que Cunha fosse obrigado a renunciar à cadeira ainda em julho de 2016.

JOESLEY FEZ MEIRELLES MINISTRO

Outra passagem que mostra a interferência crescente de Joesley no governo Temer é a que ele (Cunha) descreve o episódio em que o empresário teria se empenhado agudamente para alçar Henrique Meirelles ao posto de Ministro da Fazenda do novo governo – na ocasião, Meirelles era presidente do Conselho Consultivo da J&F, o grupo do empresário. A nomeação, como se sabe, acabou acontecendo.

Cunha conta também que, em paralelo, Joesley convenceu Temer, antes mesmo de assumir, a fazer um movimento público para acalmar o mercado. “Ele estava preocupado com as suas posições do mercado de dólar futuro. Para evitar o aumento do prejuízo, ele gostaria de uma sinalização de Temer ao mercado – de que a política cambial não iria sofrer qualquer mudança.” De acordo com Cunha, mais adiante, Temer incumbiu Moreira Franco de dar uma entrevista para tranquilizar a Faria Lima (mercado financeiro), atendendo ao pleito (o que de fato acabou acontecendo).

O ex-deputado aponta ainda uma suposta reunião secreta na mansão de Joesley em São Paulo. Segundo ele, Lula teria participado para tentar impedir o prosseguimento do impeachment de Dilma. Cunha descreve: “Então ele apelou para que encontrássemos uma saída para a questão, dizendo que o impeachment seria muito ruim para o país. Respondi que isso seria impossível (…). Comprometeu-se a tratar com Dilma a situação da minha mulher e da minha filha, a fim de tentar reverter no STF o envio das investigações para Curitiba. Sinceramente, eu não acreditava nisso. E, acho, nem ele ”, conta.

De acordo com Cunha, durante a conversa, Lula deu a medida do que pensava sobre sua sucessora: “Então, o ex-presidente fez um desabafo surpreendente. Contendo o choro, Lula disse que o maior erro que ele havia cometido na vida foi ter permitido que Dilma se candidatasse à reeleição ”. Procurados pela revista, Lula e Dilma não quiseram falar sobre o assunto.

RODRIGO JANOT SOBRE CUNHA: NÃO CONVERSO COM CRIMINOSO

Antes do encontro em São Paulo, Cunha conta que ele abriu as portas de sua residência para uma reunião com Jaques Wagner, em Brasília. Seria uma tentativa de mudar o interlocutor, posição que era assumida anteriormente pelo ministro José Eduardo Cardoso. “A conversa com Wagner foi tensa. Não iria sair na porrada física com ele, mas não estava certo de que aquilo acabaria bem”, escreveu o ex-deputado.

Segundo ele, em outra ocasião, o ministro petista lhe ofereceu um cardápio de possibilidades para blindar Dilma, como proteção no Conselho de Ética e a chance de transformar Temer em ministro da Justiça. Jaques Wagner, hoje senador, garante que foi Cunha quem tentou fazer uma chantagem, pedindo apoio do partido no Conselho de Ética para rasgar o impeachment. Outro grande desafeto do ex-deputado, Rodrigo Janot, preferiu ser mais sucinto em seu comentário: “Não discuto com criminoso”.

O ex-parlamentar apontou também sua metralhadora na direção de ex-integrantes do Conselho de Ética da Câmara. Cunha acusa o então presidente do colegiado, o ex-deputado José Carlos Araújo, de lhe pedir R$ 3 milhões para a campanha, por meio do também ex-deputado Sandro Mabel. Se topasse, poderia interferir na escolha do relator de seu processo no colegiado. “Essa história é mentirosa. Nunca conversei com o Mabel sobre isso ”, rebate Araújo.

O relator, que depois viria a ser substituído, Fausto Pinato, também teria exigido dinheiro em troca de facilidades, segundo Cunha: “Fausto Pinato estava disposto a arquivar, segundo o que me trazia o deputado André Moura, que se tornava o meu interlocutor com ele . Só que, oportunista, pediu, por intermédio de Moura, R$ 5 milhões”. Pinato mostra-se indignado com a história. “Vou ter de processar Cunha. É muito fácil ficar preso, condenado, e, depois que está enterrado politicamente, ficar falando. Por que não falou na época?”, questionou Pinato.

Da cadeia, Cunha escreveu que, se o PT não tivesse tentado derrotá-lo na Câmara, ele jura que jamais teria detonado o processo de impeachment. Por sua vez, Cunha também faz um mea-culpa, afirmando que o rompimento por parte dele foi um erro que o obrigaria a administrar todas as consequências dessa decisão. Mesmo em meio à guerra já declarada contra os ex-aliados, o autor conta ter tido a disposição de voltar atrás, caso cessassem os ataques.

Como se vê, o livro constitui mais um desabafo de alguém que foi defenestrado da política nacional pelas práticas que o levaram a vários processos e condenações, razão pela qual sua leitura deve merecer um forte senso crítico para distinguir a verdade dos fatos das mentiras e fantasias do ex-deputado.

Fonte: horadopovo.com.br/do-xilindro-para-os-holofotes-cunha-lanca-livro-se-dizendo-grande-injusticado