Amor ou ódio: relacionamentos abusivos aumentam na pandemia – ViDA & Ação

A quarentena, desde o início, se tornou difícil para muitas pessoas, principalmente para aquelas que possuem um namoro ou casamento conturbado. Os relacionamentos abusivos não são nenhuma novidade, mas durante todo esse período em casa, eles se tornaram mais propensos a acontecer.

Antes, com a rotina diária, alguns casais passavam pouco tempo junto, por isso, as brigas que aconteciam eram consideradas normais, com o confinamento, foi evidenciado um número muito grande de relacionamentos abusivos, até mesmo de pessoas que nunca haviam passado por isso. Já aqueles que tinham essa união conturbada, as ofensas, agressões passaram a ser muito mais frequentes”, explica a psicóloga Beatriz Brandão.

Essas situações não são exclusivamente com o sexo feminino, no entanto, 80% dos casos acontecem com as mulheres, de acordo com a ONU, podendo ser facilmente explicado devido ao machismo estrutural da sociedade. Motivo pela qual ocorrem diversos questionamentos e julgamentos do porquê a mulher simplesmente não sai daquele casamento ou namoro.

Mas não é só na relação homem mulher que isso acontece. O abuso pode ocorrer de diversas formas: de pai pra filha, de filho pra pai, de filha pra mãe, entre casais homoafetivos e outros. Mas, afinal, o que são os relacionamentos abusivos?

São aqueles em que há vítima e agressor. Acontece a partir do momento em que alguém tenta dominar o outro fisicamente ou por artifícios psicológicos e emocionais. Neste momento, o relacionamento deixa de ser saudável e pode inclusive evoluir para  um relacionamento doentio e perigoso, resultando em crimes passionais, por exemplo”, explica Aline Machado Oliveira, psiquiatra e psicoterapeuta junguiana.

O agressor tende a querer dominar tudo o que for possível na vida da outra pessoa; tentando controlar as amizades, o modo de se vestir, o uso do celular e das suas redes sociais. O abuso dentro de um relacionamento, não se restringe à violência física, mais fácil de ser detectada, seja no meio familiar ou social, mas ele existe sempre que há a violência psicológica, mais difícil de identificar e cujo manejo é bem mais complexo e demorado.

Em qualquer situação, mas principalmente através do abuso psicológico, o agressor obtém poder sobre a outra pessoa, usando de controle e manipulação emocional.

Segundo a Dra. Aline, uma das primeiras coisas que um agressor faz em um relacionamento abusivo, é destruir a autoestima da outra pessoa. Ela explica que a autoestima da vítima é afetada drasticamente e pode ser destruída quando o agressor usa de jogos psicológicos com frases de acusação como: “ela faz isso porque quer” ou “ela sempre foi assim, só está se fazendo de vítima” , a fim de manipular a realidade.

A vítima torna-se a culpada pela agressão sofrida e ela aceita isso como verdade. Desta maneira, a vítima passa a ter uma percepção distorcida de si. Quanto mais oprimida, mais passiva a pessoa pode ficar, até se tornar completamente impotente, pois foi convencida pelo agressor de que ela está errada e é a culpada pelos problemas no relacionamento.

Aline Machado Oliveira, médica psiquiatra e psicoterapeuta junguiana (Foto: Divulgação)

CHANTAGEM E CULPA

A chantagem emocional é um artifício muito usado para a manipulação e, geralmente, é de difícil identificação. O chantagista conhece os pontos fracos da vítima e se utiliza de sentimentos como o medo e a culpa para manipular as pessoas e alcançar os seus objetivos, embora nem sempre o manipulador tenha consciência de que pratica a chantagem emocional.

OUTROS TIPOS DE VÍTIMAS

Embora sejam mais conhecidos e tratados, os relacionamentos abusivos em que a vítima é a mulher e o agressor o homem, esse tipo de situação vai muito além e envolve pais e filhos, relacionamentos homoafetivos, relacionamentos entre patrões e empregados, relações de amizades, etc.

Hoje em dia é bem mais comum a violência doméstica quando a mãe ou o pai, é a vítima de filhos adolescentes que, muitas vezes, usam de agressão física. Mas não para por aí. Além das agressões físicas o abuso psicológico e a manipulação, também se fazem presentes nestes casos. Ocorrem comumente a chantagem emocional e a agressão verbal. Acusações como: “você acabou com a minha vida” ou “você só me faz passar vergonha” entre outras, são apelativas e até teatrais.

A falta de imposição de limites nos filhos desde a infância, levam os pais a sofrerem esse tipo de problema doméstico, e não sabendo como agir, acabam cedendo. Desde a infância, o papel de autoridade dos pais se perde pela dominação dos filhos. A situação mais conhecida e explorada é a inversa, o abuso dos pais contra os filhos, e nesse caso, a violência física acaba sendo a mais comum”, explica a Dra. Aline.

 Não é fácil sair de um relacionamento abusivo, ainda mais quando já é um relacionamento de longa data. A pessoa que é vítima de um relacionamento abusivo precisa de ajuda profissional que possa auxiliá-la a identificar o problema e superá-lo, principalmente quando esses relacionamentos deixam traumas mais profundos e que afetam uma ou mais áreas da vida.

Relacionamentos são sempre um desafio e para termos relacionamentos saudáveis é preciso impor limites ao outro e entendermos que nós também precisamos de limites. Isto implica inclusive saber lidar com as relações quando detemos alguma posição de poder. Aprender a dizer “não” é necessário, e saber aceitá-lo também. Se você se identificou com as situações citadas, procure ajuda profissional. Não desista de você!”, diz a especialista, Dra. Aline Machado Oliveira.

Para a psicóloga Beatriz Brandão, é muito difícil identificar essas divergências logo no início, e quando a pessoa que sofre o abuso começa a reconhecer o que está acontecendo, o abusador já deixou traumas psicológicos, fazendo com a pessoa não se sinta suficiente, se sentindo culpada por algo que ela não fez.

Outra característica bem marcante do abusador é que ele induz a pessoas gradativamente a se afastar de familiares, amigos e até mesmo do emprego, parecendo ser algo bom para ela, mas no final ele só quer que a parceira fique ainda mais presa naquele relacionamento, virando uma bola de neve”, comenta Beatriz.

Para Beatriz, as características principais são as tentativas de controle sobre a vida do companheiro, ou seja, começa sempre com coisas simples, como pedidos para não cortar o cabelo, trocar de roupa, não ir visitar aquele parente porque ele se sente desconfortável e assim por diante.

No entanto, essas situações começam a ficar mais graves, os pedidos se tornam ordens e quando não são aceitas, o abusador grita, ofende e até mesmo agride, sempre com a desculpa de que fez aquilo por culpa do outro “Na maioria dos casos, as agressões psicológicas são as mais frequentes, então ele desqualifica a pessoa em público, ofende, diminui, utiliza de um falso moralismo, se vitimiza e trai com uma certa frequência”, afirma Beatriz Brandão.

É comum perceber, que em seguida de situações como essa, o abusador utilize de compensações para se desculpar, como envio de flores, compra algo que faria o outro feliz e faz juras de mudança que não vão acontecer, assim, o ciclo se repete novamente.

Para sair de um relacionamento abusivo, geralmente é necessário da intervenção de outra pessoa para ajudar quem está sofrendo, seja uma amiga, parente, colega de trabalho, entre outro. Peça a ajuda de alguém que possa lhe oferecer segurança e denuncie no telefone 180 (Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência) ou para a polícia no 190. O importante é que haja um tratamento pós-trauma para fazer com que quem estava em situação de risco se sinta livre e feliz novamente”, finaliza Beatriz.

Fonte: www.vidaeacao.com.br/amor-ou-odio-relacionamentos-abusivos-aumentam-na-pandemia