Desigualdade na distribuição de vacinas dificulta fim da pandemia

São Paulo – A desigualdade vacinal segue como uma das grandes barreiras para a superação da pandemia de covid-19. Enquanto países ricos estocam vacinas e aplicam terceira dose mesmo em grupos não prioritários, regiões mais pobres do planeta sofrem com a falta de vacinas. “Apenas 20% de habitantes de países de renda baixa e média-baixa receberam a primeira dose, em comparação com 80% nos países de rendas alta e média-alta”, informa a Organização Mundial da Saúde (OMS), ao traçar expectativas ruins para o fim da pandemia.

Diante dos desafios, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, reforçou o apelo da entidade por uma “moratória” na aplicação das doses de reforço. A entidade pede que os países ricos apliquem terceiras doses apenas em grupos de risco, como idosos e imunossuprimidos, como fazem alguns estados brasileiros. “Não queremos ver desperdício de vacinas de reforço para pessoas saudáveis totalmente vacinadas”, disse Tedros. “Há um mês, apelei para uma moratória global das doses de reforço pelo menos até o fim de setembro. E desse modo, permitir vacinar as pessoas de maior risco no mundo que ainda não receberam a primeira dose. Hoje eu apelo a uma extensão pelo menos até final do ano”, completou.

Covax Facility

A OMS também divulgou informe hoje sobre o consórcio Covax Facility. Destinada a distribuir vacinas para regiões mais pobres do mundo, a iniciativa não alcançará 30% da meta prevista de 2 bilhões de doses. “O cenário global de acesso às vacinas é considerado inaceitável. Em um comunicado conjunto, as entidades que lideram a Covax pedem aos países ricos que compartilhem um maior número de doses. O grupo justifica o corte da meta do mecanismo para 1,425 bilhão de doses por fatores como restrições à exportação do Serum Institute da Índia, SII, tido como um importante fornecedor”, informa a OMS.

Diante das dificuldades, o consórcio liderado pela OMS redefiniu a meta e espera entregar as doses até o fim do primeiro trimestre de 2022. Ou seja, não se pode vislumbrar o fim da pandemia antes desse período. “Desafios atuais incluem as proibições de exportação, a priorização de acordos bilaterais por fabricantes e países, o contínuo aumento da produção por alguns fabricantes importantes e atrasos no pedido de aprovação regulatória. O apelo feito aos doadores e farmacêuticas é que se empenhem novamente em fornecer seu apoio e evitem mais atrasos no acesso equitativo, garantindo a transparência nos planos acordados para permitir que as nações planejem com antecedência”.

A expectativa da OMS é de que ao menos 40% da população de cada país tenha recebido ao menos uma primeira dose. Trata-se de um grande desafio. Em Israel, por exemplo, o fim das medidas de isolamento e o avanço da variante delta provocaram aumento de casos e mortes por covid-19. O governo local preferiu distribuir mais vacinas, mesmo entre os mais saudáveis. Hoje, o país já aplicou 193 doses para cada 100 cidadãos. Contudo, o número de pessoas totalmente imunizadas é de 75%, já que existem negacionistas que rejeitam as vacinas.

Um caso similar acontece nos Estados Unidos. O país tem uma baixa porcentagem de imunizados, apenas 49,15% tomaram duas doses ou vacina de dose única. Não por falta de imunizantes. O país vê vacinas perderem a validade sem serem aplicadas. Isso, porque existe um movimento negacionista anti-vacinas que se alimenta de informações falsas e teorias conspiratórias para rejeitar os fármacos. Como resultado, além do desperdício de vacinas, o país é o líder de mortes diárias por covid-19 no mundo. Autoridades sanitárias alertam que 99% das mortes no país estão entre pessoas que rejeitaram vacinas.

Enquanto isso países africanos, por exemplo, passam por escassez de imunizantes. A República Democrática do Congo tem apenas 0,12% da população com uma dose; a Etiópia, país de Tedros, tem 3,02%; entre os mais avançados, o Namíbia, com 10,03% e a África do Sul, com 20,85%. No Brasil, 69,3% receberam a primeira dose e 33,51% estão totalmente imunizados.

Balanço

Com o avanço da vacinação, os números da covid-19 seguem em queda no Brasil. Contudo, as mortes seguem elevadas. Hoje (9), morreram 753 pessoas em 24 horas, sem contar com dados de Rondônia e Roraima que não encaminharam o balanço até o fechamento do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass). Com o acréscimo, o país tem 585.174 vítimas do vírus, sem contar com ampla subnotificação. No mesmo período, foram notificados 30.891 novos casos, totalizando 20.958.899 desde o inídio da pandemia, em março de 2020.

Números da covid-19 no Brasil. Fonte: Conass

A média diária de mortes, calculada em sete dias, está em 466, menor patamar desde o dia 13 de novembro do ano passado, no período de vale após o fim da chamada “primeira onda” de impacto da doença. O indicador de casos diários está em 18.343, melhor marca desde o dia 9 de novembro. Embora sejam dados positivos, ainda é imperativo a cautela e medidas para conter a transmissão do vírus, como uso de máscaras e distânciamento social. A pandemia não chegou ao fim.

“É fundamental que cada município avalie o indicador de transmissão comunitária para identificar se o sinal de estabilidade na tendência de longo ou curto prazo na macrorregião correspondente está ocorrendo já em nível significativamente baixo ou ainda em valores elevados, para evitar retomada de atividades de maneira precoce, podendo gerar manutenção de níveis altos de novas internações e óbitos, além de manter a taxa de ocupação hospitalar em percentuais próximos da saturação”, alerta o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Marcelo Gomes.

Fonte: www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2021/09/desigualdade-distribuicao-vacinas-dificulta-fim-pandemia