'Doenças de papel': das pandemias de Homero à literatura contemporânea – ViDA & Ação

Como as doenças são retratadas pela literatura? Tema mais do que atual para discutir nos dias pandêmicos de hoje. Pois o assunto foi esmiuçado pelo crítico literário Áureo Lustosa Guérios, doutorando em Humanidades pela Universidade de Pádua (Itália), a convite do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). No seminário Doenças de papel: das pandemias de Homero à literatura contemporânea, ele falou sobre como doenças foram decodificadas pela arte e a literatura. Esta última, o carro-chefe da palestra que proferiu no Youtube, no último dia 13 de julho.  

Durante duas horas, Lustosa tratou de algumas das doenças que levaram morte e pavor à Humanidade. Inicia sua explanação traçando um paralelo entre o que denomina doença individual e doença coletiva, exemplificando-as com muita literatura e seus muitos grandes escritores. Amparado, sobretudo, por aquela, Lustosa nos faz retroceder ao poeta grego Homero, autor de Ilíada e Odisséia (e considerado o pai da literatura universal), trazendo-nos de volta à literatura contemporânea,  com um conto da norte-americana Susan Sontag (1933-2004), intitulado Assim vivemos Agora, sobre a solidariedade, a dor, o amor e a luta contra a morte, quando do ínicio dos tempos da Aids.

Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, a palestra se dá de forma clara e simples, embora lide com clássicos da literatura e muita erudição. Lustosa Guérios desperta nossa curiosidade para saber e conhecer quem eram e o que diziam escritores e a literatura que faziam sobre males que percorreram a história do mundo. Isto porque, justifica ele, “a literatura é aquela que mais fala da condição humana e, portanto, fala de temas universais”. 

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A doença individual x a doença coletiva

A fim de nos fazer entender a dicotomia entre o que chama de doença individual e doença coletiva, o crítico literário nos brinda com a poeta Sylvia Plath, ao falar de seu único romance A redoma de Vidro, que tem muito de autobiográfico. A escritora, vítima de forte depressão, suicidou-se aos 30 anos, em 1963. O livro foi lançando pouco antes de sua morte. 

Tuberculose também seria uma doença individual, da qual tratou nosso Manuel Bandeira (1886-1968), ele mesmo acometido pela doença, como nos conta o palestrante, lembrando-se de outros males considerados individuais, como a epilepsia e o câncer. A primeira foi abordada por Fiódor Dostoiévski (1821-1881) no romance O Idiota. O escritor russo sofria também de crises constantes de epilepsia, tal qual o protagonista do romance, o príncipe Michkin: homem bom e simples, que é considerado pelos outros um idiota, justamente por tais atributos.  

“O câncer, por exemplo, está na novela A  Morte de Ivan Illicht, do também russo Leon Tólstoi (1828-1910). O juiz Illich reavalia sua existência em seus meses finais de vida”, explica Áureo. “Já pandemias e epidemias seriam males coletivos e estou pensando em coronavírus, cólera e peste: doenças da massa, que acometem centenas e milhares de pessoas”, diferencia ele.

A Guerra de Tróia e a epidemia da peste

Áureo leva-nos, então, ao primeiro canto da Ilíada: epopeia escrita há três mil anos sobre a Guerra de Tróia, seus deuses imortais e seus mortais guerreiros. Durante a guerra de Tróia, que durara cerca de dez anos (de acordo com historiadores), a epidemia da peste teria recaído sobre os gregos (e não sobre os troianos), segundo a narrativa de Homero, como vingança. É que na divisão de espólios pós-combates, o grego Agamenon ficou com Criseida, filha do sacerdote do deus Apolo.  

Crisis – era este o nome do pai da jovem — propõe, então, a Agamenon pagar um resgate, pela devolução da filha. O guerreiro se recusa. Como vingança, Crisis se vale do deus Apolo, que manda a peste para os gregos, como castigo.

Apolo. Deus da medicina, da ciência e da cura. Mas é também o responsável pelas epidemias. Crisis reza a Apolo, que dispara suas setas nos gregos, que não morrem das flechadas, mas da peste, o veneno que as ponta das flechas do deus levam. E Homero escreve: ‘Durante nove dias, as piras dos cadáveres gregos ardem’ ”, conta-nos Guérios . 

Para tentar aplacar de Apolo e suas flechas, os gregos reconsideram e devolvem Criseida ao pai. “Não por acaso, a flecha era o símbolo da peste, lançada aos mortais como punição. Peste normalmente retratada como um demônio negro e que vem munida de flechas”, completa.

Peste como fruto da luxúria e do pecado

Saindo da Antiguidade grega, viajamos até a Florença de 1348, pela literatura dos escritores italianos contemporâneos entre si e amigos Boccacio (1313-1375) e Petrarca (1304-1374): 

Bocaccio, no Decameron, faz uma descrição da peste em Florença, que matou de 30% a 40% da população global, em 1348. No livro, três rapazes e sete moças se abrigam num castelo para fugir da peste e passam o tempo a contar histórias”, relata o palestrante.

A peste, inclusive, segundo Boccacio, teria sido resultado da luxúria e do pecado da população, como diz trecho de Decameron: “

..Tínhamos já atingido o ano … de 1348, quando, na mui importante cidade de Florença… sobreveio a mortífera pestilência… nenhuma prevenção valeu, baldadas todas as providências dos homens… Nem conselho de médico, nem virtude de mezinha alguma parecia trazer a cura ou proveito para o tratamento (…) fosse ela fruto da ação dos corpos celestes, fosse ela enviada aos mortais pela justa ira de Deus para correção de nossas obras iníquas”. 

Afirma, a respeito, Áureo Lustosa: “Tem-se a epidemia como castigo divino, doença contagiosa como punição divina”, para nos apresentar, em seguida, um dos maiores poetas líricos precursores do Renascimento: Francesco Petrarca, que viveu durante a epidemia da Peste Negra e compôs seus poemas de amor para sua musa Laura, vitimada pela doença. 

O Silêncio da Peste

Mas a peste também podia ser silenciada: Lustosa Guérios nos conta que mais de 150 anos passados da peste em Florença, o dramaturgo inglês Willian Shakespeare (1564-1616) não falará sobre o tema, muito embora tenha vivido durante cinco surtos da enfermidade, durante um período em que 40% dos teatros ingleses ficaram fechados, para evitar risco de contaminação. Com 44 peças escritas, nenhuma trataria da peste. “Apenas em Romeu e Julieta se comenta que não se pode ir em determinados lugares por conta de uma doença”, lembra Áureo.

Do século XVI, saltamos para o XX, com o argelino Albert Camus (1913- 1960) em seu livro A Peste, considerado por muitos uma metáfora para opressões, como o nazismo e a guerra. Escrito em 1947, pouco depois da Segunda Grande Guerra (1939-1945), o romance se tornou quase um best-seller no Brasil, no século XXI, após o surto do coronavírus.  

A obra se passa em Orã, cidade natal de Camus, onde ratos começam a morrer (não sem antes contagiar os seres humanos). O flagelo se instaura e a cidade entra em quarentena. Sermões de um padre justificam o castigo da doença pelos cidadãos pecaminosos.

Ensaio sobre a Cegueira

Fechando-se o ciclo, o palestrante nos acena com o escritor português e Nobel da Literatura José Saramago (1922-2010) em seu Ensaio sobre a Cegueira. Adaptado para o cinema em 2008, a obra foi publicada em 1985. Narra sobre uma cegueira branca que começa a acometer a todos. Saramago considerava o livro brutal porque expõe a falta de solidariedade ao próximo e, por conseguinte, a barbárie.

Quando a gente fala de doença, a gente fala de condição humana porque todos nós ficamos doentes e doença e morte são aspectos da vida, já que não somos imortais e a literatura tratou e trata dos males do mundo”, atesta Áureo Lustosa.

Simplesmente Imperdível.

Fonte: www.vidaeacao.com.br/doencas-de-papel-das-pandemias-de-homero-a-literatura-contemporanea