Homens enfrentam 'luto silencioso' e não reconhecido – ViDA & Ação

Por Bruno Diniz*
Bruno Diniz é psicólogo clínico com foco em perdas e luto, luto do homem e acolhimento a pais de anjo (Foto: Divulgação)
Estamos no Novembro Azul, que trata das questões da saúde do homem, em especial o câncer de próstata. A campanha foca na saúde em geral, mas alguns temas são poucos comentados, como o luto do homem, por exemplo, e as consequências em torno deste luto quando ele é mal elaborado ou velado.
Um dos problemas mais comuns é o aumento da ansiedade, tristeza e depressão. Uma pesquisa de 2019, realizada pelo Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL), criador da campanha Novembro Azul no Brasil, mostra que os homens estão emocionalmente fragilizados: 63% sentem ansiedade, 46% sofrem com tristeza e 23% com depressão. Esses dados demonstram uma saúde emocional e psicológica preocupante.
Segundo a pesquisa recente da LAL, neste ano de 2020, com a pandemia, mudanças de hábito e o medo do futuro, os números relacionados à fragilidade emocional aumentaram, principalmente entre os homens mais jovens, como podemos observar: 69% dos homens de faixa etária entre 14-25 sentem desânimo, 73% dos homens de 26-35 sentem ansiedade e 32% dos homens com mais de 65 anos relatam que sentem tristeza.

Os sentimentos negativos em homens mais jovens, principalmente os que estão em início de carreira, podem ter tido um aumento devido ao grande número de desemprego. É importante lembrar que até a perda de um emprego precisa de um tempo para elaborar o luto, principalmente quando o tempo neste mesmo emprego foi duradouro, pois muitos enxergam seu ambiente de trabalho como uma segunda casa, passando até 9 horas ou mais no local de trabalho.

Luto do homem é um luto silencioso

Durante meu tempo de atuação na clínica, pude conhecer de perto os mais variados tipos de luto. Um dos lutos que mais me chamou a atenção é o luto do homem, que eu ainda considero um luto silencioso. Talvez esse silêncio se intensifique ainda mais pela forma reservada que o homem tem de vivenciar suas perdas.
Ao longo de nossas vidas, passamos por vários lutos: Saímos da infância, entramos na adolescência e, em seguida, na vida adulta; depois, entramos na vida idosa. Perdemos um emprego e arrumamos outro, começamos e terminamos relacionamentos, saímos da casa de nossos pais, mudamos de cidade ou de país, enfim, estamos sempre em processo de luto. O luto é um recomeço e encerramento de ciclos e não necessariamente apenas quando perdemos nossos entes queridos.
O luto do homem, por sua vez, é tão silencioso que a sociedade, que já não tem o hábito de pensar ou falar sobre a morte, quando se depara com um homem enlutado, pergunta como vai a família dele. Raramente pergunta como ele de fato está ou se precisa de algo. Talvez esse fato esteja ligado com o que se “espera” do homem: Um homem forte, inabalável e protetor dificilmente, segundo o imaginário social, vai precisar receber apoio.

Mas afinal, o que é um luto não reconhecido?

É exatamente o silêncio, é o luto velado o “fingir que não vê”. Nem sempre as pessoas se comportam assim por querer. Muitas seguem padrões comuns da sociedade, ou seja, falam sempre o mínimo possível sobre a finitude e, quando, de fato, ela chega, evitam tocar no assunto para não ferir ainda mais o enlutado.
Mas será que isso resolve? Não, além de não resolver, é evidente que o enlutado fica ainda mais desconfortável para pedir apoio quando não há abertura. Quem passa por uma perda precisa de acolhimento e validação das suas emoções. Por isso, encontrar portas fechadas gera mais um sofrimento.
O homem costuma se encarregar mais da burocracia durante a perda: Os homens, assim como as mulheres, sofrem suas perdas. Contudo, cada um vivencia de uma forma diferente. Embora não seja uma regra, as mulheres costumam falar mais sobre suas perdas, são mais emotivas e não se sentem desconfortáveis em pedir ajuda.
Por outro lado, o homem ou regula mais suas emoções ou se envolve em muitas tarefas para pensar menos no assunto. Como eu disse, não é regra, mas é mais comum o homem se encarregar das burocracias do funeral, receber ou comunicar a família sobre o falecimento de um ente querido e dar apoio à esposa, aos filhos e à família em geral.

E quem acolhe esse homem?

Geralmente este homem é aquele que chora em seu canto, no chuveiro, no carro ou sob os óculos escuros. Sofrer sozinho é mais pesado; em silêncio, mais ainda. A perda de forma velada ou não comunicada pelo enlutado, fica ainda mais difícil de receber apoio. É muito comum que o homem seja acolhido por pessoas que o conhecem bem, como a família e amigos mais próximos, pois o serviço de saúde (principalmente o de ajuda psicológica) é o último recurso a ser procurado.
Ainda existe uma certa resistência em procurar o terapeuta, às vezes por falta de informação. O psicólogo, no imaginário popular, ainda está ligado à loucura. Outra possível resistência em procurar ajuda é também reconhecer que não somos de ferro o tempo inteiro. Reconhecer isso é outra tomada de consciência e responsabilidade que vai demandar tempo e foco para as novas mudanças.
Quando procurar ajuda?

Procurar o trabalho de um psicólogo, ou até mesmo de um psiquiatra, quando o caso já está muito avançado, por exemplo, é um passo difícil para muitos. Falar de si mesmo é um dos exercícios mais delicados que podemos realizar, mas é uma decisão importante para melhorar a qualidade de vida. Há casos, por exemplo, em que o paciente não consegue sair da cama, não consegue mais produzir ou até mesmo fazer as atividades de que mais gostava.
Quando o luto não é mais saudável e já está impedindo que o indivíduo prossiga na vida, este luto já está entrando em um processo que chamamos luto complicado. É o momento importante para procurar ajuda profissional e, dependendo da gravidade do caso, pode ser necessário um trabalho em conjunto com o psiquiatra para intervenção medicamentosa.

Por fim, procurar ajuda não é sinal de fraqueza. Como os dados mostram, é sinal de alerta para uma melhora de vida. Ao cuidarmos de nós mesmos, melhoramos consideravelmente a nós mesmo, o nosso convívio social e, principalmente, familiar.
*Bruno Diniz é psicólogo clínico (CRP 06/140693), com foco em perdas e luto, luto do homem e acolhimento a pais de anjo.
Referências:
Aconselhamento do Luto e Terapia do Luto: um manual para profissionais da saúde mental / J. William Worden. – São Paulo : Roca, 2013.
Pesquisa Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL) no ano de 2020 (ver ).

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Fonte: www.vidaeacao.com.br/luto-do-homem-um-luto-silencioso-se-torna-tambem-nao-reconhecido