Pacientes com obesidade devem ser vacinados contra a Covid-19 – ViDA & Ação

Sobrepeso e obesidade são uma das maiores preocupações da Medicina atualmente. Diversos estudos realizados com pacientes que contraíram a Covid–19 em todo o mundo comprovam que a doença pode se manifestar em sua forma mais grave, como ocorre em idosos, em indivíduos jovens e até mesmo sem qualquer doença como diabetes, hipertensão, problemas cardiovasculares, entre outras comorbidades.

A obesidade é um dos principais fatores de risco para a Covid–19. As causas vão de maior carga viral a outras complicações provocadas por gordura, açúcar, sal, entre outros, em excesso no organismo de quem está acima do peso normal. Por isso, pessoas com obesidade e diabetes não podem deixar de se vacinar contra a doença.

Já está confirmado pela ciência que essas duas comorbidades podem agravar o quadro da infecção causada pelo coronavírus. Obesidade é uma doença crônica e junto com ela o paciente pode ser acometido por diabetes, hipertensão, doenças cardíacas, doenças pulmonares, além de alterações hormonais”, alerta a endocrinologista Lorena Lima Amato.

Estudos recentes mostram que os indivíduos com obesidade apresentam maior inflamação, volume pulmonar reduzido, apneia do sono, alterando a oxigenação enquanto dormem, e maior risco de trombose. Todos esses fatores e a presença de comorbidades, como diabetes e hipertensão, favorecem um maior risco de complicações nos casos de Covid–19.

De acordo com o World Obesity Day, pessoas que vivem com obesidade têm duas vezes mais chances de serem hospitalizadas se o teste for positivo para o vírus. “Diante dessas evidências, as pessoas com obesidade grau III (IMC maior ou igual a 40) estão no grupo de risco e entraram como prioridade na vacinação contra a Covid–19″, defendem as coordenadoras da ONG Obesidade Brasil, a nutróloga Andrea Pereira e a psicóloga Andrea Levy.

 

Apesar da recomendação, uma série de pesquisas sobre a eficácia de vacinas contra vírus influenza, hepatite A, hepatite B, raiva e tétano aponta menor imunidade em pacientes acima do peso e isso deve se repetir com a vacina contra o novo coronavírus, segundo pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, a obesidade é uma doença crônica e uma das suas características é o constante estado de inflamação dos pacientes. As vacinas são projetadas para induzir uma resposta inflamatória do sistema imunológico e criar anticorpos eficientes contra um determinado vírus, mas a inflamação crônica em adultos obesos pode interferir nesse processo e enfraquece as vacinações.

As pessoas com obesidade e diabetes precisam redobrar sua atenção com o coronavirus, e utilizar todos os recursos médicos para se tornarem mais saudáveis. E como não sabemos quanto tempo levará para termos uma vacina eficaz no obeso, nem quantas ondas atingirão o país, isso não pode ser retardado. Não dá pra continuarmos vendo apenas meio por cento da população tendo acesso ao tratamento cirúrgico”, alerta o presidente da SBCBM, Marcos Leão Vilas Bôas.

Barry Popkin, coordenador do estudo na Universidade da Carolina do Norte, disse à BBC que, com base nos conhecimentos adquiridos no desenvolvimento das vacinas para a Sars e Influenza, o benefício da vacina da Covid–19 na população obesa pode ser menor.

Em um estudo publicado no International Journal of Obesity, em 2017, os pesquisadores da Carolina do Norte descobriram que adultos considerados obesos e vacinados contra o vírus Influenza, causador da gripe, tinham duas vezes mais chances de contrair a doença ou desenvolver gripe semelhante do que adultos vacinados com IMC mais baixos.

Eles também descobriram que adultos vacinados que eram considerados obesos desenvolveram anticorpos contra a gripe, mas ainda tiveram resultados piores relacionados à gripe do que os adultos vacinados com IMC mais baixos.

Em março de 2020, no início da pandemia global, um estudo com dados da China apontou que pacientes portadores de doenças crônicas, incluindo a obesidade, apresentavam maior chance de mortalidade. Na época, entre indivíduos considerados saudáveis, a mortalidade era de 1% enquanto o de portadores de doenças crônicas chegava a 13%.

Em abril, pesquisadores da Universidade de Nova York (NYU) conduziram o maior estudo em hospitais dos Estados Unidos e indicaram que quanto maior o Índice de Massa Corporal (IMC) maiores eram as chances de hospitalização, entubação e morte.

Estudo semelhante conduzido por pesquisadores franceses do Instituto Lille Pasteur também apontou no mesmo sentido, sendo que 47,6% dos pacientes internados eram obesos e 28,2% tinham obesidade mórbida.

Especialista em obesidade e cirurgia bariátrica, o médico Cid Pitombo explica que obesos mórbidos, com índice de massa corporal (IMC) acima de 45, têm 4 vezes mais chances de ir a óbito com a Covid–19 e obesos que não são mórbidos, com IMC a partir de 30, possuem 48% a mais de chance. A probabilidade de um obeso precisar de internação é de 113%. E de chegar a ir para uma UTI é 74% maior nos obesos do que nas pessoas magras.

Os dados foram divulgados em setembro de 2020 por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) após avaliar nove pesquisas com 6.577 pacientes infectados pelo novo coronavírus na China, França, Espanha, Itália e nos Estados Unidos. Os dados mostraram que 9,4% dos obesos internados em UTI, em estado grave, morreram. O estudo do grupo coordenado por Silvia Sales-Peres foi publicado na revista Obesity Research & Clinical Practice.

Obesidade é uma doença grave. Mesmo quem ainda não tem hipertensão ou diabetes, e possui boas taxas de colesterol ou triglicerídeo, por exemplo, tem que se preocupar. A gordura prejudica o bom funcionamento de vários órgãos, como rins, fígado, pulmão, coração, pâncreas. Eles trabalham no limite. O obeso não tem reservas. Quando pega um vírus forte, seus processos inflamatórios são mais severos e os órgãos não suportam”, destaca o médico.

De acordo com o especialista, o mais agravante é que obesos têm uma resposta imunológica muito mais lenta. Ou seja, as substâncias que poderiam atacar vírus, como anticorpos e outras, não são produzidas com a mesma velocidade e intensidade como nas pessoas mais magras.

No obeso, é tudo mais lento. Normalmente eles possuem mais açúcar no sangue, mesmo não sendo diabéticos. Algumas vacinas, por exemplo, não possuem a mesma eficácia neles porque não produzem a quantidade esperada de anticorpos. É o que acontece com a da gripe H1N1. Ainda não sabemos como será com a vacina da Covid. Mas temos esse temor”.

Outra preocupação é com a gordura visceral, localizada na barriga, e que atinge muito os homens. “Essa gordura é muito prejudicial e chega a prejudicar o bom funcionamento do pulmão, rins, fígado, entre outros órgãos. Muitos pacientes de Covid estão tendo que fazer hemodiálise nas UTIs porque os rins estão parando de funcionar de repente. A má oxigenação se reflete no corpo todo. Nesse momento, todos devem buscar o emagrecimento. E temos visto o contrário, as pessoas dentro de casa comendo mais do que o normal”, afirma.

Publicado em agosto de 2020, um estudo conduzido na França avaliou pacientes obesos e operados e concluiu que em pacientes bariátricos a necessidade de ventilação mecânica foi 33% menor e o índice de mortes 50% inferior, comprovando o efeito protetivo da cirurgia nesta população.

A obesidade tem representado o maior fator de risco para as formas graves da Covid19, e a cirurgia bariátrica aparece como uma potente arma de proteção para reduzir a gravidade da doença em pessoas com obesidade e diabetes. Além de todos os benefícios já extensamente consolidados em doenças como diabetes, hipertensão, derrame e câncer, agora também temos uma cirurgia que reduz mortalidade causada pelo novo coronavírus”, diz Villas Boas.

Mas é hora de fazer a bariátrica? Coordenador do Programa de Cirurgia Bariátrica do Estado do Rio de Janeiro, Cid Pitombo esclarece que a cirurgia é recomendada para pessoas com índice de massa corporal acima de 35. Esse índice calcula-se dividindo o peso pela altura ao quadrado, ou pessoas com IMC acima de 30, mas com doença grave, como diabetes.

A cirurgia bariátrica hoje é muito segura, com percentual de complicações graves em torno de 1% apenas. Mas é nossa última recomendação. Operamos quando a pessoa realmente não consegue atingir os objetivos de emagrecimento com dieta e exercícios”, destaca o médico. No programa, segundo ele, pacientes chegam a perder 100 quilos apenas com orientação nutricional adequada, antes mesmo de operar.

Para Cid Pitombo, é hora de comer bem para perder peso. “A alimentação saudável é fundamental. Nem é preciso se preocupar tanto por não poder ir à academia agora. Mudar o que se ingere é o fundamental. Quem puder, pode complementar com caminhadas em áreas sem aglomerações. Ou usar uma esteira ou bicicleta em casa. Só não recomendo ir a academias ainda”.

Segundo ele, obesos não podem contrair a doença. “Acredito até que o número de obesos infectados só não foi maior porque muitos deles estão desempregados, e puderam ficar confinados em casa. Numa pesquisa recente que fiz no Hospital Estadual Carlos Chagas, 70% deles estavam fora do mercado. Se todos os obesos estivessem nas ruas, a mortalidade teria sido mais alta”, esclarece.

O mais preocupante no período de isolamento é que as pessoas engordaram mais pelo consumo exagerado de bebidas alcoólicas, carboidratos, doces, comidas industrializadas e fast-food. “O problema foi acentuado pela menor perda calórica durante o confinamento e falta de exercícios físicos. Fora isso, obesos acham que podem flexibilizar, como os demais. Deveriam estar se resguardando”, concluiu.

Com Assessorias

Fonte: www.vidaeacao.com.br/riscos-da-covid-19-em-pacientes-com-obesidade-sao-muito-maiores