Paquetá pode se tornar o primeiro território livre da Covid no Rio – ViDA & Ação

Começou nesta quinta-feira (17/6) a pesquisa realizada pela Prefeitura do Rio de Janeiro e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Paquetá. O experimento quer avaliar em quanto tempo a população não terá que seguir medidas restritivas, como o isolamento social e o uso de máscaras. Não há números precisos sobre a vacinação em massa que acontecerá domingo 20 em Paquetá, mas a expectativa da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) é de que ao menos 1,5 mil pessoas sejam imunizadas.

O primeiro passo é um censo epidemiológico de todos os moradores de Paquetá para identificar a carga viral na comunidade. A testagem dos moradores – inclusive crianças – será realizada entre quinta e sábado 19, em vários pontos da ilha. A partir da coleta de sangue, o objetivo é saber quantas pessoas já foram infectadas e se desenvolveram anticorpos. Quem já tomou as duas doses do calendário (Coronavac, Astrazeneca ou Pfizer) também poderá participar da coleta do sangue para a pesquisa.

A testagem será dividida em três etapas: os que já se vacinaram, os que não receberam a vacina ou não podem se vacinar e um terceiro grupo, chamado de “grupo de intervenção”, com pessoas acima de 18 anos que ainda não tiverem sido vacinadas. A partir da testagem, ao identificar quem está positivo para a Covid-19, será avaliada qual a variante está circulando na área. 

O pesquisador da Fiocruz, José Cerbiano Neto, explicou que as pessoas são totalmente voluntárias e assinarão um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Em qualquer momento da pesquisa, elas podem decidir se querem permanecer ou não. Além disso, nenhum nome será exposto ou divulgado pela prefeitura. “Nenhuma etapa é condicionante de outra. Pode colher o sangue e não se vacinar ou pode fazer as duas coisas e não participar do evento-teste”, disse ele.

No domingo 20, as pessoas do grupo de intervenção receberão a primeira dose da Oxford/Astrazeneca, produzida pela Fiocruz. Em oito semanas (meados de agosto), a segunda dose será aplicada neste mesmo grupo. Hoje, a segunda dose da vacina do imunizanteé aplicada em 12 semanas, por conta da disponibilidade de doses. Após a vacinação, haverá uma nova testagem, para comparar quem recebeu a vacina agora com grupos anteriores e quem não foi vacinado, para identificar a ‘soro-conversão”, avaliando a efetividade da vacina.

Coleta de sangue realizada em moradora de Paquetá (Foto: Divulgação/Morena)

Carnaval fora de época

Sobre o carnaval fora de época anunciado para setembro pelo prefeito Eduardo Paes na segunda-feira 14 e muito criticada pelos moradores, o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz explicou em live promovida pela Associação de Moradores de Paquetá, a Morena, que a ideia é realizar uma festa sem o uso de máscara ou distanciamento social para testar a eficácia da imunização dos moradores do bairro, mas tudo vai depender da adesão dos moradores na primeira fase do estudo e da cobertura vacinal.

“Queremos fazer o teste com 100% das pessoas imunizadas, em um evento controlado, que só irá ocorrer 14 dias após a segunda dose e quando não tiver circulação do vírus na Ilha”, afirmou. Sobre a insegurança de muitos moradores, o pesquisador da Fiocruz explicou: “Há uma grande diferença entre ser cobaia e voluntário. É importante que o morador queira participar com total ciência de tudo que irá ocorrer. A pesquisa segue normas éticas e a legislação”, ressaltou José Cerbiano Neto.

Voluntários que estão trabalhando na pesquisa estão sendo treinados para esclarecer a população. Aqueles que já tomaram a primeira dose devem aguardar o seu calendário para realizar a segunda dose. A vacinação de adolescentes a partir de 18 anos não está descartada, mas vai depender da inclusão desse grupo pelo Plano Nacional de Imunização (PNI), do Ministério da Saúde. Guto Pires, presidente da Associação de Moradores de Paquetá, a Morena, calcula que pelo menos metade dos moradores da ilha, em sua maior parte idosos, já está vacinada.

O passo seguinte será a segunda testagem nos habitantes da Ilha, para que os pesquisadores possam fazer análises e comparações de taxas da doença. Eles esperam que todos os mais de três mil moradores se voluntariem para participar do estudo. Nenhuma etapa do estudo será realizada de forma obrigatória.

Pesquisa sorológica realizada em Paquetá (Foto: Divulgação/Morena)

Estudo será importante para o Rio e Brasil

Para Eduardo Soranz,  o estudo será importante não apenas para o Rio de Janeiro, mas para o país como um todo. Segundo ele, o estudo completo dura 12 meses, mas terá etapas com divulgação de resultados ao longo de todo o estudo. Também será divulgado um boletim epidemiológico.

“Paquetá foi escolhida por ter uma única unidade de saúde que pode monitorar os casos que podem acontecer ao longo do estudo”, explicou. “O cadastro da Saúde da Família de Paquetá é antigo e apurado. Algumas pessoas mudaram recentemente, não usavam a unidade, tem cadastro antigo e bem estável”.

A SMS informou que Paquetá tem uma população de 4.180 moradores, entre eles, 3.530 são maiores de 18 anos cadastrados na Estratégia Saúde da Família. Dados da secretaria indicam que até o dia 31 de maio, foram aplicadas 2.923 doses da vacina contra a covid-19 pelo calendário do município para os grupos prioritários, sendo 1.853 primeiras doses (D1) e 1.070 segundas doses (D2).

Para aqueles que têm casa no local ou passam temporada e não têm cadastro na unidade de saúde local, a associação de moradores poderá ajudar com informações. Se alguém tiver algum sintoma, será necessário investigar detalhadamente. Soranz ainda destacou que é preciso que todos se protejam, sem que haja exposição desnecessária ao vírus antes da imunização total. 

“Se não alcançar, que possa garantir proteção coletiva, não vamos poder caminhar para isso (evento-teste). Antecipar em Paquetá o que vai acontecer no resto da cidade. Fazer evento reservado de pessoas na filha, com controle de acesso, ao ar livre, para que possam participar sem máscara. Mesmo que exista uma pessoa infectada naquele ambiente, o fato de de um cinturão, não vai contaminar. Isso vai depender da adesão ao estudo, por isso não pode definir de largada como e quando será o evento-teste”, disse Soranz em live da Morena com moradores esta semana.

Outras ações futuras também dependerão dessa adesão, como reforços de segunda dose. Pessoas que receberam duas doses de Coronavc e não desenvolveram imunidade poderão receber uma terceira dose da Astrazeneca. “Vai depender do número de pessoas no estudo, se for muito pequeno, não conseguirá responder, pessoas que não responderam, que fizeram o esquema incompleto ou estão com o esquema atrasado (não tomaram ainda a segunda dose). Resposta principal é entender a reação da ilha para aplicar em outros locais”, disse o secretário.

A expectativa é que seja a primeira área do Rio de Janeiro livre da Covid-19, o que deve acontecer a partir de 14 dias, mas isso pode acontecer já na primeira dose. Vamos avaliar a curva de casos, para investigar qualquer aumento. A coleta de sangue é voluntária. O benefício é que tem o resultado de saber o resultado do exame, explicar as vantagens. Amostras de sangue ficarão no biobanco da Fiocruz, que vai processar exames. Nenhuma informação individual será divulgada, mas as pessoas.

“Não está descartado de avançar na vacinação abaixo de 18 anos. Se o PNI incluir de 12 a 18 anos, também vamos incluir”.

A intenção é avaliar os efeitos da imunização em larga escala na população local. Após a cobertura vacinal total da população-alvo, será feito, por um período ainda a ser definido, o monitoramento epidemiológico dos vacinados.

De acordo com a SMS, o projeto vai avaliar também a segurança do imunizante e como a vacinação em massa atua na proteção também das pessoas que não foram vacinadas, como é o caso das crianças e adolescentes. Será observado, também, se a primeira dose da vacina será capaz de evitar a transmissão dos casos na região ou se isso só acontece efetivamente após a aplicação da segunda dose.

Antes da vacinação no dia 20, os moradores passarão por exame de sangue sorológico, que será repetido ao longo da duração da pesquisa. Para facilitar o acesso dos moradores e evitar aglomerações, a vacina será aplicada, neste dia, em diversos pontos da ilha. “Apenas a população residente será vacinada na ação, conforme os cadastros da Estratégia Saúde da Família, sendo vetada a participação de turistas que tenham ido passar o domingo na ilha”, alertou a SMS.

Uma pesquisa semelhante foi desenvolvida na cidade de Serrana, no interior de São Paulo, que demonstrou efeitos positivos de uma campanha de vacinação em massa. “Após atingir o percentual de 75% da população vacinada, o município, de 45 mil habitantes, apresentou uma redução significativa na identificação de novos casos de covid-19 e óbitos relacionados à doença.

Localizada em meio à Baía de Guanabara, a cerca de 15km da estação das barcas na Praça XV, no Centro da cidade, Paquetá tem 1.253 residências e 170,57 hectares, segundo dados do Instituto Pereira Passos (IPP), coletados em 2010. O acesso à ilha é feito somente por barcas. A vacinação neste domingo 20 será acompanhada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga; pelo prefeito Eduardo Paes; pelo secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz; e pela presidente da Fiocruz, Nisia Trindade.

Fonte: www.vidaeacao.com.br/paqueta-pode-se-tornar-o-primeiro-territorio-livre-da-covid-no-rio