Flávio Bolsonaro abrigou em seu gabinete ex-diretor da Caixa demitido por assédio sexual

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) manteve em seu gabinete, por cerca de cinco meses, o ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal Celso Leonardo Barbosa, demitido do banco público em 2022 após denúncias de assédio sexual. O assessor parlamentar recebia R$ 20,7 mil mensais e foi exonerado somente depois que a Folha de S.Paulo questionou o gabinete sobre sua permanência na equipe. O histórico de Celso Leonardo era público: ele firmou acordo de não persecução penal assumindo culpa pelo assédio e ainda responde a processo do Ministério Público Federal por falsidade ideológica.

A exoneração

O desligamento de Celso Leonardo Barbosa do gabinete de Flávio Bolsonaro foi confirmado pelo próprio senador após a reportagem da Folha de S.Paulo revelar o histórico do servidor. Segundo o gabinete, a exoneração foi “imediata” após a análise dos fatos trazidos pela imprensa. O ex-assessor ocupava o cargo desde junho de 2025 e recebia R$ 20,7 mil mensais como assessor parlamentar do pré-candidato do PL à Presidência da República.

A cronologia é reveladora por si mesma: o histórico de Celso Leonardo não era segredo. Sua demissão da Caixa em 2022, o acordo de não persecução penal e as reportagens do “Fantástico” sobre o caso eram informações de domínio público. A exoneração só ocorreu quando a imprensa bateu à porta, o que coloca em xeque a narrativa de que o gabinete simplesmente desconhecia o passado do servidor.

O histórico do assessor

Celso Leonardo Barbosa foi demitido da Caixa Econômica Federal em 2022 após uma funcionária relatar que havia sido assediada por ele durante uma viagem do programa Caixa Mais Brasil, em Goiás. O caso resultou em acordo de não persecução penal com a Justiça, no qual o ex-dirigente assumiu a culpa pelo assédio e cumpriu prestação de serviços comunitários, segundo apuração da Folha de S.Paulo. No mesmo ano, uma servidora o acusou, em entrevista ao “Fantástico”, de ter acobertado abusos praticados pelo então presidente da Caixa, Pedro Guimarães.

O histórico judicial de Celso Leonardo não se limita ao caso de assédio. Ele é réu em processo movido pelo Ministério Público Federal sob acusação de falsidade ideológica: segundo a denúncia, teria inserido informações inverídicas nos documentos necessários para sua indicação ao cargo de vice-presidente da Caixa, posto que ocupou durante a gestão Guimarães no governo Jair Bolsonaro. Homem de confiança do ex-presidente do banco, Celso Leonardo deixou a instituição pouco depois do chefe, que também saiu após acusações de assédio. O conjunto de pendências judiciais era, portanto, rastreável por qualquer processo mínimo de checagem de antecedentes.

A justificativa do gabinete

Confrontado pela reportagem, Flávio Bolsonaro afirmou que o assessor “omitiu da chefia imediata pendências judiciais relevantes” e que, além disso, “infringiu de forma grave as normas do Senado Federal ao exercer atividades particulares durante o horário de expediente”. Em nota, o senador declarou que “as informações reveladas pela reportagem são extremamente graves e incompatíveis com a conduta exigida de qualquer integrante da equipe parlamentar” e que o gabinete “não compactua com qualquer desvio de conduta, abuso de confiança ou descumprimento das obrigações funcionais”.

A explicação, porém, transfere inteiramente a responsabilidade ao servidor demitido. O gabinete não esclareceu se realiza checagem prévia de antecedentes criminais ou consulta a certidões antes de nomear assessores, nem explicou por que critérios Celso Leonardo foi contratado em junho de 2025. A versão de que tudo dependia de uma autodeclaração do próprio assessor é, no mínimo, uma admissão de que o processo seletivo do gabinete de um pré-candidato à presidência da República não contempla verificação básica de histórico judicial de seus integrantes.

Consequências e reações

A demissão do cargo público não encerrou os desdobramentos para Celso Leonardo. A Fundação Dom Cabral, instituição de ensino privada onde ele atuava como professor convidado, informou que está reavaliando sua participação na instituição. A revisão ocorre em meio à revelação de que o ex-assessor realizava palestras e cursos em dias úteis, em horários que coincidiam com o expediente no Senado, o que configura violação das normas da Casa, segundo o próprio gabinete de Flávio Bolsonaro.

Outro detalhe expõe a postura do ex-assessor diante de seu vínculo público: em suas redes sociais e em sua página pessoal na internet, Celso Leonardo omitia completamente a função no gabinete do senador, apresentando-se apenas como “professor, palestrante, mentor, autor, investidor anjo e especialista em gestão, estratégia, inovação, IA e empreendedorismo”. Também não havia menção à sua passagem pela Caixa Econômica Federal. A dupla omissão, do cargo público para o mundo privado e do histórico judicial para o gabinete, compõe o retrato de um servidor que operava em dois registros simultâneos, enquanto o gabinete do senador afirmava não saber de nada.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-bolsonaro-assessor-caixa-assedio/