Ciro Nogueira reapresenta “emenda Master” na tentativa de se descolar de Vorcaro, de quem teria recebido propina

Cinco dias depois de virar alvo da Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) reapresentou no Senado o projeto que amplia de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em caso de quebra de instituições financeiras. A mesma proposta ficou conhecida nos bastidores como “emenda Master” após ser citada pela PF em na investigação que aponta que o parlamentar teria recebido vantagens indevidas, pagamentos mensais e outros benefícios como propina de pessoas ligadas ao Banco Master.

O movimento de Ciro Nogueira, cotado para ser candidato a vice de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ocorre em um momento em que o senador tenta se descolar de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master. Segundo a PF, mensagens e documentos apreendidos indicam que a versão anterior da emenda teria sido elaborada dentro do banco, encaminhada ao parlamentar e depois apresentada por ele no Senado. A defesa de Ciro nega irregularidades e afirma que sua atuação parlamentar seguiu critérios técnicos.

A nova versão do projeto, apresentada nesta terça-feira (12), tenta reposicionar a proposta como uma medida de proteção aos correntistas. Mas a reapresentação também funciona como gesto político: Ciro tenta fazer crer que a ampliação do FGC não teria relação com o Banco Master, apesar de a investigação apontar que ele teria sido bancado por Vorcaro justamente no contexto em que a emenda tramitava.

O que Ciro Nogueira diz para tentar se afastar do Master

Em vídeo publicado nas redes sociais, Ciro Nogueira afirmou que decidiu reapresentar o projeto porque o valor atual do FGC estaria defasado diante da inflação e da taxa Selic acumulada desde 2013, quando o teto de cobertura foi fixado em R$ 250 mil.

“Agora não existe mais Banco Master [que foi liquidado]. Eu quero ver qual a desculpa que os grandes bancos vão usar pra negar esta proteção aos correntistas brasileiros”, declarou o senador.

A frase sintetiza a nova linha de defesa política de Ciro: se o Master já foi liquidado, a proposta não poderia mais beneficiar o banco. O problema é que essa explicação não responde ao ponto central da investigação. A PF apura se a primeira versão da emenda foi produzida pela assessoria do Banco Master, entregue ao senador e apresentada no Congresso como se fosse uma iniciativa parlamentar comum.

Ciro também voltou a atacar a investigação e disse ser vítima de perseguição política. Em outra declaração, classificou a apuração como um “roteiro absurdo de ficção”.

“Não é a primeira vez que sou vítima de ataques em ano eleitoral. Mas essa tática não funcionou em 2018 e não vai funcionar agora”, afirmou.

O que diz a investigação da PF

Na decisão que autorizou a quinta fase da Operação Compliance Zero, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), registrou que a Polícia Federal aponta Ciro como “destinatário central” de supostas vantagens indevidas e como agente público que, em tese, teria instrumentalizado o mandato parlamentar em favor de interesses privados de Daniel Vorcaro.

Segundo trecho da decisão de Mendonça, ao relatar a representação da PF, “o texto da emenda foi elaborado pela assessoria do Banco Master, encaminhado por André Kruschewsky Lima a Daniel Vorcaro, impresso e entregue em envelope endereçado a ‘Ciro’, no endereço residencial do senador”.

Ainda de acordo com a decisão, a Polícia Federal afirma que o texto apresentado por Ciro ao Senado como Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023 reproduziu “de forma integral” a versão previamente preparada pela assessoria do Banco Master.

A emenda foi apresentada em 13 de agosto de 2024, dentro da PEC que tratava do regime jurídico do Banco Central. Pelas mensagens citadas na investigação, Daniel Vorcaro teria comemorado a apresentação da proposta e dito que ela “saiu exatamente como mandei”.

Também segundo os investigadores, interlocutores do banco registraram que a medida poderia “sextuplicar” o negócio do Master e provocar uma “hecatombe” no mercado. Em outra mensagem atribuída a Vorcaro, a proposta foi descrita como “uma bomba atômica para mercado financeiro”, pois ajudaria bancos médios e reduziria o poder dos grandes bancos.

A “mesada” — ou propina – de Vorcaro a Ciro Nogueira

A investigação não se limita à emenda. A decisão de Mendonça dá conta de que a PF aponta supostos pagamentos mensais a Ciro Nogueira da ordem de R$ 300 mil ou mais, com relatos de que o valor teria chegado a R$ 500 mil.

Os investigadores também citam uma série de benefícios que, segundo a apuração, teriam sido oferecidos ao senador ou a pessoas ligadas a ele. Entre eles estão aquisição de participação societária com deságio expressivo, uso de imóvel de alto padrão, custeio de viagens internacionais, hospedagens, restaurantes, voos privados e possível recebimento de dinheiro em espécie.

Esse conjunto de elementos é o que torna frágil a tentativa de Ciro Nogueira de apresentar a nova proposta como se ela estivesse completamente dissociada do Banco Master. Para a PF, a emenda aparece dentro de uma relação mais ampla entre o parlamentar e Daniel Vorcaro, marcada por supostas vantagens indevidas e atuação política em favor de interesses privados.

Como funciona a nova proposta

O projeto reapresentado por Ciro altera a legislação para incluir regras gerais sobre o funcionamento do FGC e elevar formalmente o teto individual da garantia para R$ 1 milhão.

Hoje, o Fundo Garantidor de Créditos protege até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição ou conglomerado financeiro, respeitado o limite global de R$ 1 milhão a cada quatro anos. O FGC é uma entidade privada, sem fins lucrativos, mantida pelas próprias instituições financeiras associadas.

Na justificativa, Ciro afirma que o limite atual está defasado por permanecer congelado desde 2013. O senador argumenta que a simples correção do valor original pela inflação oficial, medida pelo IPCA, já exigiria praticamente o dobro do teto atual. Pela Selic, segundo ele, a atualização elevaria a proteção para cerca de R$ 850 mil.

O texto também prevê que o limite de cobertura seja revisado obrigatoriamente a cada quatro anos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Ciro sustenta que o objetivo é “restaurar a proteção real do depositante”, “preservar a higidez do Fundo” e fortalecer a confiança no sistema financeiro nacional.

Operação aumentou pressão sobre Ciro Nogueira

A quinta fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada pela Polícia Federal na quinta-feira (7), com mandados em Piauí, São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal. A decisão judicial também autorizou o bloqueio de bens, direitos e valores estimados em R$ 18,85 milhões.

A PF apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Mendonça também impôs medida cautelar para proibir Ciro de manter contato com outros investigados na operação.

A operação atingiu em cheio Ciro Nogueira, um dos principais líderes do Centrão, presidente nacional do PP e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro. O desgaste também provocou desconforto no campo bolsonarista, já que Ciro chegou a ser cogitado como vice em uma eventual chapa presidencial liderada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Após a ofensiva da PF, o senador trocou sua defesa e contratou o criminalista Conrado Gontijo, no lugar Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, para atuar no caso Master.

A reapresentação da emenda, portanto, não encerra a suspeita. Ao contrário: reforça a tentativa de Ciro Nogueira de disputar a narrativa pública sobre uma proposta que, para a PF, nasceu dentro do Banco Master, foi levada ao senador e teria sido apresentada no Congresso em meio a uma relação marcada por suposta propina, benefícios e atuação política sob medida para os interesses de Daniel Vorcaro.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/ciro-nogueira-reapresenta-emenda-master/