Dona Maria: perfil sai do ar no TikTok, mas bolsonarista desafia TSE e promete criar outros

Dona Maria, perfil bolsonarista feito com inteligência artificial para atacar Lula, saiu do ar no TikTok, mas reapareceu em uma nova conta com uma mensagem direta de desafio à moderação: “Vão derrubar uma conta, mas criarei outras na mesma hora”. O movimento ocorre enquanto a ação movida pela federação PT, PV e PCdoB contra o avatar tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e foi distribuída à ministra Estela Aranha, especialista em inteligência artificial e direitos digitais.

O perfil original derrubado, @dn.marias, somava 261,1 mil seguidores e 2,1 milhões de curtidas. Ao acessar a página, o TikTok passou a exibir o aviso de “conta banida”. Em publicação no Instagram, onde a personagem acumula mais de 726 mil seguidores, o responsável pela operação tratou a queda como perseguição: “Contra o sistema? Banimento na certa. Minha conta caiu. O motivo vocês imaginam”.

Na sequência, a conta dnmarias2.0 (@dn.mariass) surgiu no TikTok. A bio afirmava que “uma opinião não deveria ser considerada crime”, evidenciando a tentativa de manter a operação ativa mesmo após a penalidade da plataforma.

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O teste de fogo para o TSE e Estela Aranha

O processo (0600707-02.2026.6.00.0000) foi distribuído à ministra Estela Aranha em 22 de abril e trata de propaganda eleitoral antecipada e uso irregular de inteligência artificial. O pedido de liminar mira as contas da “Dona Maria” no Instagram, Facebook, YouTube, X e TikTok.

A decisão deve funcionar como uma das primeiras balizas práticas do TSE sobre as novas regras para conteúdo sintético nas eleições de 2026. O tribunal já afirmou que o combate à desinformação é prioridade, mas o caso traz um problema estrutural à tona: como impedir que uma máquina de propaganda removida volte ao ar imediatamente com outro nome, burlando os filtros.

Perfil dona maria

A brecha de moderação: cópia e resistência

A atual legislação eleitoral foca em conteúdos que reproduzam material já retirado do ar pela Justiça Eleitoral. O objetivo é evitar que repostagens e pequenas alterações burlem decisões judiciais.

No caso da “Dona Maria”, a recriação foi um método anunciado. A Federação Brasil da Esperança pede a suspensão imediata dos perfis antes do julgamento final, argumentando que a demora permite a proliferação desenfreada de conteúdo político sintético sem identificação adequada, alcançando mais de 1 milhão de pessoas diretamente nas redes.

Mentiras, monetização e o disfarce sintético

A representação sustenta que a personagem não é uma conta comum de opinião, mas uma operação orquestrada de aparência realista — uma mulher negra e idosa — usada para difamar autoridades, o PT, ministros do STF e impulsionar o bolsonarismo. Embora um vídeo fixado informe o uso de IA, as demais publicações circulam sem o rótulo obrigatório, enganando o público que consome o material em cortes e grupos de WhatsApp.

O documento reúne publicações consideradas falsas ou descontextualizadas sobre o Pix, reforma tributária, IBGE e urnas eletrônicas. Além do impacto eleitoral, o modelo econômico está sob escrutínio: o dono do perfil já afirmou receber propostas de casas de apostas para monetizar a audiência e usa o avatar para vender cursos de IA e automação para o Instagram.

Para os partidos autores da ação, a operação é um modelo de negócios altamente replicável: criar um avatar, produzir ataques em massa, explorar a polêmica e transformar engajamento desinformativo em dinheiro.

A Resolução 23.610 do TSE, atualizada pela Resolução 23.755 de 2026, exige marcação explícita de IA em materiais eleitorais. Agora, caberá a Estela Aranha definir se a Justiça Eleitoral tratará essas contas como perfis de opinião ou como milícias digitais sintéticas, moldando a jurisprudência para as próximas eleições.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/dona-maria-tiktok-tse-ia/