Eduardo Bolsonaro publicou um vídeo em tom exaltado para “exigir retratação” após a repercussão de sua fala sobre Pix e Zelle. Mas a tentativa de controle de danos abriu outra frente de desgaste.
Ao negar que tenha sugerido a troca do sistema brasileiro pelo modelo usado nos Estados Unidos, ele repetiu uma falsidade já desmontada pela Fórum: a de que o Pix teria sido criado por Jair Bolsonaro.
Na gravação, Eduardo acusa O Globo e outros veículos de atribuírem a ele uma defesa que, segundo diz, nunca fez. O vídeo mistura ataque à imprensa, crítica a Lula, tarifaço de Donald Trump e uma tentativa de apresentar o bolsonarismo como defensor do Pix.
“Eu exijo uma retratação. Saiu no Globo e foi replicado por vários outros veículos de comunicação. Eu absolutamente jamais disse isso. Eu desafio o Globo a calar minha boca e mostrar um vídeo onde eu tenha dito, porventura, algo nesse sentido”, afirmou.
O problema para Eduardo não está apenas na palavra “troca”. Está no contexto.
Como a Fórum mostrou na reportagem sobre a fala em que ele defendeu levar o Zelle à negociação com os Estados Unidos, o filho de Jair Bolsonaro comparou o Pix ao sistema norte-americano no momento em que Washington pressiona o Brasil justamente por causa da força do pagamento instantâneo brasileiro.
Eduardo Bolsonaro nega, mas comparou Pix e Zelle
A fala que provocou a reação não surgiu do nada. Eduardo disse que os Estados Unidos têm mecanismos “muito semelhantes” ao Pix e citou o Zelle como exemplo.
Em seguida, afirmou que esse ponto poderia entrar na mesa de negociação com os americanos.
“Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como o Zelle. O Pix dos EUA é o Zelle. Então dá para ir para a mesa de negociação com os americanos com bons argumentos”, disse Eduardo Bolsonaro.
É essa frase que Eduardo tenta esvaziar no vídeo. Ele não precisa ter dito literalmente “vou acabar com o Pix” para que a fala tenha peso político.
Ao apresentar o Zelle como equivalente ao Pix e tratar o tema como argumento de negociação com os EUA, ele colocou um sistema público brasileiro no mesmo tabuleiro da ofensiva comercial de Trump.
A comparação também é enganosa. A Fórum explicou, na matéria sobre como funciona o Zelle e por que ele não é equivalente ao Pix, que o modelo norte-americano é uma rede privada vinculada a bancos dos EUA.
O Pix, ao contrário, é uma infraestrutura pública criada, regulada e operada pelo Banco Central do Brasil.
Eduardo Bolsonaro mente sobre a criação do Pix
No vídeo de reação, Eduardo tenta se blindar com a popularidade do sistema brasileiro. “O Pix é criado por Jair Messias Bolsonaro, sem taxa, e assim continuará sendo”, afirma.
A frase é falsa.
O Pix foi lançado em 2020, durante o governo Bolsonaro, mas não foi uma criação pessoal do ex-presidente. A origem do sistema está no Banco Central e em uma agenda técnica de modernização dos pagamentos.
A própria página oficial do Banco Central sobre o Pix define o sistema como o pagamento instantâneo brasileiro criado pela autoridade monetária.
A Fórum já detalhou essa história em duas frentes. Na reportagem sobre quem criou o Pix e qual foi o papel real de Bolsonaro, documentos mostram que o sistema foi gestado por políticas de inclusão financeira anteriores ao bolsonarismo.
Em outra apuração, a verdadeira história do Pix aparece como contribuição técnica de servidores públicos brasileiros, e não como obra de Jair Bolsonaro.
Ao repetir que “Bolsonaro criou o Pix”, Eduardo troca o debate. Em vez de responder por que tratou o Zelle como equivalente ao sistema brasileiro em uma negociação com os EUA, ele tenta capturar para o pai a paternidade de uma política pública que nasceu no Banco Central.
Vídeo ignora que o alvo de Trump é o Pix
Eduardo também acusa Lula de querer o tarifaço e de usar o conflito com os Estados Unidos como estratégia eleitoral. A acusação não responde ao ponto central.
O Pix virou alvo formal de Washington, e o bolsonarismo passou a ter de explicar por que seus aliados nos EUA atacam uma das ferramentas públicas mais usadas pelos brasileiros.
A Fórum vem mostrando esse movimento desde que o governo Trump investiu contra o Pix e ameaçou o Brasil com retaliação.
A ofensiva norte-americana mira o modelo público brasileiro sob o argumento de que ele prejudicaria empresas dos Estados Unidos no mercado de pagamentos digitais.
Por isso a fala de Eduardo não é uma discussão técnica isolada. Quando ele diz que o “Pix dos EUA é o Zelle” e que isso pode ser levado à negociação, reforça a lógica de Washington.
É a lógica de que o sistema público brasileiro deve ser tratado como problema comercial para empresas privadas norte-americanas.
Retratação não apaga a contradição
No fim do vídeo, Eduardo cita Globo, Metrópoles, Estado de Minas e O Tempo e acusa a imprensa de “patifaria” para ajudar Lula.
A ofensiva verbal, porém, não corrige a contradição do próprio discurso.
Primeiro, Eduardo comparou o Pix ao Zelle e defendeu levar o tema à mesa com os EUA. Depois, diante da repercussão, passou a dizer que sempre foi “pró-Pix”.
Para sustentar a guinada, recorreu a outra falsidade: a de que Jair Bolsonaro teria criado o sistema.
O vídeo que deveria encerrar a crise acabou reforçando o problema.
Eduardo Bolsonaro nega a troca do Pix por Zelle, mas mantém de pé os dois pontos centrais da polêmica: tratou um sistema público brasileiro como assunto negociável com Trump e tentou atribuir a Jair Bolsonaro uma criação que é do Banco Central.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/eduardo-bolsonaro-pix-zelle/


