Estudo dos EUA destaca avanços econômicos históricos do governo Lula que estão sob ameaça de Flávio Bolsonaro

Um estudo feito pelo Centro de Pesquisa Econômica e Política, dos Estados Unidos, divulgado nesta quinta-feira (1°), destaca os avanços sociais e econômicos históricos do terceiro mandato do presidente Lula (PT) que reverteram um período de estagnação do governo de Jair Bolsonaro (PL), e que agora estão sob ameaça de seu filho, o candidato Flávio Bolsonaro (PL).

A pesquisa destaca, por exemplo, as menores taxas de desemprego e de pobreza da série histórica alcançadas por políticas implementadas por Lula. A pesquisa reúne uma série de dados para destacar como o Brasil, vindo de um período de alta do desemprego, volta da fome, congelamento do aumento real do salário mínimo do governo Bolsonaro, registrou crescimento econômico acelerado nos três primeiros anos do governo Lula. 

Nesse contexto, o estudo alerta como as propostas “profundamente diferentes” de Lula e Flávio Bolsonaro para as políticas monetária e fiscal afetam esse cenário de crescimento econômico. Os pesquisadores destacam que o comprometimento de Flávio em restabelecer um limite rigoroso para os gastos públicos, adotado anteriormente durante o governo Temer, deve implicar em cortes significativos em outras áreas do gasto público, como os gastos sociais e o investimento público. Enquanto isso, Lula “tem concentrado seus esforços na ampliação das receitas, inclusive por meio da implementação da reforma tributária nacional aprovada em 2023 e da proposta de tributação dos brasileiros mais ricos”, destaca o estudo. 

A pesquisadora e coautora do estudo, Paola Jaimes Santamaria, afirma que o estudo oferece um “contexto fundamental para compreender as próximas eleições no Brasil”. Ela destaca as diferenças entre as propostas de Lula e Flávio “podem ter consequências particularmente relevantes para os brasileiros de menor renda, que registraram ganhos substanciais em emprego, salários e proteção social ao longo dos últimos quatro anos, mas que também foram especialmente afetados pelas altas taxas de juros e pelo crescente comprometimento da renda com o serviço da dívida das famílias”.

Crescimento econômico apesar da ‘herança Bolsonaro’

O estudo destaca que quando Lula assumiu para iniciar seu terceiro mandato presidencial, o Brasil sofria os efeitos da herança do governo Bolsonaro: vários anos de baixo crescimento econômico, impactos da pandemia de COVID-19 e uma deterioração significativa das condições de vida das famílias. No entanto, durante os três primeiros anos do novo governo, o país registrou avanços econômicos e sociais expressivos. 

Os pesquisadores destacam o crescimento de 3,2% do produto interno bruto (PIB) em 2023 e de 3,4% em 2024. Nos anos imediatamente anteriores à pandemia, o PIB havia crescido 1,8% em 2018 e 1,2% em 2019. O estudo ainda traz uma comparação com países sul-americanos: entre 2023 e 2025, o PIB real acumulou crescimento de 9,2%, em comparação com uma média de 7% observada na Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Paraguai e Uruguai.

Emprego e valorização do salário mínimo

Os principais destaques do estudo são a retomada da valorização do salário mínimo, que cresceu acima da inflação em todos os três anos do governo Lula e as menores taxa de desemprego e de pobreza e extrema pobreza da série histórica. Apesar do governo Bolsonaro ter decretado reajustes do salário mínimo até janeiro de 2023, eles estavam indexados apenas à inflação, e não ao crescimento do PIB. Quando assume o governo, Lula corrige esse aumento. 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), citados pelo estudo, o salário mínimo real passou de R$ 1.409 (US$ 258) em 2022 para R$ 1.588 (US$ 291) no segundo trimestre de 2026, o que representa um aumento de 12,7% e reverte um longo período de estagnação observado nos anos anteriores. Os rendimentos médios reais do trabalho aumentaram de cerca de R$ 3.310 (US$ 631) no último trimestre de 2022 para R$ 3.738 (US$ 729) no segundo trimestre de 2026. Entre os jovens brasileiros de 18 a 24 anos, isso representou um aumento real dos rendimentos de 12,7%.

Taxa de desemprego cai ao menor nível da série histórica

Os pesquisadores afirmam que embora algumas das políticas trabalhistas mais recentes do governo Lula possam levar tempo para produzir resultados, “a economia brasileira registrou avanços importantes durante o terceiro mandato de Lula, incluindo uma expressiva redução do desemprego”.

Dados do IBGE mostram que a taxa de desemprego caiu para 5,4% no segundo trimestre de 2026, o menor nível de toda a série histórica, em comparação com 9,3% no segundo trimestre de 2022. . Entre os jovens de 18 a 24 anos, a taxa de desemprego recuou de 19,4% para 11,7% no mesmo período. No total, o número de pessoas ocupadas aumentou de aproximadamente 97,5 milhões para cerca de 103 milhões entre 2022 e 2026.

Conjuntamente, o aumento do emprego e dos rendimentos reais gerou um crescimento substancial da renda agregada do trabalho. A renda real mensal total do trabalho cresceu 19,7% entre os últimos trimestres de 2022 e 2025 — mais que o dobro do aumento de 8,7% registrado no intervalo de três anos entre 2016 e 2019. 

Pobreza cai ao menor nível histórico e Brasil fora do Mapa da Fome

O estudo destaca que o aumento da renda foi acompanhado por avanços sociais significativos. A taxa de pobreza, por exemplo, caiu de 31,6% em 2022 para 23,1% em 2024, outro mínimo histórico. Somente entre 2023 e 2024, essa redução representou 8,6 milhões de pessoas que ultrapassaram a linha da pobreza. A taxa de extrema pobreza caiu de 5,9% para 3,5% nesse período, com aproximadamente 1,9 milhão de pessoas deixando essa condição entre 2023 e 2024. Dados oficiais comparáveis sobre pobreza para 2025 não estarão disponíveis antes de dezembro de 2026. 

O estudo também destaca como a série de melhorias do governo Lula para expandir o emprego e o rendimento real das famílias contribuiu para que o Brasil saísse, novamente, do Mapa da Fome da ONU em 2025, para onde voltou durante o governo Bolsonaro.

Consumo e endividamento das famílias

O estudo também analisa o avanço do consumo das famílias, que registrou crescimento de 3,2% em 2023 e acelerou para 5,1% em 2024., mas caiu em 2025. Os pesquisadores trazem o contraste entre esse avanço e o endividamento, que teve como causa a política monetária contracionista do Banco Central. Apesar do consumo das famílias ter sido um dos principais motores do crescimento econômico, contribuindo com aproximadamente 2 pontos percentuais para o crescimento do PIB em 2023 e 3,2 pontos percentuais em 2024, esse cenário mudou em 2025.

“Essa divergência entre o forte crescimento da renda do trabalho e a expansão muito mais modesta do consumo é importante para a compreensão do desempenho econômico do terceiro mandato de Lula da Silva. Os dados de crédito às famílias sugerem que as condições monetárias mais restritivas passaram a compensar, de forma crescente, os ganhos em emprego e salários, à medida que os custos mais elevados de financiamento e o comprometimento da renda com o serviço da dívida limitaram a capacidade de os aumentos de renda se traduzirem em gastos adicionais”, explica o estudo.

Os pesquisadores afirmam que a principal deterioração observada nas finanças das famílias ocorreu no custo do serviço da dívida, e não no nível de endividamento em si. O estudo destaca que o endividamento das famílias permaneceu próximo de 50% da renda disponível anual entre o final de 2022 e meados de 2026, enquanto o comprometimento da renda com o serviço da dívida aumentou de 25,8% da renda mensal em 2023 para 28,9% em junho de 2026. 

A pesquisa também destaca que o governo Lula respondeu a esse cenário por meio de programas de renegociação e refinanciamento de dívidas, como o Desenrola Brasil, que renegociou R$ 53,2 bilhões (US$ 10,1 bilhões) em dívidas de cerca de 15 milhões de devedores tomadores.

O estudo explica que as altas taxas de juros também elevaram os custos do serviço da dívida pública. O déficit primário caiu de 2,28% do PIB em 2023 para 0,43% em 2025, uma redução superior a 80%, enquanto as despesas com juros aumentaram mais de dois pontos percentuais do PIB e a dívida pública bruta continuou a crescer. Como aproximadamente metade da dívida pública federal é remunerada por taxas flutuantes, as alterações na taxa Selic, que é a taxa básica de juros definida pelo Banco Central, exercem um efeito particularmente direto sobre os gastos do governo com juros.

Por fim, as apostas esportivas, as chamadas “bets” – que foram proibidas pelo governo Lula na última semana devido ao prejuízo econômico e mental ao brasileiros – também foram apontadas como fatores que exerceram pressão significativa sobre as finanças das famílias. Estima-se que as famílias brasileiras tenham registrado uma perda líquida de R$ 62,5 bilhões (US$ 11,2 bilhões) com apostas on-line em 2025, enquanto cerca de 802 mil famílias beneficiárias do Bolsa Família destinaram mais de 2% de sua renda a apostas em janeiro de 2025.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/estudo-eua-avancos-lula-ameaca-flavio/