Flávio Bolsonaro: sócias de empresa contratada por R$ 1,5 mi têm elo com fundo em paraíso fiscal

Carolina Carmezin Beldi e Beatriz Carmezim Beldi, donas da Hanbellseg Serviços e Locações Ltda. , contratada por R$ 1,5 milhão pela campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, também integram uma companhia de Sorocaba com capital social de quase R$ 15 milhões cuja maior participação pertence a um fundo constituído nas Bahamas, um conhecido paraíso fiscal no Caribe.  A apuração é do Fórum Investiga, núcleo de jornalismo investigativo da Fórum.

A ligação entre as empresas ganhou uma nova dimensão em novembro de 2025. Em uma única alteração contratual, a Golden Atividades Imobiliárias Ltda. aumentou seu capital em R$ 3.417.858 com novas quotas subscritas pela Feyther Investment Fund Ltd., admitiu Beatriz e Mariana Carmezin Beldi como sócias e transferiu sua sede para a Rua Vicente Lamarca, 326 — o mesmo número onde estão registradas a Hanbellseg e a HB3 Serviços de Terceirização.

A Hanbellseg já recebeu R$ 500 mil do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), segundo a prestação parcial apresentada pela candidatura ao TSE no DivulgaCandContas. As proprietárias da fornecedora integram, portanto, uma sociedade cuja maior sócia é um fundo estrangeiro com CNPJ brasileiro suspenso desde 2021 e cujo beneficiário final não aparece nos registros obtidos pela Fórum. Não há indicação de que recursos da campanha tenham sido transferidos para a Golden ou para a Feyther.

Da campanha de Flávio à Golden: um ato muda sócias, endereço e capital

Antes da reorganização de 2025, a sexta alteração contratual identifica como sócios da Golden a Feyther Investment Fund Ltd., Carolina Carmezin Beldi e Antonio Fabio Beldi.

Antonio Fabio cedeu uma quota a Beatriz Carmezim Beldi e outra a Mariana Carmezin Beldi, admitindo as duas na sociedade. Beatriz é sócia de Carolina na Hanbellseg. Mariana é a única proprietária da HB3 Serviços de Terceirização Ltda., aberta em setembro daquele ano.

No mesmo ato, a Golden deixou a Rua Fernando Silva, 190, sala 702, e passou para a Rua Vicente Lamarca, 326, barracão parte A. A Hanbellseg está registrada na parte B e a HB3, na parte C. A mudança reuniu no mesmo número as três empresas e colocou Carolina, Beatriz e Mariana juntas no quadro societário da Golden.

Imagem do Street View de outubro de 2025, o nº 326 da Rua Vicente Lamarca aparece como um imóvel murado, com estrutura de galpão e sem identificação empresarial visível na fachada.

Feyther subscreveu R$ 3,4 milhões em novas quotas

A reorganização veio acompanhada de um aumento do capital social da Golden, que passou de R$ 11.556.301 para R$ 14.974.159.

A diferença, de R$ 3.417.858, corresponde a 3.417.858 novas quotas de R$ 1 cada. Todas foram “integralmente subscritas” pela Feyther Investment Fund Ltd., segundo o contrato arquivado na Junta Comercial do Estado de São Paulo (JUCESP).

Após a operação, a Feyther aparece com 9.388.000 das 14.974.159 quotas da Golden. O quadro societário do próprio contrato atribui ao fundo participação de 62,65%.

Antonio Fabio Beldi, empresário que também integra o quadro societário da Splice Indústria Comércio e Serviços, aparece com 5.586.156 quotas. Carolina, Beatriz e Mariana ficam com uma quota cada.

A Golden é administrada por Carolina e por Nelson Diniz da Costa. Nelson também representa a Feyther no ato societário brasileiro, no qual é qualificado como procurador do fundo.

Receita mantém CNPJ da Feyther suspenso desde 2021

A Feyther possui inscrição própria no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica brasileiro, sob o número 19.311.044/0001-60.

Comprovante oficial emitido pela Receita Federal em 23 de setembro de 2026 identifica a Feyther Investment Fund Ltd. como “empresa domiciliada no exterior” e registra seu CNPJ como suspenso desde 9 de outubro de 2021. O motivo informado é “inconsistência cadastral”.

Quatro anos depois dessa suspensão, em novembro de 2025, a Feyther aparece na alteração contratual da Golden subscrevendo R$ 3.417.858 em novas quotas.

O comprovante da Receita não informa qual inconsistência levou à suspensão. A situação cadastral e a posterior subscrição são, portanto, dois fatos registrados em momentos distintos.

Nas Bahamas, Feyther aparecia sob administração da Winterbotham

O contrato brasileiro da Golden identifica a Feyther Investment Fund Ltd. como um fundo constituído de acordo com as leis das Bahamas e informa como endereço Winterbotham Place, Marlborough and Queen Streets, em Nassau.

A Feyther também aparece nos registros do órgão regulador do país. Na relação oficial de fundos da Securities Commission of The Bahamas de 30 de setembro de 2020, figura sob a classificação SFM 004. A The Winterbotham Trust Company Limited aparece como administradora.

Na relação oficial de 31 de maio de 2026, a Feyther já não consta. A Winterbotham, por outro lado, continua aparecendo como administradora de diversos outros fundos naquele mesmo documento.

Os registros localizados pela reportagem não explicam quando ou por que a Feyther deixou de aparecer na relação da Securities Commission.

Na Flórida, fundo aparece com endereço nas Ilhas Virgens

A Feyther surge ainda em uma companhia constituída nos Estados Unidos.

A Golden Florida Real Estate LLC foi aberta na Flórida em 21 de maio de 2015, sob o número L15000090133, e permanece ativa no cadastro da Division of Corporations do estado.

A Feyther Investment Fund Ltd. figura como manager da companhia. No registro atual, o endereço atribuído ao fundo é Tortola Pier Park, Building 1, 2nd Floor, Wickhams Cay I, em Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas.

A própria Golden Florida passou a informar como endereço principal uma localização em Curitiba, no Paraná, após alteração registrada em 23 de abril de 2026.

O endereço de Tortola não demonstra, por si só, que a Feyther tenha transferido sua jurisdição das Bahamas para as Ilhas Virgens Britânicas. O cadastro da Flórida mostra o endereço utilizado pelo fundo naquela companhia.

Quem está por trás da Feyther?

Os registros obtidos até agora não revelam quem é o beneficiário final da Feyther Investment Fund Ltd.

Carolina, Beatriz, Mariana e Antonio Fabio Beldi não aparecem nos documentos analisados pela reportagem como beneficiários finais do fundo. Nelson Diniz da Costa aparece como procurador da Feyther no Brasil e administrador da Golden.

A existência de uma estrutura internacional, por si só, não representa irregularidade. O interesse público está na conexão societária entre as proprietárias de uma fornecedora que recebeu recursos públicos de campanha e uma companhia cuja maior participação pertence a um fundo estrangeiro cujo controle final não foi identificado nos registros consultados.

Também não há indicação de que os R$ 500 mil já pagos à Hanbellseg pela campanha de Flávio Bolsonaro, ou qualquer outro recurso eleitoral, tenham seguido para a Golden, para a Feyther, para a Golden Florida, para as Bahamas ou para as Ilhas Virgens Britânicas.

A Fórum enviou questionamentos sobre a Golden e a Feyther à contabilidade vinculada à empresa e pediu que a mensagem fosse encaminhada aos sócios e administradores. Até o fechamento, não houve resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-bolsonaro-fundo-paraiso-fiscal/