Lara Resende revela bastidores de polêmica sobre juros e faz denúncia

O economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, negou ter conversado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre sua proposta de mudanças na política de juros e afirmou que rumores sobre um encontro entre os dois foram espalhados para prejudicar a iniciativa. Em entrevista à BBC News Brasil nesta quinta-feira (5), ele sugeriu que a movimentação pode estar relacionada a disputas internas no governo.

“Eu não falei com o presidente Lula, não tenho nem tive contato com ele, assim como não tenho nada marcado”, afirmou.

O economista também descartou qualquer intenção de integrar o próximo governo. Segundo ele, a repercussão de seu projeto acabou sendo usada para atingir pessoas que apoiaram a proposta.

“Estão queimando alguém que defendeu essa proposta, uma briga interna dentro do governo na qual eu entrei como Judas no Pai Nosso”, declarou.

A discussão começou depois que a deputada Gleisi Hoffmann (PT) compartilhou, em 28 de outubro, um artigo publicado por Lara Resende em setembro. No texto, ele propõe a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para coordenar as políticas de juros e de gastos públicos.

A ideia ganhou repercussão em meio às especulações sobre a composição da equipe econômica do quarto mandato de Lula.

Críticas aos juros elevados

Lara Resende considera que o principal problema das contas públicas brasileiras está no custo dos juros da dívida, e não propriamente no volume de gastos do governo.

Para ele, a manutenção da Selic em níveis elevados favorece os detentores de títulos públicos e contribui para a concentração de renda.

O economista classificou esse mecanismo como “bolsa-rentista”, em referência aos recursos transferidos pelo Estado aos credores da dívida pública.

Sua proposta prevê a criação de um conselho responsável por estabelecer diretrizes econômicas de longo prazo, sem retirar do Banco Central a autonomia operacional.

Lara Resende também rejeitou a interpretação de que pretende impor uma redução artificial da Selic. Segundo ele, a possibilidade de levar os juros para cerca de 7,5% ao ano foi apresentada apenas como referência, sem prazo obrigatório.

A proposta precisaria ser aprovada pelo Congresso Nacional. O economista reconhece riscos na transição e defende que qualquer mudança seja acompanhada de planejamento fiscal e coordenação das expectativas do mercado.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/lara-resende-juros-denuncia/