Felício Ramuth abandona Kassab e expõe racha na base de Tarcísio

O vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth, deixou o PSD e se filiou ao MDB, em um movimento que aprofunda a crise entre Tarcísio de Freitas e Gilberto Kassab e movimenta o tabuleiro das direitas paulista para 2026. A troca de legenda retira do partido de Kassab da vice-presidência do projeto de reeleição do governador e reforça o MDB no núcleo político do Palácio dos Bandeirantes.

O gesto ocorre após semanas de atrito em torno da vaga de vice. Nos bastidores, o recado de Kassab a Tarcísio foi direto: se Felício fosse mantido na chapa, não teria mais legenda no PSD. A consequência foi a saída do vice-governador da sigla e sua migração para um partido mais alinhado ao desenho que o governador tenta preservar.

A movimentação também confirma que a disputa pela chapa paulista já deixou de ser apenas uma conversa interna. Ela passou a envolver o PSD de Kassab, o PL de Jair Bolsonaro e o entorno imediato de Tarcísio, todos de olho em espaço na eleição de 2026.

O vice-governador de SP, Felício Ramuth (à direita), ao lado do governador Tarcísio de Freitas (centro) e Gilberto Kassab – Foto: Redes sociais/Reprodução

Anotações de Flávio Bolsonaro já falavam em troca do vice

A pressão sobre a vice de Tarcísio não surgiu agora. Em fevereiro, a Fórum reproduziu a revelação de que anotações atribuídas a Flávio Bolsonaro já tratavam de uma “provável troca do vice de Tarcísio” em São Paulo. O registro mostrava que a composição da chapa paulista vinha sendo tratada como peça estratégica da disputa nacional da direita.

Dois dias depois, a Fórum mostrou que o PL passou a cobrar publicamente a vaga de vice. Na ocasião, Valdemar Costa Neto pressionou por um nome com a “marca da direita” e ainda ironizou o espaço do PSD de Kassab na chapa de Tarcísio.

Em março, a própria Fórum noticiou que, sem a vice, o PL teria de se contentar com um “prêmio de consolação”. Tarcísio, até ali, resistia a entregar a vaga e mantinha Felício como preferência. A ida de Ramuth para o MDB preserva esse desenho, mas ao custo de tornar público o racha com Kassab.

A fala de Kassab e a continuação da treta com Tarcísio

Publicamente, Kassab tentou manter o discurso de aliança. Em declaração dada nesta semana, afirmou que a definição partidária sobre Felício ficaria para depois de 4 de abril e reforçou o apoio do PSD à reeleição de Tarcísio. O presidente do partido também disse que a legenda estaria na “linha de frente” da campanha do governador.

“O importante é a questão maior, que é a mais relevante, que o PSD apoia o governador Tarcísio, por merecimento. Tem sido um excelente governador e é um privilégio para São Paulo ter o Tarcísio à frente do governo por mais quatro anos.”

Na superfície, a fala buscava esfriar a crise. No subsolo da política paulista, a mensagem era outra. O PSD seguiria com Tarcísio, mas não aceitaria manter Felício na vice sob sua própria legenda. A filiação ao MDB mostrou que o impasse não foi resolvido, mas contornado.

O episódio amplia uma sequência de ruídos entre Kassab e Tarcísio. A tensão já havia aparecido no embate sobre lealdade e submissão ao bolsonarismo, na pressão do PL por mais espaço e na disputa sobre quem controlará o eixo político da direita em São Paulo na eleição deste ano.

Fórum já revelou denúncias que pesam sobre Felício

A mudança partidária ocorre enquanto Ramuth já convive com desgaste político. Em 2024, a Fórum revelou que o vice de Tarcísio foi acusado de fraude em licitação, em caso ligado à sua trajetória política no interior paulista.

Mais recentemente, a revista mostrou que Ramuth passou a ser investigado por suspeita de lavagem de US$ 1,6 milhão em Andorra. Na sequência, a Fórum também registrou a reação de Tarcísio ao caso, quando o governador saiu em defesa do aliado.

Esse histórico dá outra dimensão à ida de Felício para o MDB. O vice não troca de legenda apenas por cálculo partidário. Ele muda de casa em meio a uma guerra pela vice, sob pressão bolsonarista e carregando denúncias já reproduzidas pela Fórum.

MDB ganha espaço e 2026 esquenta antes da campanha

Com Felício Ramuth fora do PSD e abrigado no MDB, Tarcísio preserva, ao menos por ora, o vice que quer manter ao seu lado. Kassab perde influência direta sobre a composição da chapa. E o PL vê frustrada, neste momento, a tentativa de ocupar a vice paulista.

O movimento fortalece o MDB no entorno do governador e deixa mais visível a fissura no centro-direita paulista. A base de Tarcísio continua formalmente ampla, mas já opera sob lógica de disputa aberta por espaço, protagonismo e herança política.

No discurso público, a mudança foi tratada como continuidade. No bastidor, ela tem outro nome: racha.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/ramuth-tarcisio-kassab-racha/