A vitória da esperança  – Revista Cult

 

A vitória de Lula não se trata apenas da reeleição de um presidente, mas da possibilidade de seguir disputando o Brasil que queremos ser: um país em que a democracia não seja apenas um ritual eleitoral, em que a política volte a fazer sentido na vida das pessoas e em que o futuro não seja um privilégio de poucos.

É emocionante assistir a essa vitória depois de uma campanha tão difícil. Uma disputa marcada pelo medo, pela desinformação, pela violência política e por uma extrema direita que soube transformar ressentimentos em identidade e a hostilidade em ferramenta de mobilização. Uma campanha em que não bastava apresentar propostas, era preciso convencer as pessoas de que ainda havia razões para acreditar na política, na democracia e na capacidade coletiva de transformar a realidade. A mobilização nas ruas e nas redes sociais teve papel importante nessa virada, mas não podemos perder de vista: uma eleição pode ser decidida em um domingo, mas a construção de uma força política capaz de transformar a sociedade exige trabalho todos os dias.

Essa minha reflexão parte do discurso da vitória de Lula pois, ao afirmar que pretende mudar a maneira de governar e ampliar a participação popular nas decisões, Lula reconheceu que a eleição também deixou aprendizados. Ao destacar o papel da comunicação digital, apontou para uma dimensão incontornável da política contemporânea. E, ao defender a regulamentação das plataformas, tocou em uma questão central para a democracia: não é possível aceitar que empresas privadas, com poder econômico e alcance transnacional, operem como se não tivessem responsabilidades sobre os efeitos políticos e sociais de suas estruturas.

As redes importam. Importam muito! É nesse espaço que narrativas são construídas, que disputas culturais acontecem, que mentiras circulam em velocidade industrial e que milhões de pessoas encontram informações, pertencimento e mobilização. A esquerda não pode abrir mão desse território, nem o tratar como um instrumento secundário de comunicação. Precisamos compreender seus códigos, disputar seus sentidos e enfrentar os modelos de negócio que transformam indignação, medo e misoginia em mercadorias rentáveis. Entretanto, existe algo que nenhuma estratégia digital pode substituir inteiramente: a presença, o olho no olho.

A disposição de entrar em um bairro, sentar à mesa de uma família, conversar na porta de uma escola, na fila do posto de saúde, no ponto de ônibus, no local de trabalho, isso ainda conta muito. A capacidade de ouvir uma mulher que está exausta porque trabalha fora e ainda carrega sozinha a responsabilidade pela casa, de escutar o trabalhador que não consegue fechar as contas no fim do mês, de conversar com a juventude que não encontra perspectivas e que, muitas vezes, só recebe da política promessas distantes de sua realidade.

É nesse encontro que a política deixa de ser apenas uma mensagem e se torna uma relação. Não se trata de opor as ruas às redes, como se precisássemos escolher entre uma e outra e sim de compreender que elas podem se fortalecer mutuamente. As redes ampliam o alcance, aceleram a circulação de ideias e ajudam a organizar pessoas e as ruas produzem vínculos, experiências compartilhadas e a percepção concreta de que não estamos sozinhos. Uma boa estratégia digital pode fazer uma mensagem chegar a milhões; uma conversa pode fazer alguém reconsiderar aquilo em que acreditava, uma mobilização nas redes pode convocar um ato; a experiência de estar ao lado de milhares de pessoas pode transformar a maneira como alguém compreende sua própria força. A questão não é abandonar o digital, é não permitir que a política se reduza a ele.

Precisamos reconstruir espaços permanentes de convivência, formação, organização e participação. Precisamos estar presentes onde a vida acontece, inclusive onde a esquerda deixou de estar, onde suas palavras perderam significado ou onde sua presença passou a ser percebida como distante. Não para chegar com respostas prontas, mas para recuperar a capacidade de construir respostas coletivamente.

A esquerda não pode querer apenas convencer o povo a votar nela. Precisa voltar a construir, com o povo, as razões para acreditar na política e essa tarefa passa necessariamente pelas mulheres. Não por acaso, a força das mulheres esteve presente no discurso da vitória. Lula reconheceu a contribuição delas para o resultado eleitoral, assim como destacou a mobilização da juventude. Essa lembrança importa porque as mulheres não são apenas uma parcela do eleitorado a ser conquistada, são sujeitos políticos fundamentais para a sustentação da democracia, para a organização das comunidades e para a construção de alternativas diante das desigualdades.

As mulheres estiveram nas ruas, nas redes, nas conversas familiares, nos locais de trabalho e nas mobilizações que ajudaram a virar votos. Muitas fizeram isso enquanto continuavam responsáveis por cuidar dos filhos, acompanhar os pais, administrar a casa, trabalhar e enfrentar as violências que atravessam suas vidas. Muitas fizeram campanha sem cargo, sem estrutura profissional, sem remuneração e sem qualquer garantia de reconhecimento. A política brasileira conhece bem a capacidade de mobilização das mulheres, mas nem sempre reconhece sua contribuição quando chega a hora de distribuir poder e definir prioridades.

Por isso, celebrar essa vitória também significa assumir um compromisso: as mulheres não podem ser lembradas apenas quando são necessárias para vencer eleições. Precisam estar no centro das decisões, da formulação das políticas públicas e da reorganização das forças democráticas. Isso exige ampliar sua participação nos espaços de poder, enfrentar a violência política de gênero, combater a misoginia e reconhecer que a autonomia das mulheres depende de condições materiais concretas para viver, trabalhar, cuidar, participar e decidir. Não há democracia substantiva quando metade da população precisa lutar continuamente para ser ouvida. Não há projeto popular consistente quando o trabalho de cuidado continua sendo tratado como obrigação privada das mulheres. E não há transformação social possível se as mulheres são convocadas para sustentar a mudança, mas continuam excluídas dos lugares em que ela é decidida.

Quero destacar também a juventude. Há tempos eu não via uma juventude tão mobilizada, tão disposta a ocupar os espaços públicos, a se organizar, a conversar e a defender um projeto de país. Vi jovens que não estavam apenas reproduzindo discursos nas redes sociais, mas transformando suas convicções em presença, seus medos em coragem e suas esperanças em ação coletiva. Jovens que compreenderam que o futuro não é algo que simplesmente acontece, mas algo que também se disputa e se constrói.

Em um tempo em que tanto se fala de uma geração individualista, desinteressada pela política ou capturada pelas telas, encontrar essa juventude nas ruas foi também um reencontro com a esperança. Não porque os jovens tenham a obrigação de salvar a democracia ou carregar sozinhos o peso da transformação social, mas porque sua presença nos lembra que a política ainda pode mobilizar, produzir pertencimento e despertar o desejo de construir algo em comum. As redes foram importantes para convocar, comunicar e organizar. Mas foi nas ruas que essa mobilização ganhou corpo, voz e rosto. Foi ali, no encontro entre pessoas que talvez nunca tivessem se conhecido, que a indignação pôde se transformar em ação coletiva. 

A vitória de Lula nos oferece a oportunidade de recolocar essas questões no centro do debate sobre o futuro do país. Então podemos afirmar que o Lula 4 já se depara com desafios. Vencer uma eleição não significa, automaticamente, vencer a disputa política e cultural que a tornou necessária. O resultado das urnas não elimina as desigualdades, não dissolve o neoconservadorismo e não encerra o conflito entre diferentes projetos de sociedade. A força eleitoral conquistada precisa se converter em capacidade de governar, mobilizar, transformar e produzir novos sentidos para a vida coletiva.

O próximo governo não pode se limitar à administração competente das instituições ou à preservação do que foi conquistado, precisa aprofundar um projeto de esquerda comprometido com o povo. Deve ser um governo capaz de continuar reduzindo as desigualdades, valorizar o trabalhador, ampliar direitos e fortalecer os serviços públicos.

Isso significa fortalecer o SUS como expressão concreta de um princípio fundamental: o direito à saúde e à vida digna não pode depender do quanto cada pessoa pode pagar, mas deve ser garantido a todas e todos como um compromisso do Estado com seu povo. Significa ampliar o acesso à educação, garantir condições dignas de trabalho, enfrentar a precarização, fortalecer a proteção social e tratar o cuidado como uma responsabilidade coletiva. Significa fazer com que o crescimento econômico chegue ao cotidiano de quem trabalha, que o salário permita viver com dignidade e que as políticas públicas alcancem justamente aqueles que mais precisam delas. Significa, também, compreender que não existe projeto popular sem participação popular.

Quando Lula afirma que pretende mudar o jeito de governar e fazer o povo participar mais das decisões, abre uma possibilidade que precisa ser levada a sério. Participação não pode ser apenas uma palavra bonita em discursos. Precisa se materializar em mecanismos de diálogo, espaços de decisão, fortalecimento dos movimentos sociais e capacidade de incorporar as demandas da sociedade à ação do Estado. E nada disso é novidade, sabemos fazer. Precisamos resgatar, reformular e reorganizar.

É preciso voltar a fazer política onde a vida acontece e nessas eleições percebemos que não perdemos essa capacidade. Formar novas lideranças, fortalecer organizações de base, aproximar sindicatos, movimentos populares, coletivos feministas, associações comunitárias e juventudes. Criar espaços em que as pessoas não sejam apenas destinatárias de mensagens, mas participantes de uma construção comum. Recuperar a capacidade de falar sobre o futuro sem perder a conexão com as urgências do presente.

O desafio é fazer com que a vitória eleitoral se transforme em força social organizada. Porque a democracia não se sustenta apenas com instituições funcionando, embora isso seja indispensável. Ela também depende de pessoas que reconheçam umas nas outras a possibilidade de construir algo em comum. Depende de laços, de solidariedade, de confiança e de experiências concretas de participação, da percepção de que a política pode melhorar a vida, mas também de que cada pessoa tem um lugar na construção dessa mudança.

Nós ganhamos em vários aspectos e não apenas impedimos que o país retrocedesse, mas recuperar a possibilidade de avançar. Não apenas derrotar um adversário nas urnas, mas reconstruir as condições para que a esperança se transforme em organização, e a organização, em transformação.

A emoção de hoje precisa encontrar continuidade amanhã, nas ruas, nos bairros, nas universidades, nos locais de trabalho, nas comunidades e nos espaços digitais. Na conversa com quem sempre esteve conosco, mas também com quem se afastou, duvidou ou passou a acreditar que a política não tem nada a oferecer. Na disposição de construir uma esquerda que não fale apenas sua própria língua, que não confunda presença digital com enraizamento social e que não trate o povo como espectador de um projeto que deveria lhe pertencer.

Ao pensar no Lula 4, penso menos em um governo que precisa apenas comunicar melhor suas realizações e mais em um projeto que precisa aprofundar suas raízes populares. Um governo à esquerda, pelo povo e com o povo. Capaz de transformar direitos em experiências concretas, políticas públicas em dignidade e participação em poder real.

Porque, no fim, a política não pode ser apenas a arte de vencer eleições, precisa ser a capacidade de construir uma vida melhor em comum. E nenhuma tecnologia substitui inteiramente o instante em que olhamos alguém nos olhos, ouvimos sua história e descobrimos que aquilo que parecia um problema individual também pode ser enfrentado coletivamente.

A vitória nos devolve a esperança, a organização nos dará continuidade e a presença nas ruas nos lembrará, todos os dias, por quem e para que vale a pena lutar.

(function(d, s, id) {
var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];
if (d.getElementById(id)) return;
js = d.createElement(s); js.id = id;
js.src = “//connect.facebook.net/pt_BR/sdk.js#xfbml=1&version=v2.7&appId=1200972863333578”;
fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);
}(document, ‘script’, ‘facebook-jssdk’));

Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/a-vitoria-da-esperanca/