Antes de ser imagem, era alma

Há livros que nascem para responder a uma questão. Outros, mais raros, nascem para recolocar a pergunta no lugar certo. O imaginário, a imagem, a voz, de Malena Segura Contrera, pertence ao segundo grupo. Em um tempo em que se discute, com ansiedade quase diária, se as imagens produzidas por inteligência artificial são verdadeiras ou falsas, a autora desloca o debate para uma camada anterior: antes de perguntar se uma imagem engana, seria preciso perguntar o que uma imagem é.

A pergunta, aparentemente simples, sustenta todo o percurso do livro. Publicado pela CZ Didakticka/CZ Publisher, em parceria com o Instituto do Imaginário, e inaugurando o Selo Hipátia, o volume de 124 páginas tem uma ambição que ultrapassa seu tamanho. Malena não escreve um manual sobre tecnologia, nem um libelo contra as máquinas. O que propõe é uma reflexão sobre a imagem como experiência psíquica, cultural e simbólica. A inteligência artificial aparece, nesse quadro, como sintoma contemporâneo de um processo mais longo: a perda da capacidade de imaginar em uma sociedade que nunca produziu tantas imagens como agora.

O livro se organiza em três movimentos: a imagem, o imaginário e a voz. A primeira parte estabelece a base teórica. Malena aproxima a Teoria da Imagem da chamada Escola de São Paulo com a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e James Hillman. É uma aproximação pouco frequente e bastante produtiva. De um lado, a comunicação acostumou-se a tratar a imagem como mídia, representação, signo, circulação. De outro, a psicologia acostumou-se a pensar a imagem como sonho, símbolo, vida interior. A autora defende que as duas dimensões precisam voltar a conversar.

Essa é, talvez, uma das virtudes centrais da obra: recusar a divisão confortável entre imagem externa e imagem interna. Para Malena, a cultura visual contemporânea não nos tornou mais íntimos das imagens; ao contrário, pode ter nos afastado delas. Estamos cercados por representações técnicas, mas empobrecidos em imagens interiores. Vemos muito, imaginamos pouco. O excesso, aqui, não produz abundância. Produz escassez.

A autora reconstrói uma espécie de história antropológica da imagem, passando pelo duplo arcaico, pela imagem de culto, pela representação estética e pelo simulacro. A imagem, nas culturas antigas, não era uma ilustração do mundo, mas uma presença. Podia guardar o duplo de alguém, participar da vida dos mortos, mediar a cura, tocar aquilo que não se deixava apreender diretamente. Com a modernidade, ela ganha moldura, museu, valor estético. Com a sociedade técnica, entra no regime do simulacro: passa a circular como aparência desprendida da experiência que a sustentaria.

É nesse ponto que o livro conversa com o presente de maneira mais aguda. Para boa parte do debate público, o problema da IA generativa está na possibilidade de fabricar imagens falsas. Malena vai além. A questão, para ela, não é apenas a falsidade, mas o vazio. Uma imagem tecnicamente perfeita pode ser uma imagem sem corpo, sem experiência, sem imaginação. Pode parecer convincente e, ainda assim, não carregar o peso simbólico que nasce do encontro entre corpo, memória, sonho, medo, desejo e mundo.

O argumento é exigente porque obriga o leitor a abandonar a noção corrente de imagem como algo que se vê. No livro, a imagem não pertence apenas ao olho. Há imagens olfativas, táteis, gustativas, sonoras, proprioceptivas. Um cheiro que devolve a infância, uma voz que faz o corpo estremecer, um sabor que traz uma pessoa ausente, tudo isso também participa da vida imaginativa. A redução da imagem ao visual, portanto, não é neutra: ela empobrece a experiência humana.

Esse deslocamento dá força ao diagnóstico de Malena sobre a cultura das telas. O problema não é apenas o tempo que se passa diante dos dispositivos, mas a forma de experiência que eles impõem. A tela privilegia a distância, a superfície, a aceleração, a substituição constante de uma imagem por outra. Falta contemplação. Falta demora. Falta corpo. A iconofagia, conceito de Baitello, aparece como uma chave importante: consumimos imagens que não saciam e, justamente por isso, exigem mais consumo. A imagem deixa de abrir mundo e passa a ocupar o lugar do mundo.

A segunda parte, dedicada ao imaginário, é a mais densa, e na qual Malena convoca Gilbert Durand, Henry Corbin e Edgar Morin para desfazer uma confusão muito frequente: imaginário não é fantasia privada, tampouco o oposto da realidade. Não existe, nesse sentido, “meu imaginário” como propriedade individual. Existe imaginação, isto é, a forma singular como cada sujeito coloca imagens em movimento. O imaginário, por sua vez, é coletivo, ambiental, uma esfera de imagens e sentidos na qual estamos imersos.

A presença de Corbin e do mundus imaginalis dá ao livro uma inflexão rara nos estudos de comunicação. A imagem não é tratada apenas como objeto material nem como conceito abstrato, mas como acontecimento em um plano intermediário entre o sensível e o inteligível. Pode soar difícil, e em alguns momentos é mesmo. Mas a dificuldade não é defeito; ela faz parte do gesto do livro. Malena parece pedir ao leitor que desacelere, que aceite uma zona de espessura conceitual, que não transforme toda ideia em legenda.

Há uma coragem nessa aposta. O livro não se curva à linguagem simplificada da atualidade, embora busque ser lido fora do círculo estritamente acadêmico. Sua escrita alterna explicação, ensaio e imagem poética. Em certas passagens, a autora se mostra mais professora; em outras, mais terapeuta; em outras ainda, alguém que pensa a partir de uma ferida civilizatória. Essa variação de voz dá ao texto uma qualidade pessoal sem retirar-lhe o rigor.

A terceira parte, dedicada à voz, muda o centro de gravidade. Depois de discutir a imagem e o imaginário, Malena passa a escutar. O movimento é bonito porque impede que o livro termine preso ao império do olhar. A voz aparece como corpo em vibração, como presença, como direito à existência. Não é mero veículo de mensagem. É um modo de tocar o outro sem tocá-lo. A autora lembra que a voz chega pela pele, que a escuta começa antes mesmo do nascimento, que há algo de insubstituível na singularidade vocal de cada pessoa.

Nesse trecho final, o livro se torna mais íntimo. A reflexão sobre Virginia Woolf e o direito feminino à voz abre uma dimensão autobiográfica discreta, mas decisiva. A voz que falta, a voz que é roubada, a voz que falha de vergonha ou grita para não sofrer sozinha: tudo isso faz da terceira parte uma espécie de contraponto afetivo às páginas mais teóricas. Depois de analisar o esvaziamento simbólico das imagens, Malena encontra na voz uma resistência possível à ausência de presença.

O risco de um livro assim é parecer apocalíptico. Em alguns momentos, a autora de fato trabalha no limite do diagnóstico severo. Sua crítica à sociedade das redes, à onipresença simulada, às vozes sintéticas e à robotização humana não busca conciliação fácil. Ainda assim, o livro não é uma recusa nostálgica da técnica, sua preocupação não é restaurar um passado idealizado, mas perguntar: o que se perde quando a mediação técnica substitui a experiência simbólica?

Há, nessa pergunta, uma contribuição importante para o debate contemporâneo. Enquanto boa parte da conversa sobre inteligência artificial permanece presa à eficiência, à autoria, ao direito autoral ou à verificação da falsidade, Malena introduz outro vocabulário: alma, corpo, símbolo, presença, imaginário. São palavras que a cultura tecnológica costuma tratar como inconvenientes ou vagas, talvez porque não se deixem medir com facilidade. Mas é justamente por isso que importam.

“O imaginário, a imagem, a voz” é um livro pequeno apenas na extensão. Seu alcance consiste em insistir que a imagem não começa na câmera, no software ou no prompt. Começa antes, no encontro entre o humano e aquilo que o excede. Começa no medo da morte, no sonho, no mito, no cheiro, na pele, na voz, na necessidade de transformar experiência em sentido. Quando esse processo se interrompe, restam imagens. Muitas imagens. Talvez até infinitas. Mas nem toda imagem, lembra Malena, imagina.

Ao fim, o leitor não sai com uma solução, e é melhor que seja assim. Sai com uma desconfiança mais refinada diante do visível. Sai com a impressão de que talvez o problema do nosso tempo não seja estarmos vendo demais, mas vendo de menos: vendo sem escutar, sem tocar, sem elaborar, sem deixar que a imagem nos atravesse. Em um mundo que aprendeu a fabricar aparências com velocidade industrial, Malena Segura Contrera escreve em defesa de algo mais lento, mais antigo e mais ameaçado: a capacidade humana de fazer alma.

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/antes-de-ser-imagem-era-alma/