Antes de falarmos sobre 2026, voltemos a 2016. Em menos de dois meses, o Brasil assistiu a um parto em três tempos. No domingo de 17 de abril, na votação do impeachment de Dilma Rousseff, um deputado do baixo clero dedicou o voto “à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”, e fechou: “pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos”. Ustra chefiara o DOI-Codi paulista, onde, segundo a Comissão Nacional da Verdade, ao menos 50 pessoas foram mortas ou desapareceram sob seu comando. Em 12 de maio, enquanto o Senado afastava a presidente, o mesmo deputado, que se dizia católico, era imerso no rio Jordão pelo Pastor Everaldo, presidente do PSC e pastor da Assembleia de Deus. Também em maio, no púlpito da Lagoinha, em Belo Horizonte, a futura ministra Damares Alves anunciava: “É o momento de a igreja ocupar a nação. […] É o momento de a igreja governar”.
Temos então, o porão, o rio e o púlpito. Costumamos ler essas cenas como o começo da ascensão de Jair Bolsonaro. Proponho lê-las ao avesso, pois elas registram o momento em que uma gestação longa encontrou o corpo capaz de lhe dar rosto. Contrariando a linearidade dos fatos, Bolsonaro não inventou o bolsonarismo; foi o bolsonarismo, ainda sem nome, que pariu Bolsonaro. Esse bolsonarismo anterior a sua personificação tem várias ascendências, mas a camada que o distingue de todas as direitas autoritárias que o país já conheceu chama-se fundamentalismo cristão.
Útero e molde
No latim, mātrix designava a fêmea prenhe e, depois, o útero, a fonte, a origem; nas línguas modernas, também o molde em que se funde uma peça. Uma matriz gera e dá forma. Da mesma família vem matrícula, o rol de nomes de uma corporação, e as igrejas brasileiras conhecem bem o poder de um rol de membros. Dizer que o fundamentalismo pariu o bolsonarismo não significa que o tenha feito sozinho. Não proponho uma genealogia linear nem uma causa única. Proponho identificar a matriz que tornou forças diferentes reconhecíveis umas às outras. Houve parteiras: a recessão de 2014 a 2016, a Lava Jato e seu antipetismo de toga, o desmanche dos partidos, o racismo e o militarismo nunca acertados com a memória, o ressentimento do brasileiro de classe média que foge da pobreza como o diabo da cruz, as plataformas que remuneram a raiva. Parteiras, porém, não geram, mas fazem nascer. A pergunta é o que deu a forças tão dispersas uma forma, uma léxico, um povo e uma promessa de salvação. A Bíblia que o Brasil evangélico sabe de cor guarda uma cena. Em Números 14, depois do relato de gigantes na terra prometida, o povo chora a noite inteira e propõe: “Levantemos um capitão e voltemos ao Egito”. Na tradução Almeida Revista e Corrigida, a patente é a mesma que as ruas gritariam em 2018. O hebraico é ainda mais visceral: nitnah rosh, “ponhamos uma cabeça”. O capitão não desce do céu; é instituído por uma assembleia com medo do futuro e saudade da servidão. A ordem é replicada no bolsonarismo: o medo produz a cabeça, e não o contrário.
O lema, o inimigo e a liga
A gestação, porém, é longa. Começa muito antes. Em 7 de outubro de 1932, Plínio Salgado lançou o Manifesto de Outubro e, com ele, a Ação Integralista Brasileira, inspirada no fascismo italiano e no integralismo português. Para o historiador Leandro Pereira Gonçalves, foi o primeiro movimento de massa do país. Seu lema: Deus, Pátria e Família. Três décadas depois, Plínio discursava na Marcha da Família com Deus pela Liberdade e apoiava o golpe de 1964; os integralistas se acomodaram na Arena. Em 2022, Gonçalves constatava que “Deus, Pátria e Família” era o slogan fascista mais repetido do governo Bolsonaro. A ditadura acrescentou o vocabulário da caserna. “Brasil acima de tudo” nasceu depois do AI-5, entre paraquedistas do grupo Centelha Nativista; seu manifesto de 1969, contra a “guerra interna revolucionária de comunistas”, terminava “em nome de Deus, Brasil acima de tudo”. Bolsonaro foi oficial paraquedista. Em 1969, Deus assinava o rodapé; em 2018, virou metade do slogan.
Mas se até aquele momento era o navio pirata era soprado por ventos religiosos católicos, o protestantismo também começa a modelar sua ditadura. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, boa parte das lideranças evangélicas se alinhou ao regime, e protestantes ecumênicos passaram a ser vistos como inimigos da nação. Rubem Alves, acusado nos tribunais da própria igreja de comunismo e desprezo pela doutrina, escolheu o autoexílio. O metodista Anivaldo Padilha foi denunciado por membros de sua comunidade e torturado. Em 1979, Rubem deu nome ao que vivera: um “protestantismo da reta doutrina”, em que pertencer exigia afirmar fórmulas “sem nenhuma sombra de dúvida”. Enquanto isso, o presbiteriano Jaime Wright trabalhava com dom Paulo Evaristo Arns no Brasil: Nunca Mais. A linha que atravessa o protestantismo brasileiro separa quem fez da dúvida um crime, a quem fez da memória, um dever.
Integralismo e ditadura forneceram o lema e o inimigo. Faltava-lhes capilaridade cotidiana e uma cosmologia capaz de converter eleição em guerra entre céu e inferno. A palavra fundamentalist surgiu em 1º de julho de 1920, no semanário batista The Watchman-Examiner: seu editor, Curtis Lee Laws, propôs o nome para quem estivesse disposto a travar “uma batalha campal pelos fundamentos”. Percebe-se que o termo já nasce armado e instrumentalizado. Não muito distinto do fenômeno brasileiro que dá nome a este elaborado menos de um século depois. Uso-o no sentido largo do Projeto Fundamentalismo, sintetizado por Gabriel Almond, R. Scott Appleby e Emmanuel Sivan em Strong Religion: um modo reativo, absolutista e abrangente de ativismo religioso contra o secular. Entre seus traços de família: reação à erosão da religião, dualismo maniqueísta, absolutismo da verdade revelada, expectativa messiânica, fronteiras rígidas entre eleitos e perdidos, liderança carismática autoritária. Leia a lista pensando num movimento político: é um retrato falado.
Ronaldo de Almeida descreveu a onda conservadora como “economicamente liberal, moralmente reguladora, securitariamente punitiva e socialmente intolerante”, e lembrou que nem todos os conservadores são evangélicos, nem todos os evangélicos são conservadores. Premissa importante para o pós eleição. Contudo, apontou uma diferença decisiva: o catolicismo tende a conservar a tradição; o evangelismo é mais proativo, transformador de comportamentos. O integralismo queria guardar uma ordem; a ditadura, impô-la pela força; o fundamentalismo, não. Ele quer conquistá-la, alma por alma. Os evangélicos eram cerca de 4% dos brasileiros em 1960; no Censo de 2022, 26,9%. Em 2018, estimou o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, Bolsonaro abriu entre eles mais de 11 milhões de votos de vantagem, mais que a diferença final de 10,76 milhões. O historiador Odilon Caldeira Neto chama o bolsonarismo de “mixórdia”, em que o fascismo de matriz integralista é um componente entre outros, e marca a diferença: o integralista dissolvia o indivíduo na nação; o bolsonarista celebra o ultraindivíduo empreendedor de si. Toda mixórdia precisa de liga. A do bolsonarismo foi a matriz evangélica fundamentalista, que vinha costurando havia décadas inerrância bíblica, guerra espiritual, teologia da prosperidade e apocalipse político: o crente que vence pelo próprio esforço agora e no juízo final, numa nação que pertence ao Kyrios – isto é, ao imperador humano, a YHWH ou a amálgama nefasta de ambos. Foi ela que reconciliou o self-made man e a pátria sagrada.
Quando o Político Religioso passa a Religioso Político
A tipologia do antropólogo Ari Pedro Oro ajuda a esclarecer essa diferença. Ele distingue o religioso político daquele que chama de político laico. No primeiro caso, a identidade religiosa vem antes da entrada na política: ela ajuda a construir sua imagem pública, funciona como capital eleitoral e continua sendo acionada explicitamente durante o mandato. No segundo, a fé pode até existir no plano pessoal, mas não ocupa lugar central na atuação política nem organiza publicamente o mandato. A gramática carrega a tese. No político religioso, o substantivo é político e a religião, adjetivo. No religioso político, o substantivo é religioso e a política vira adjetivo, isto é, instrumento. Completo com o político não religioso, para quem a fé não é substantivo nem adjetivo da vida pública. Bolsonaro, católico mergulhado no Jordão por um pastor que presidia partido, é o caso raro do político que pegou o adjetivo emprestado e passou a usá-lo como substantivo. O peruano José Luis Pérez Guadalupe nomeou a inversão que fecha o percurso: já não se usa a fé para fins políticos, e sim a política para fins religiosos.
A tipologia classifica pessoas, e aí está sua brecha mais fecunda, porque o fenômeno decisivo é institucional. O próprio Oro mostrou, em 2003, que desde 1997 a Igreja Universal adotara o modelo corporativo da “candidatura oficial”: recenseava os fiéis com seus dados eleitorais e calculava quantos candidatos lançar. O rol de membros virou um centro de cadastro eleitoral e a matrícula, voto. A Universal ressemantizou o próprio ato de votar, inscrevendo-o, na fórmula que Oro toma de Pablo Semán, “numa lógica cosmológica, na perspectiva da guerra santa”. Em 2002, os fiéis recebiam um cajado de papelão, e um bispo explicava em Porto Alegre: “vamos apertar os números na urna eletrônica com o nosso cajado e vamos abrir o mar do Evangelho, elegendo os homens de Deus”. Votar virou um ato de poder e exorcismo eleitoral. A virada tinha slogan desde 1986, quando Josué Sylvestre publicou Irmão vota em irmão. O voto passou a atestar a fé. Quarenta anos depois, ironicamente o mesmo tempo bíblico de uma geração no deserto, em 10 de outubro de 2026, o bispo Samuel Ferreira regeu o coro de “irmão vota em irmão” no Maracanãzinho, no centenário da Assembleia de Deus Ministério de Madureira: “Se eu pudesse pedir voto, eu pediria. […] Pediria voto para o Flávio”. É o próprio Flávio Bolsonaro quem faz a exegese: “O bispo não pediu, mas a igreja está pedindo”. Nessa frase, o sujeito da política deixa de ser o religioso político e passa a ser a igreja. O passo seguinte é governar. Damares não pedia apenas cadeiras: “As instituições piraram nesta nação. Mas há uma instituição que não pirou. […] É a igreja de Jesus”. E completava: “A escola não é mais lugar seguro”; “Só há um lugar seguro […] É o templo”. Eis aqui o mecanismo em sua inteireza: igreja fundamentalista não precisa abolir o Estado laico para governar a sociedade. Basta declarar falidas a escola, a universidade, a imprensa, o tribunal e a urna, e oferecer-se como a única instituição confiável. O congresso legisla projetos, a igreja legisla a própria verdade e certifica quem governa.
Michel Foucault mostrou, nas aulas de 1978 no Collège de France, que o pastorado cristão foi o prelúdio da governabilidade moderna: com o pastor, que conduz cada ovelha e o rebanho inteiro, o Ocidente aprendeu a governar condutas. O fundamentalismo brasileiro quer a herança de volta. O Estado aprendeu a governar com o pastor; agora o pastor quer governar com o Estado. Em 2019, num culto dentro da Câmara, Bolsonaro prometeu ao Supremo um ministro “terrivelmente evangélico”, e cumpriu. A teologia do domínio (ou dos sete montes), importada dos Estados Unidos, loteia a sociedade em territórios a conquistar. Magali do Nascimento Cunha vê no fundamentalismo a busca de um “Estado ético-religioso”, com “aspirações de supremacia e não de hegemonia”. Hegemonia se conquista convencendo; supremacia, prevalecendo. Bolsonaro disse em 2017, na Paraíba: “Não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra que se mude”. No discurso bolsonarista, pertencer à nação exige pertencer a uma fé. Esta é claro, sempre cristã. O povo desse modelo de populismo é recenseado no batistério.
O ventre ainda é fértil
Se Bolsonaro fosse o pai do bolsonarismo, sua condenação o teria deixado órfão. Jair foi condenado pelo Supremo a 27 anos e três meses de prisão por liderar uma tentativa de golpe de Estado e hoje cumpre pena em casa. Ainda assim, o primeiro turno de 2026 deu ao PL a maior bancada do próximo Senado, com 28 das 81 cadeiras; Os novos capitães do neobolsonarismo, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, passaram, cada um, de três milhões de votos; quatro membros da família se elegeram; Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno na frente, com 47,03% dos válidos. O ventre continua gerando. A gramatica neobolsonarista, tal como a tradução bíblica, foi revista e atualizada. Essa gramática já dispensa o patriarca e fala com gíria jovem e sotaque digital. Em 2024, na Avenida Paulista, Michelle Bolsonaro reescreveu o Salmo 24, “Do Senhor é o Brasil e a sua plenitude”, convocou um “exército de Deus nas ruas” e lamentou que, por negligência, se tivesse aceitado não misturar política e religião: “o mal ocupou o espaço”. Em 2026, Flávio prometeu “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Quatro dias após o primeiro turno, o canal oficial do PL no WhatsApp convocou a “Tropa do Flávio” com o rosto do candidato numa composição que remetia à fachada do Palazzo Braschi, sede da federação fascista de Roma, onde em 1934 o rosto de Mussolini aparecia rodeado de “SI”. Ao ser retirada, a nota do partido a atribuiu ao PL Jovem, “inspirada em peças gráficas da antiguidade”. Escrevo da Itália, onde essa antiguidade tem data, rosto e vítimas.
No epílogo de A resistível ascensão de Arturo Ui, Brecht advertiu que ninguém triunfasse cedo demais: “Der Schoß ist fruchtbar noch, aus dem das kroch“, ainda é fértil o ventre de onde aquilo rastejou. Brecht não estava falando apenas de Hitler. O aviso era sobre o ventre: enquanto permanecerem vivas as condições que produzem o autoritarismo, outro rosto pode ocupar o mesmo lugar. Dorothee Sölle, que fez teologia depois de Auschwitz perguntando como aquilo pôde acontecer, viu o ventre se mover em outro continente. Em 1982, diante da Maioria Moral americana, escreveu que seu crescimento marcava a vitória da religião autoritária sobre a humanitária, uma espécie de “fascistização rastejante”, e deu nome ao pesadelo: religião cristofascista, que deixa de fora o chamado profético por justiça e treina seus seguidores para um “discipulado sem custo” e uma “obediência sem substância”. Em 2020, o teólogo Fábio Py aplicou o conceito ao Brasil de Bolsonaro. Volto a Números. O relato não se resolve com a troca de liderança; a travessia custa uma geração inteira. Trocar a cabeça não cura o desejo de Egito. Quem espera que o bolsonarismo acabe com o o caso de Jair confunde o capitão com o medo que o levantou.
O rei sem soldados
O fundamentalismo nasceu, em 1920, como disposição para a batalha campal. Curioso que tenha esquecido o fundamento que Jesus oferece a Pilatos no Evangelho de João: “Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servos lutariam”. A palavra grega para servos, hyperētai, é a mesma que o evangelista usara pouco antes para os guardas que chegam ao jardim com tochas e armas, enviados pelos sumos sacerdotes e fariseus, ao lado de uma corte romana. No relato, quem dispõe de servos armados é a aliança entre a aristocracia sacerdotal e o poder imperial; o reino de Jesus se define por não tê-los. Pouco depois, são os sumos sacerdotes, cujo cargo dependia do prefeito romano, que respondem a Pilatos: “Não temos rei senão César”. Um “exército de Deus nas ruas” e uma “Tropa do Flávio” pertencem à cena dos guardas, não à do prisioneiro. Sölle deixou uma pergunta que serve de exame de consciência ao cristianismo brasileiro: por que as pessoas adoram um Deus cuja qualidade suprema é o poder, e não a justiça? O bolsonarismo foi parido quando parte da igreja respondeu escolhendo o poder, e o neobolsonarismo seguirá se proliferando enquanto essa escolha for pregada como fidelidade sectária. Quem diz seguir o rei que mandou Pedro guardar a espada não tem por que levantar um capitão. Ou o filho dele.
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/levantemos-um-capitao/


