Nomear experiências: essa é uma das funções possíveis da literatura. Muitas vezes, a literatura se posiciona na vanguarda da compreensão do humano e do mundo social. Mediante imagens e metáforas, ela pode antecipar debates que serão sistematizados por diferentes saberes, tais como a sociologia, a antropologia, a psicanálise e a filosofia. Em seu clássico estudo sobre literatura fantástica publicado na década de 1970, o teórico Tzvetan Todorov mostrou como os contos fantásticos do século 19 – com seus deliciosos não ditos –, habitados por monstruosidades góticas, antecipavam teorizações sobre a psique humana que seriam realizadas por Freud e pela psicanálise.
Não por acaso, aliás, o grande conto de horror e ficção científica do século 19, O homem da areia, de E. T. A. Hoffmann, foi uma das bases para um dos mais instigantes ensaios escritos por Freud, o “Estranho/Inquietante/Infamiliar”. Curioso: o gesto crítico freudiano, baseado em um clássico da literatura fantástica, posteriormente alimentará a crítica e a teoria literárias que, ao longo das últimas décadas, buscarão definir a própria natureza do fantástico.
Dentro do rico universo da literatura fantástica, a ficção científica pode ser pensada como uma das formas de nomeação do porvir. É necessário, porém, desdobrar as nuances dessa ideia. É frequente associar a ficção científica a uma expectativa profética. Tal qual um profeta bíblico no alto da montanha, o autor ou a autora de ficção científica enxergariam o vir-a-ser e nos dariam vislumbres de como a humanidade caminharia. Embora muitas obras de ficção científica tenham sido escritas com tal ambição, não é exatamente nesse ponto que reside a força dessa literatura.
O caráter visionário da ficção científica só reforça o poder geral da literatura. No entanto, mais do que reforçar esse poder, mais do que “prever” o futuro, a ficção científica busca dar nome à nossa imaginação sobre o futuro. Todo futuro imaginado é também resultado de especulações sobre a contemporaneidade. Assim, um excelente seriado como Ruptura, da Apple TV, nos leva tanto a entendermos os atuais impasses do mundo do trabalho quanto a projetarmos possíveis novas contradições do trabalho no horizonte do possível. É nesse lugar que Relatório máquina-máquina, romance de estreia do escritor L. K. Nogueira, publicado recentemente pela Cachalote, pode ser situado.
Nogueira se insere em uma tendência muito rica da ficção científica brasileira: a de pensar como a tecnologia e a política moldam formas possíveis de organização social em nosso país, ou em mundos imaginados. O autor se mostra fascinado (e quem, no fim das contas, não o é?) com a ideia do fim do mundo. No universo criado em seu romance, o mundo como o conhecemos acabou por volta do ano de 2060. Se durante o auge da Guerra Fria imaginava-se com frequência que o mundo terminaria com uma hecatombe nuclear, Relatório máquina-máquina narra um típico fim dos tempos deste nosso momento no século 21: sem entrar em detalhes, o romance nos explica que forças políticas polarizadas, somadas ao fanatismo religioso e à profunda desigualdade social, destruíram o mundo – movimento que interpreto como um suicídio coletivo que assustadoramente espelha a nossa atual pulsão de morte coletiva.
O interesse de L. K. Nogueira, no entanto, não se concentra tanto em como chegamos ao fim, mas, sim, naquilo que sobra quando o apocalipse termina seu processo corrosivo. É nesse ponto que identifico duas características fortes do romance: a ironia e a estrutura. Ao pensarmos um apocalipse, o horror e o aproveitamento da imagética bíblica não são os únicos caminhos possíveis. O nonsense, o absurdo, podem muito bem ser convocados. É isso o que o autor faz, acertadamente, ao construir a sua distopia. A única cidade que sobrevive ao apocalipse é, no mundo todo, a nossa Brasília. Isso nos leva a uma série de situações irônicas, pois Brasília se torna o lugar de reconstrução de toda a humanidade.
Após o fim do mundo, no entanto, a humanidade não parece ter aprendido muito bem a lição – porque as nações que são representadas diplomaticamente em seu território buscam reproduzir as mesmas dinâmicas falidas pré-apocalipse. Há também, ainda nesse âmbito da ironia, uma divertida paródia da vida brasiliense. Imaginemos: terminado o apocalipse, resta da humanidade uma única cidade, conhecida pela grande quantidade de funcionários públicos, mas que agora estão sem um Estado ao qual servir.
Outro acerto do romance é a sua criativa estrutura. A premissa absurda de Brasília como a única cidade viva no planeta não se sustentaria com uma forma romanesca convencional; de modo que L. K. Nogueira escolhe construir o seu universo pela fragmentação. Relatório máquina-máquina é uma colagem de diferentes tipos de textos e de vozes, uma exploração do potencial polifônico do gênero romance como um todo. Além disso, destacam-se as imagens inseridas ao longo das páginas, que reconstroem paisagens de Brasília simulando imagens dos primórdios da arte digital, em que formas figurativas eram construídas por símbolos ou pontos, e às vezes impressas em impressoras matriciais.
Em contrapartida, percebe-se, em Relatório máquina-máquina, o quanto a escrita do autor ainda se encontra em certo viés de amadurecimento. Mesmo em uma poética tão fragmentada, ele exagera em aspectos lacunares e dispersivos. O personagem principal, Jafé, mereceria, por exemplo, um pouco mais de desenvolvimento. Nogueira acerta em criar para Jafé, e para os outros personagens, uma aura de banalidade – torna-os anti-heróis ideais para o uso da ironia. O nonsense que fundamenta a obra, porém, nunca é levado às últimas consequências. Por fim, na caminhada para o desfecho, o romance assume ares de suspense relacionados a uma missão de resgate: parte do livro que parece integrar uma outra obra, deslocada do todo.
Relatório máquina-máquina é um bom exemplo de pluralidade e riqueza da literatura fantástica brasileira hoje. No caso de L. K. Nogueira, ainda que sua força criativa não se apresente com plena maturidade literária, temos uma obra que revela o quanto a ficção científica nos ajuda a lidarmos com nossa ansiedade – em um momento no qual a ideia de “apocalipse” salta da imaginação a fim de ocupar o nosso próprio quintal.
Cristhiano Aguiar é escritor, crítico literário e professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie
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